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domingo, 19 de agosto de 2018

Uma decoração icónica de Sacavém


Parte de serviço formato «Porto», de faiança moldada. Sobre formas ainda oitocentistas foi aplicada uma decoração geométrica estampilhada e aerografada, a três cores com pintura em esfumado: verde, azul e castanho alaranjado. Asas, pegas, bicos e bocais pintados à mão, a castanho. No fundo das bases, carimbo a verde «Gilman & Cta-Sacavém» «Portugal» e, «386» (decor), acrescido no bule de «O», na leiteira e açucareiro de «E», etc..
Data: c. 1930-40
Dimensões: Várias

A padronagem art déco modernista deste serviço é a que qualquer leigo português nestas coisas da produção cerâmica nacional é capaz de imediatamente identificar como sendo “Sacavém”. Verdadeira referência icónica desta fábrica, a decoração nº 386 foi usada entre cerca de 1930 e 1960s. Só que, mais uma vez, não é uma criação original portuguesa.


No fundo documental da Fábrica de Loiça de Sacavém encontra-se o verbete que se ilustra, gentilmente cedido pelo Museu de Cerâmica de Sacavém / Centro de Documentação Manuel Joaquim Afonso (MCS-CDMJA), onde o motivo decorativo nº 386 aparece aplicado a uma tigela.

Os sensores em Portugal não percebiam a carga ideológica dos objectos modernos. Perseguia-se um pintor ou um escultor, mas as peças modernas de uso quotidiano entravam livremente nos lares portugueses. É disto um bom exemplo a faiança aerografada de boa parte da produção de Sacavém, só para citar uma fábrica. Hitler destruía-as na Alemanha, onde integravam o rol das artes degeneradas, produto de judeus e comunistas, como temos vindo a referir.



O provincianismo local abria-lhes as portas e mesmo em cenas como no filme «O Pai Tirano» (1941), o café com leite (?) do pequeno-almoço da pensão pequeno-burguesa, que na ficção fílmica se localiza na travessa da Portuguesa, no bairro da Bica, é servido em peças (chávenas e manteigueira) de um serviço com esta decoração, a uso como grito de modernidade popular num ambiente ainda muito século XIX. Curiosamente, a boleira de loiça com tampa metálica é alemã (ver fotogramas do filme).


Apresentamos aqui, igualmente, fotografia de um tête-à-tête que esteve há uns anos, e durante longos meses, à venda no Miau.pt como sendo «Sacavém». Era uma peça que gostaríamos de ter adquirido, mas o preço exorbitante pedido tal não permitiu. Mesmo sem termos visto a marca, arriscamos afirmar que se trata de produção da Europa Central, de origem alemã ou checa. Caso os nossos leitores tenham alguma informação que possa satisfazer a nossa curiosidade, deixamos desde já o nosso agradecimento.

A técnica do dégradé num dos lados do desenho da estampilha, tão ao gosto alemão teve, em Portugal, na produção da Fábrica de Loiça de Sacavém o seu expoente máximo, onde conheceu grande longevidade, como se pode constatar aplicada a este serviço, que por mais de 30 anos foi comercializado.


Dado só temos parte do serviço de chá e familiares nossos terem muitos mais peças, em parte por nós oferecidas, decidimos apresentar esta fotografia com algumas delas (embora a tigela apresente outra variante decorativa) como um conjunto ilustrativo da aplicação da decoração nº 386 e onde se pode ver, agora a cores, o modelo de chávena usado pela «Tatão» do filme, a actriz Leonor Maia.

sábado, 2 de novembro de 2013

Tigelas art déco decor 1009 - Sacavém


Duas tigelas de faiança moldada da Fábrica de Loiça de Sacavém (FLS) com formas e dimensões distintas mas de decoração idêntica. Em ambas, sobre o fundo branco, o motivo decorativo é estampilhado e pintado a aerógrafo, com composição vegetalista estilizada, ao gosto art déco, representando uma sequência, em friso, de amoras maduras, a azul muito escuro, com folhas verdes. O desenho é claramente delineado pelo recorte da estampilha, com cores planas bem evidenciadas, em contraste com o bordo aerografado a azul-claro que, em esfumado, se sobrepõe parcialmente ao friso decorativo.
Data: c. 1930 - 40


A mais pequena (alt. 5,6 cm x Ø 9 cm) apresenta forma de calote esférica assente em pequeno pé contracurvado, correspondente ao “formato francês. No fundo da base carimbos a verde «Gilman e Ctª Sacavém Portugal», «1009» e «I»(?).

A de maiores dimensões (alt. 9,7 cm x Ø 20 cm), apresenta bojo em calote tendencialmente esférica, abatida, assente em pé contracurvado. No fundo da base carimbo verde «Gilman e Ctª Sacavém Portugal». «1009» e «E». Inscrito na pasta «4’» (?) e mais caracteres ilegíveis.


