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quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Jarra cabaça azul com guarnição de metal Paul Milet - Sèvres


O modelo de jarra em forma de cabaça canelada que hoje postamos já aqui foi apresentado em 14 de janeiro de 2012. A diferença passa pela cor, neste exemplar simulando crisocola, a azul-ultramarino e a amarelo, como palhetas de ouro, dando cambiantes esverdeados, e pelos motivos decorativos da guarnição de metal (bronze?), igualmente art déco, formando anel cintando o bocal de onde pendem três conchas ou palmetas classicizantes que intercalam com igual número de cadeias geométricas formadas por trapézios escalonados. No fundo da base, carimbo circular pontilhado envolvendo «MP» «Sèvres» e, pintado à mão, «V».
Data: c. 1920-25
Dimensões: alt. 15 x larg. 11,5cm


Numa colecção, a constituição de séries permite compreender como um mesmo elemento decorativo (neste caso a cadeia geométrica formada por trapézios escalonados), repetido em contextos e associações diferentes, dá origem a novas composições decorativas.

A guarnição metálica, mais uma vez, contribui para enobrecer a cerâmica, numa continuação das tendências decorativas do Barroco, neste caso para enfatizar a estética art déco da época pouco evidente na forma desta jarra que remete para modelos orientais.



domingo, 15 de julho de 2018

Jarra craquelé com decoração à chinesa – Sacavém



Jarra de faiança moldada, piriforme de colo invertido e pequena gola elevando o bocal circular. De cor branco-sujo e craquelé miúdo, apresenta, em lados opostos, decoração manual a preto e laranja, aplicada sobre o vidrado, com motivo de cerejeira retorcida com algumas flores, emergindo de um terreno ondulado às escamas, ao gosto chinês. Bocal cintado por corrente de elos a laranja e preto intercalados. No fundo da base, carimbo preto «Gilman & Ctª – Sacavém» «Made in Portugal» sobreposto a outro carimbo idêntico amarelado, e, em relevo na pasta, «80».
Data: c. 1930 – 40
Dimensões: Alt. 14 cm


A Fábrica de Loiça de Sacavém é uma caixinha de surpresas. Desta vez uma inesperada - pelo menos para nós que desconhecíamos este tipo de produção - jarra craquelé com decoração de chinoiserie. As cores são totalmente art déco e a estética orientalizante, presente também no craquelé, acentua esse gosto pelo exótico que se manteve durante os anos 20 e 30, senão mesmo por toda a primeira metade, do século XX. Não sabendo a data de produção é por estas características formais que a datámos. De qualquer maneira encontamos semelhanças nesta decoração com a de 1927/1929 que o artista vidreiro francês Schneider baptizou "Bonzai".  Uma peçazinha de qualidade que demonstra bem que Sacavém era outa loiça…


domingo, 8 de julho de 2018

Jarra art déco com guarnição metálica com rosas – Paul Milet - França


 Jarra de faiança moldada em forma de balaustre, de cor azul-turquesa exteriormente manchado, simulando crisocola, a azul-ultramarino e a amarelo, como palhetas de ouro, dando cambiantes esverdeados. A peça é envolvida por guarnição de metal martelado (bronze?), que cinta bocal, bojo e pé. Do anel do bojo pendem fitas, à maneira de festões, subdividindo a jarra em três faces, que se unem a “pilastras” saindo da base, encimadas por rosas e folhagem. No fundo da base, carimbo circular pontilhado, preto, envolvendo «MP» «Sèvres» e, à mão, também a preto, «V».
Data: c. 1920
Dimensões: Alt. 33 cm


Não é a primeira vez que postamos uma jarra Paul Milet aqui no blogue e, certamente, não será a última, pois a nossa pequena colecção de cerâmica francesa ainda inclui mais umas quantas que haveremos de aqui mostrar um dia. Porém, como já passou tanto tempo desde a última peça desta manufactura, recapitulamos um pouco da sua história com mais alguma informação.

Paul Milet começa a assinar as peças produzidas na sua manufactura com MP Sèvres dentro de círculo pontilhado a partir de 1911, depois da morte de seu pai Optat Milet. Com o decorrer dos anos a vizinha Manufactura Nacional de Sèvres, também conhecida por Manufactura de Porcelana de Sèvres (MPS), preocupada com as confusões possíveis por causa das semelhanças de nome que outras marcas cerâmicas locais propositadamente provocavam, devido ao seu prestígio histórico, ameaçou processá-las. Foi o caso de Paul Milet que, para evitar conflitos judiciais, a 4 de Outubro de 1930, deposita nova marca invertendo as iniciais para PM Sèvres dentro do mesmo círculo pontilhado.

A jarra de hoje estilisticamente integra-se numa vertente art déco inicial, conservadora, pelo que a datamos como sendo anterior a 1925, muito provavelmente entre 1915-20. 


domingo, 29 de outubro de 2017

Jarra 734-A – Aleluia-Aveiro


Hoje voltamos à produção dos anos 50 da Aleluia-Aveiro com uma peça que achamos muito engraçada, pois lembra-nos o corpo de ave com pescoço virado para trás, sem cabeça e patas. Ideia reforçada pela decoração que parece remeter para asas.


Trata-se de uma jarra de faiança moldada e relevada, freeform, de bojo pançudo e colo lateral curvo com incisões que delimitam as cores. A decoração é simétrica, de bandas sinuosas, a preto, branco-nacarado e cor-de-laranja, que enfatizam as laterais, sobressaindo o dorso branco e o “peito” branco-nacarado. Interior a amarelo-nacarado. No fundo da base, carimbo circular a castanho «Aleluia-Aveiro» envolvendo «//» pintados à mão, a preto, sobrepujando «Fabricado Portugal», inscrito num rectângulo. Pintado à mão, a preto, «734-A» (forma e decoração). Foi furada junto à base, na parte de trás, e no fundo da base, para adaptação a candeeiro.
Data: c. 1955-60
Dimensões: Alt. 26 cm x comp. c. 22 cm x larg. c. 15 cm



domingo, 15 de outubro de 2017

Jarra art déco com flores de Raoul Lachenal – França


Jarra art déco de grés porcelânico, modelada em forma de balaústre, de cor verde-bronze antigo mate, com decoração de flores estilizadas, a branco-mosqueado igualmente mate, de corolas poligonais irregulares, raiadas a partir de centro circular. As flores, de diferentes tamanhos, serpenteiam de um só lado subindo pelo bojo, num esmalte espesso delineado a corda seca. Bocal saliente em forma de anel liso. No fundo da base, pintado à mão, a castanho, «Raoul Lachenal».
Data: c. 1920
Dimensões: Alt. 18 cm


Trata-se de uma peça bem exemplificativa do abandono da estética Art Nouveau por Raoul Lachenal que, mantendo o japonismo, aligeira e geometriza a decoração de acordo com os novos cânones que a exposição de Paris de 1925 haveria de sintetizar. Uma estética que, na sua simplificação de formas e decorações, oscilou entre o culto do objecto único e irrepetível e a produção seriada para consumo mais alargado.

Claramente influenciada pelas formas e decorações do Extremo Oriente, esta jarra remete igualmente para os trabalhos de bronze dessa região e para a dinanderie tão em voga na França à época.

A técnica do petit feu utilizada por este ceramista, que integra um grupo menos preocupado com a tradição, procura a renovação da arte milenar da cerâmica graças a novas experimentações mais abertas ao tempo que passa, às modas ou à própria personalidade dos criadores. (Edgar Pelichet – La Cèramique Art Déco, 1988).