Segundo o verbete da FLS que se ilustra, cedido amavelmente pelo Museu de Cerâmica de Sacavém / Centro de Documentação Manuel Joaquim Afonso (MCS-CDMJA), trata-se da decoração «nº 1009 para tijelas e tijelões com ou sem tampa».

domingo, 19 de maio de 2013

Tigelas art déco decor 510 - Sacavém



De volta à loiça utilitária nacional, hoje mostramos duas tigelas de faiança moldada embora com formas e dimensões distintas da Fábrica de Loiça de Sacavém (FLS). Em ambas, sobre o fundo branco, a decoração bicroma é feita segundo a técnica da estampilha aerografada, numa composição geométrica de quadrados, a castanho-alaranjado, e círculos a verde, intercalados mas desalinhados e ligeiramente e sobrepostos, ambos em dégradé do exterior para o centro, dando uma leitura de tridimensionalidade. Nas duas o bojo, junto ao bocal, é debruado com filete a castanho-alaranjado. 
Data: c. 1930 - 40


A mais pequena (alt c. 9,5 cm - c/tampa - x Ø c. 10,2 cm) apresenta forma de calote esférica assente em pequeno pé contracurvado, correspondente ao “formato francês”, e tampa com decoração idêntica à do bojo cintada por filete castanho-alaranjado que cinge igualmente a pega. No fundo da base, carimbo verde, Gilman & Ctª – Sacavém – Portugal e U.

A de maiores dimensões (alt. c. 8,4 x Ø c. 14 cm), sem tampa (é provável que originalmente tenha tido uma), apresenta um formato diferente, com bojo em calote tendencialmente esférica, mas alongada, que termina numa aresta viva sobre canelura de onde parte o pé curvo. No fundo da base carimbos verde «Made in Portugal» inscrito numa oval, «510» e F.
 
O verbete da FLS que se ilustra, gentilmente cedido pelo Museu de Cerâmica de Sacavém / Centro de Documentação Manuel Joaquim Afonso (MCS-CDMJA) informa-nos que se trata da decoração «nº 510 para tijelas formato Francez, Lisas e c/ tampa».


Todavia, como se percebe nestes dois exemplares, a decoração foi aplicada em peças que não corresponderão ao dito formato francês, claro apenas no exemplar mais pequeno. Ou será que a fábrica atribuía a mesma designação a modelos com ligeiras variantes? Alguém nos sabe esclarecer?

Esta tigelas com decoração aerografada tiveram um período de produção longa que chegou praticamente à data de encerramento da FLS na década de 80 do século XX, embora com outras marcas.

A decoração demonstra claramente a influência alemã em certa produção portuguesa. Veja-se as semelhanças evidentes com a decoração da base de bolos, sem marca (trata-se de uma peça da fábrica Colditz, decor nº 7568 e forma nº 23) dessa nacionalidade, encontrada na net e que aqui se ilustra.


segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Tigela art déco com tampa - Sacavém





Peça de faiança moldada em forma de calote tendencialmente esférica assente em pequeno pé recuado. De cor branca com decoração estampilhada e aerografada com motivos vegetalistas, de flores e folhas, estilizados ao gosto art déco, em dois tons de castanho, que surgem do filete também castanho que cinge o bocal. A tampa de encaixe, com concavidade circular em cujo centro se eleva uma pega em forma de botão, tem decoração similar à da tigela. No fundo da base carimbos verde «Gilman e Ctª Sacavém Portugal» e carimbo oval «Made in Portugal». Uma “flor” igualmente carimbada a verde e um X pintado à mão da mesma cor.
Data: c. 1930 - 40
Dimensões: alt c. 24 cm (c/tampa) x diâm. máx, c. 23,2 cm 


Trata-se da decoração «nº 1011 para tijelas ou tijelões, com ou sem tampa», de acordo com o verbete da Fábrica de Loiça de Sacavém que se ilustra, gentilmente cedido pelo Museu de Cerâmica de Sacavém / Centro de Documentação Manuel Joaquim Afonso (MCS-CDMJA).


domingo, 18 de novembro de 2012

Tigelas art déco formato francês decor 1197 - Sacavém


Hoje descemos uma vez mais à cozinha, para apresentar três exemplares de faiança utilitária da Fábrica de Loiça de Sacavém.

Trata-se de tigelas de faiança moldada, «formato francês» porque copia a forma das tijelas vulgarmente utilizadas nesse país, cujas taças, em calote esférica, assentam sobre pequeno pé saliente arredondado. Apresentam decoração exterior estampilhada a aerógrafo, policroma, com composição vegetalista estilizada, ao gosto art déco de inspiração alemã, uma sequência de flores em esfumado com corolas a castanho claro e centro verde e castanho-escuro, dada a sobreposição das estampilhas, (em número de três nas duas mais pequenas e em número de cinco na maior), e folhagem a verde com caules e nervuras a castanho. Trata-se da decoração número 1197 que se combina em duas variantes.


Na variante 1197-A, a composição vegetalista é enquadrada por filetes, que, no exemplar aqui mostrado, são a castanho. Na variante 1197–B, o bordo das peças é aerografado em esfumado. Todas têm no fundo da base carimbos verde Gilman & Cª – Sacavém – Portugal. A sua datação rodará c. 1930 – 40.


As tijelas mais pequenas têm ligeiras diferenças no tamanho e na espessura das pastas o que indicará datações distintas de fabrico. A mais antiga, menos espessa e mais diminuta, ao dito carimbo acresce, a verde, «1197» e «A» da decoração. Tem 6 cm de altura e 10 cm de diâmetro.
 

A outra, mais espessa e de igual diâmetro, tem 6,3 cm de altura, sendo o bordo aerografado em esfumado a azul. Ao carimbo junta-se , também a verde, a letra «G».

Por último, a tigela de maiores dimensões (alt. 7,5 cm x Ø 13 cm), apresenta bordo aerografado em esfumado a amarelo-torrado e ao carimbo acresce, igualmente a verde, «1197» e «B».
 

Agradecemos a cedência da imagem de arquivo ao Museu de Cerâmica de Sacavém / Centro de Documentação Manuel Joaquim Afonso (MCS-CDMJA).