Dado o esmalte verde-bronze não recobrir uniformemente a superfície da jarra, transmite a ilusão de uma pátina antiga, de matéria envelhecida e suja pelo tempo, ideia retomada no branco-mosqueado das flores, o que confere à peça um requinte e uma sumptuosidade de grande expressividade.

Raoul Lachenal, percebendo o seu tempo, foi dos poucos grandes ceramistas mundiais, a par de Bonifas, que, sem abdicar da peça artística e única, procurou produzir seriados.


Um aparte: quando, na nossa colecção, integramos peças Arte Nova japonizantes, pretendemos ilustrar, para nosso gozo pessoal, a evolução de um gosto que marcou indelevelmente a estética ocidental e a Art Déco em particular, de que esta jarra é um modelo exemplar.

domingo, 27 de agosto de 2017

Jarra “Portugália” art déco com rosas - Sacavém

Voltamos hoje à jarra «Portugália», o formato nº 20 do catálogo de jarras da década de 1930, não impresso, disponível no Museu de Cerâmica de Sacavém - Centro de Documentação Manuel Joaquim Afonso. É o quarto exemplar deste modelo que aqui apresentamos com uma decoração completamente distinta.


Jarra art déco de faiança moldada, vidrada a branco com decoração policroma com motivo estilizado de rosas em dois tons de cor-de-rosa e folhagem a verde, delineados a negro, segundo a técnica da estampilha aplicada manualmente sobre o vidrado. O gargalo, pintado igualmente sobre o vidrado, é cintado por faixas a rosa e verde, delineadas a preto. No fundo da base carimbo verde «Gilman & Cdtª– Sacavém» sobrepujando «Portugal» e inscrito na pasta «JL» [autor do decor?].
Data: c.1930 - 35
Dimensões: alt. c. 20 cm


A propósito deste modelo, aproveitamos para reflectir um pouco sobre a produção cerâmica da Fábrica de Loiça de Sacavém, considerações que, no entanto, nos parecem, de uma maneira geral, pertinentes relativamente às demais fábricas nacionais.

Constatamos existir em Sacavém uma maior diversidade nas decorações face à quantidade de formas produzidas. É o caso das jarras, por exemplo. Na verdade há um reduzido número de modelos na década de 1930, que mantém ainda em produção formas de uma estética anterior, nomeadamente Arte Nova, situação que se prolonga pelo menos até aos anos 50.

Por um lado, poder-se-á justificar pela ausência de designers criadores de novas formas o que obrigava à compra (ou à cópia) de modelos estrangeiros. Implicava custos acrescidos na produção, o que não deveria ser muito vantajoso num mercado pequeno e onde a concorrência era muita, mesmo quando se exportava. Por outro lado, talvez entre o público-alvo consumidor não fosse sentida a falta de novidades constantes, porque maioritariamente pouco escolarizado e de parcos recursos económicos. A pequena elite portuguesa tinha acesso à produção importada se o entendesse.


Apostar sobretudo nas decorações permitiu que a produção de uma mesma forma se prolongasse no tempo e daí encontrarmos este modelo que vinha, pelo menos, desde cerca de 1930, ainda em produção durante a década de 50, embora nesta década apareça sob a designação de «Jarra Portugália, n.° 17» (tabela de Maio de 1951). Ver post de 4 de Junho de 2012.

Neste exemplar estamos perante uma decoração muito art déco com motivo estilizado de rosas e folhagem e cores planas, daí estarmos convictos de que se enquadra na cronologia que propomos.

sábado, 19 de agosto de 2017

Jarra Arte Nova com dente-de-leão – Rörstand - Suécia


Jarra Arte Nova de porcelana moldada, em forma de balaustre, de cor verde-cinza pálido manchado, decorada por um pé de dente-de-leão com três hastes florais já em fruto (aquénio), circundando parcialmente o bocal baixo, e igual número de folhas serrilhadas verde-cinza escuro, que se agitam como chicotes. No fundo da base, carimbo verde «Rörstrand», envolvido por 3 coroas, e, pintado à mão, «G.A.» (autor) e «5545» (modelo). Inscrito na pasta «I».
Data: c. 1900
Dimensões: Alt. 18 cm x Ø máx. 10 cm


Os pompons formados pelos penachos brancos que coroam as sementes, dispostas em esfera, do dente-de-leão (Taraxacum officinale), encantam crianças e adultos. É difícil resistir a não apanhar um para, com um sopro, dispersar os etéreos paraquedas que levados pelo vento espalham as sementes da planta. À sua beleza em fruto também não ficaram indiferentes os artistas plásticos.

Foi o caso do autor deste exemplar, Georg Kristian Asplund (1873 - 1963), que começou a sua carreira como estudante de pintura sobre porcelana na Rörstrands Porslinsfabrik, em 1891, e pintor de porcelana especializado nos anos 1898-1911 na mesma fábrica.


O japonismo é evidente nesta decoração Art Nouveau, com o elemento vegetal a revestir parcialmente o bojo da jarra. Uma vez mais, como já havíamos escrito a propósito de exemplares pâte-sur-pâte desta fábrica sueca, encontramos reproduzido um elemento da flora local, espécie, aliás, comum a toda a Europa, mas aqui representada numa agitação nervosa contrária à natureza da própria planta. As folhas são silhuetas reconhecíveis mas não naturalistas, tal como os frutos, reduzidos à geometria do círculo e regularmente alinhados no topo do bojo.

Este arrojo de linhas, tanto do agrado da estética Art Nouveau, acaba por dar uma ressonância estranha à representação, afastando-a do naturalismo habitualmente empregue.

sábado, 31 de dezembro de 2016

Jarra oitavada com fetos – Longwy - França

Apesar da pouca assiduidade que tivemos neste último ano no que diz respeito ao Moderna Uma Outra Nem Tanto, não queríamos finalizar 2016 sem trazer novidades e desejar os tradicionais votos de Bom Ano.


Jarra art déco de faiança moldada, oitavada e craquelé com os ângulos sublinhados a ouro, tal como o anel saliente do bocal. Sobre o fundo beige dos 2/3 superiores da peça destacam-se, também a ouro, volutas formadas pelo desabrochar de folhas de feto. O terço inferior preenchido por campo de flores, a amarelo e laranja, e folhas estilizadas em tons de encarnado. Os esmaltes coloridos são aplicados segundo a técnica da corda seca ou “relevo contornado”. No fundo da base, carimbo a preto esverdeado com o brasão dos Houart, «Longwy – France». Pintado à mão, a preto, «242» e «D.5060». Inscrito na pasta 3070.
Data: c. 1925-30
Dimensões: alt. 38 cm


Já aqui apresentámos esta mesma forma com outros tamanhos. Esta é maior de todas. A decoração é de Raymond Chevallier, de quem já falámos.

Escolhemos habitualmente um peça Longwy esmaltada para finalizar o ano, dado o seu optimismo mundano se enquadrar numa quadra festiva como esta, em que se renovam votos de saúde, amor, paz e prosperidade.

E para simbolizar tudo isso que melhor pode haver que a representação da pujança e força orgânicas das plantas, tão bem expressas no desenrolar de uma folha de feto? Um renascer e um renovar de vida constantes.

Foram características recorrentes na Arte Nova e uma das suas principais especificidades, todavia, o Art Déco vai buscar também o elemento vegetal mas a linguagem com que o vai vestir é radicalmente diferente desse outro estilo mais sinuoso, feminino e que privilegiava a assimetria. A organicidade aqui ganha contornos de mecanização, com plantas estilizadas, geometrizadas e de cores planas, sem cambiantes, aplicadas de forma repetitiva.


Estes fetos, que se desenrolam num espiralado esquinado, tal como a própria forma da jarra, não germinam de uma manta morta vegetal, natural, antes crescem sobre uma superfície atapetada de estranhas flores, talvez rosas, que abrem entre folhagem. Tudo num registo de artificialidade assumida.

Uma criação visual optimista, que aceita a mecanização da própria natureza como atributo do progresso civilizacional em marcha, e símbolo de modernidade, pois no futuro a máquina substituirá a força braçal da humanidade permitindo, finalmente, o direito ao bem-estar e ao lazer. Um futuro sem guerras, pois a última tinha sido um pesadelo que a condição humana não poderia aceitar nunca mais.

Paradoxalmente, ao olhar contemporâneo poderá ter uma outra leitura. Talvez porque estamos hoje mais conscientes de que o avanço civilizacional não é linear nem forçosamente progressista.

Assim, toda esta vegetação poderá ser interpretada como ameaçadora, carnívora. Sobre a ilusão floral erguem-se tentáculos sinistros. Previa-se, então, o futuro próximo e a guerra mundial seguinte? Ou será a nossa mente que, perante a repetição da loucura da guerra mundial em curso, o terrorismo, os fundamentalismos, a eleição de Trump, o degelo e a consequente subida das águas, a intolerância fascista do politicamente correcto e de todas as outras, imagina coisas?


Bom, a intenção era encerrar o ano com uma visão de futuro optimista e a bonita jarra isso prometia. Mas, mais uma vez o balanço anual fez-nos cair na tentação contrária. Porém, como ainda acreditamos no Homem e a Esperança é a última a morrer, renovamos os votos de 


segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Jarra cónica da Villeroy & Boch – Wallerfangen - Alemanha

Como há algum tempo não postamos nenhuma peça da nossa colecção de faianças aerografadas (spritzdekor na expressão alemã que tanto gostamos), hoje retomamos o tema com uma peça, em nossa opinião, de forte presença decorativa e estimulante modernidade avant-garde.


Jarra de faiança moldada, em forma de cone invertido, canelado junto ao bocal, assente sobre pé circular saliente e escalonado. Decoração estampilhada e aerografada, a mate, com motivos geométricos, de tons pastel (verde-claro, amarelo e castanho) em esfumado. No fundo da base, carimbo circular preto «VB-Villeroy & Boch» sobrepujando «Wallerfangen». Também carimbado a preto «2782YG» e, inscrito na pasta «588».
Data: c. 1929
Dimensões: Alt. 20 cm x Ø 19 cm (bocal)


O abstracionismo geométrico da decoração aposto à forma bauhausiana desta jarra é bem o exemplo de como a art déco alemã da República de Weimar, a partir de finais dos anos 20, adaptou o trabalho das vanguardas artísticas de modo a poder ser apropriado pelas classes populares.

Fascina-nos este ideal democratizador que, por um curto período, percorreu a Alemanha de então – no caso, a produção desta unidade fabril da V&B de Wallerfangen terminou em 1931, por encerramento da fábrica.


Já não é o luxo dos objectos que está em causa nesta art déco para produção em massa, mas sim a sua qualidade plástica, que vai ser apreciada transversalmente pelas diversas classes sociais germânicas. Antes, ainda, da crise económica de 1929, impunham-se formas e decorações modernas em materiais acessíveis, de que é exemplo a faiança, que concorria agora em pé de igualdade com a própria porcelana, como já tivemos oportunidade de escrever.

sábado, 6 de agosto de 2016

Jarra modelo 148-C - Aleluia - Aveiro


Jarra de faiança moldada, piriforme, com decoração pintada à mão. O bojo pronunciado é pintado no fundo a verde, cor sobre a qual “pende”, como uma cortina de recorte branco debruado a preto, decoração com arabescos neo-renascentistas a branco, realçados a acastanhado e amarelo, em fundo avinhado, que enquadram três medalhões polilobados, orlados a amarelo e acastanhado delineados a preto, que envolvem um cravo aberto cor-de-rosa sobre o qual evoluem enrolamentos de folhagem e outra flor da mesma espécie a abrir. Estrangula num anel relevado preto, de onde parte o gargalo lotiforme, rosa-avinhado em esfumado. O branco do interior morre no bocal curvo debruado a preto, cor também do pé. No fundo da base, carimbos a preto, um circular sobre rectângulo «Aleluia-Aveiro», com algo indecifrável no centro, sobrepujando «Pintura manual» e «Portugal». Pintado à mão, a preto, «148 – C».
Data: c. 1945 - 50
Dimensões: alt. 29 cm


Já aqui tínhamos postado, em 5 de Outubro de 2013, uma jarra modelo 148 mas complementado pela letra «X», correspondente a uma das últimas decorações aplicadas a esta forma.

Tal como então dissemos, no catálogo de loiças decorativas de inícios dos anos 40 a forma nº 148 aparece-nos ilustrada com as decorações «A» e «B», as duas primeiras de toda uma série. Pela lógica sequencial a que hoje se apresenta corresponderá à terceira aplicada a este modelo. Uma outra decoração com cravos já se fazia anunciar num modelo (79-B) mais pequeno no referido catálogo.

A sua decoração é muito eclética nas referências. Um ecletismo tardio e conservador. Encontramos nela laivos de grotescos neo-renascentistas nos arabescos que enquadram os medalhões com sugestões florais ainda de uma certa tradição Arte Nova que Aleluia-Aveiro cultivou até tarde. Depois, em termos técnicos, temos a pintura manual da quase totalidade da peça, excepção feita no gargalo que aparece finamente esfumado a aerógrafo. Digamos que se trata de uma decoração “reacionária” e, não fora tê-la encontrado na Bélgica, talvez nem a tivéssemos adquirido. Mas as colecções também são feitas de acasos, ou de afectos, e neste caso comprámo-la apenas pelo prazer de fazer regressar a casa mais uma peça portuguesa.

Se a memória não nos falha, já por aqui teremos escrito, citando Marc Guillaume, que “conservar é lutar contra o tempo”. Porque está subjacente ao acto de coleccionar o facto de se preservar, sentimos que contribuímos, à nossa pequena escala e parcos recursos, para mantermos acesa essa referência à memória e sentimento de posse colectivos. É que muitas colecções privadas contribuíram no passado, e continuam a contribuir ainda hoje, para dar origem ou engrossar acervos públicos ou de acesso público, ou para integrar exposições temporárias temáticas.


O futuro ditará o destino desta nossa colecção. Talvez nem assistamos ao desfecho, mas gostaríamos que pudesse um dia vir a integrar uma colecção pública. Estamos em crer que contribuiria para um melhor conhecimento da cerâmica decorativa e de uso quotidiano produzida no nosso país na primeira metade do século XX. Um olhar pessoal, certamente, mas será pela soma das partes e pelas diferentes leituras que cada um faz individualmente, que poderemos ter uma melhor interpretação do todo.

Como vivemos inseridos no contexto específico europeu, a transversalidade cultural reflectida nas demais produções deste continente no mesmo período cronológico é absolutamente fundamental para o entendimento geral e daí a nossa preocupação em ir pontuando o nosso acervo com exemplares de outras nacionalidades. É conhecendo os outros que também nos vamos conhecendo a nós próprios.

domingo, 12 de junho de 2016

Jarra canelada marmoreada – Lusitânia-Coimbra


Jarra de faiança moldada, em forma de granada ou de barrica canelada na horizontal, assente em pé saliente, com decoração marmoreada, a verde que alastra como óleo sobre creme-amarelado, com lustrina, que lhe dá um efeito suavemente irisado. No fundo da base, carimbo estampado verde, pouco legível, «Lusitânia – ELCL (?) – Coimbra – Portugal»
Data: c. 1930 - 40
Dimensões: Alt. 15,5 cm


 A forma será resultado da importação de modelo estrangeiro, dentro da gramática art déco modernista.


Um tipo de decoração marmoreada semelhante, com outra cor e expressão, foi mostrado
(1 de Dezembro de 2011) neste blogue a propósito de uma peça de Sacavém, que, então, incorrectamente datámos entre c. 1910-18. Hoje inclui-la-íamos na mesma cronologia desta jarra Lusitânia, tal como a jarra da francesa Onnaing que se ilustra, retirada da net (leilões eBay-Fr). Poderá ser esta produção francesa a estar na génese do exemplar de Sacavém, embora este tipo de efeitos tenha sido explorado em diversas fábricas de cerâmica de distintos países. O resultado “mancha de óleo” obtido pelo acaso da dissolução dos pigmentos sobre a cor base da peça é muito semelhante aos obtidos no papel marmoreado, de que se dá também exemplo infra. 


domingo, 22 de maio de 2016

Jarra de flores castanhas - Lusitânia - Coimbra


Jarra de faiança moldada, em forma de balaústre bojudo com gargalo curto evasé e pé em meia-cana. Bojo decorado com composição floral pintada à mão em tons de castanho. A parte superior do bojo, de fundo castanho no prolongamento do estrangulamento do gargalo, é cintada por grandes flores, de duas espécies, intercaladas, que pendem com demais folhagem sobre o branco marfim do fundo. Pé uniformemente a castanho, tal como o gargalo. Interior branco. No fundo da base, pintado à mão, a castanho, «Lusitânia Coimbra».
Data: c. 1930-40
Dimensões: Alt.34,5cm


Não se pode dizer que tenhamos adquirido esta peça porque gostámos dela. Pelo contrário, não gostamos. Todavia, achámos curioso o facto de ter a mesma decoração da jarra quadrilobada que postámos em 7 de Janeiro de 2013 e que muito apreciamos. Esta jarra de flores castanhas é estranhamente grosseira e pesada, por contraponto à elegância da azul. Talvez pela dimensão, pela forma, pelo horror ao vazio e mesmo pela cor, ou tudo junto. Se na outra versão a composição respira, nesta tudo abafa, mesmo que se esvaia em direção à base.

Mas colecionar de uma maneira que diríamos científica – porque busca congéneres, relações, modelos, referências… - requer alguns sacrifícios à bolsa e ao olhar. Está escondida, mas se, porventura, nos libertássemos do parti pris e experimentássemos expô-la, até poderia ser que resultasse bem sem outra ornamentação nas proximidades, recortando-se no branco de uma parede. Talvez um dia...


Inserimo-la, no entanto, num certo gosto art déco de cariz popular e, também por isso, faz sentido integrá-la na nossa pequena colecção de peças da Lusitânia-Coimbra dedicada a essa gramática.


quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Jarra cantil decagonal – Longwy - França


Jarra art déco de faiança moldada e relevada, craquelé, em forma de cantil decagonal, com decoração cubizante, policroma esmaltada, cloisonné, segundo a técnica da corda seca ou “relevo contornado”, em três tons de azul e branco, com motivos florais e geométricos, nas duas faces e perfil a azul-forte. Pé saliente e bocal octogonais a azul-forte, tendo o último a parte superior a azul mais claro. No fundo da base, carimbo preto com escudo coroado sobrepujando «LONGWY FRANCE» e, pintado à mão, «D.5457» e carimbos «L» e «37» (?)
Data: c. 1920-30
Dimensões: Alt. 19 cm x Ø. 16 cm x larg. 5 cm


A exuberância da decoração, em flores que explodem como fogo-de-artifício, cortadas pela geometria dos rectângulos, é bem exemplificativa de um Cubismo amável que perdeu a agressividade escandalosa da década anterior e já pode ser aceite tranquilamente nos lares burgueses. Aliás já prenunciado pelo cubismo de pendor decorativista de André Lhote, por exemplo, desde meados dos anos 10.


Deixemos de lado o objecto. Hoje acaba mais um ano e as expectativas de um 2015 feliz goraram-se na voragem da irracionalidade a que o Homem parece estar sempre condenado. Efeitos da Caixa de Pandora, certamente.

Apesar da crise europeia, apesar das nuvens negras que se adensam no horizonte a Oriente, terrorismo e fundamentalismo islâmicos não serem mais que uma guerra em grande parte induzida pelo domínio da água, muito mais preciosa que o petróleo, apesar das alterações climáticas e deste excesso de calor pouco usual para a época do ano – El Niño volta lá para onde vieste – o ritual de renovação que a passagem do ano significa para a Civilização Ocidental, leva-nos a ser optimistas.

Assim, e como vem sendo tradição no nosso blogue, os votos de Ano Novo, com desejos de Paz, Amor e Prosperidade, são ilustrados com uma peça Longwy. É que não há nada tão optimista como uma jarra dos anos 20 e 30 desta fábrica!

Talvez temesse pelo futuro mas a sua produção art deco é então um hino à Esperança que nunca abandona o Homem mesmo em tempos que anunciam tempestade.


sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Jarra nº 542 – Denbac - França


Jarra art déco de grés moldado, em forma de balaústre, de cor verde-bronze não uniforme, com escorridos a partir do bocal em tons de castanho. Bojo redondo mas que se torna hexagonal na parte superior ressaltando ligeiramente de modo a formar o bocal sextavado. Pé saliente circular, assente sobre base hexagonal, com reforços cónicos embebidos a partir dos vértices do hexágono. No fundo da base é pouco perceptível a marca incisa (Denbac) coberta na sua quase totalidade pelo esmalte.
Data: c.1925-30
Dimensões: Alt. c. 26 cm

Trata-se de um modelo do período geométrico art déco, a forma n° 542 do catálogo da fábrica Denbac, em Vierzon.

A versão cromática deste exemplar acentua mais uma vez a ideia de que estamos perante um objecto de metal remetendo, sobretudo no desenho da base, para uma estética industrial. Esta tendência parece ser muito comum a partir dos anos 20 na produção da Denbac, substituindo paulatinamente as formas biomórficas anteriores da gramática Arte Nova, embora estas perdurem no catálogo da fábrica e continuem a ter sucesso até ao seu encerramento em 1952.


terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Jarra art déco «Quatro Asas» - Vista Alegre


Jarra art déco de porcelana moldada, em forma de balaústre, com 4 pequenas asas. Sobre a cor branca base a parte superior do bojo recebeu pintura, sobre esmalte, a preto e hastes florais policromas com folhas e caules a verde. No prolongamento das asas a cor preta, entremeada de flores e folhas, é prolongada até ao pé, seccionando o bojo em quatro partes, por sua vez seccionadas por quatro linhas a dourado. Bocal, pé e parte exterior das asas a dourado, Interior destas últimas a preto. No fundo da base, carimbo V.A. (marca nº 31 utilizada de 1924-1947). Inscrito na pasta «4»
Data: c. 1930
Dimensões: Alt. 25 cm


Sobre este formato nº 1169 (Quatro Asas) produzido pela Vista Alegre a partir de um modelo criado em 1893 para a Manufacture National de Sèvres – o designado «Vase de Bourges» - já escrevemos em 18 de Janeiro deste ano a propósito de outra jarra. E o quão é diferente desta que postamos hoje. Cá está, as decorações transformam as formas, ora secundarizando-as ora acentuando-as. À semelhança da jarra que então postámos, também esta poderá ter decoração importada e executada por Ângelo Chuva.


Adquirida na Feira de Antiguidades Forum Picoas, nos finais da década de 80 do século passado, esta jarra sempre nos agradou, pelo despojamento decorativo e forte contraste do preto e branco, complementados pelo dourado, assim como pela policromia acentuada, mas muito subtil, das flores que ressaltam sobre o primeiro.