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domingo, 15 de outubro de 2017

Jarra art déco com flores de Raoul Lachenal – França


Jarra art déco de grés porcelânico, modelada em forma de balaústre, de cor verde-bronze antigo mate, com decoração de flores estilizadas, a branco-mosqueado igualmente mate, de corolas poligonais irregulares, raiadas a partir de centro circular. As flores, de diferentes tamanhos, serpenteiam de um só lado subindo pelo bojo, num esmalte espesso delineado a corda seca. Bocal saliente em forma de anel liso. No fundo da base, pintado à mão, a castanho, «Raoul Lachenal».
Data: c. 1920
Dimensões: Alt. 18 cm


Trata-se de uma peça bem exemplificativa do abandono da estética Art Nouveau por Raoul Lachenal que, mantendo o japonismo, aligeira e geometriza a decoração de acordo com os novos cânones que a exposição de Paris de 1925 haveria de sintetizar. Uma estética que, na sua simplificação de formas e decorações, oscilou entre o culto do objecto único e irrepetível e a produção seriada para consumo mais alargado.

Claramente influenciada pelas formas e decorações do Extremo Oriente, esta jarra remete igualmente para os trabalhos de bronze dessa região e para a dinanderie tão em voga na França à época.

A técnica do petit feu utilizada por este ceramista, que integra um grupo menos preocupado com a tradição, procura a renovação da arte milenar da cerâmica graças a novas experimentações mais abertas ao tempo que passa, às modas ou à própria personalidade dos criadores. (Edgar Pelichet – La Cèramique Art Déco, 1988).

Dado o esmalte verde-bronze não recobrir uniformemente a superfície da jarra, transmite a ilusão de uma pátina antiga, de matéria envelhecida e suja pelo tempo, ideia retomada no branco-mosqueado das flores, o que confere à peça um requinte e uma sumptuosidade de grande expressividade.

Raoul Lachenal, percebendo o seu tempo, foi dos poucos grandes ceramistas mundiais, a par de Bonifas, que, sem abdicar da peça artística e única, procurou produzir seriados.


Um aparte: quando, na nossa colecção, integramos peças Arte Nova japonizantes, pretendemos ilustrar, para nosso gozo pessoal, a evolução de um gosto que marcou indelevelmente a estética ocidental e a Art Déco em particular, de que esta jarra é um modelo exemplar.

domingo, 27 de agosto de 2017

Jarra “Portugália” art déco com rosas - Sacavém

Voltamos hoje à jarra «Portugália», o formato nº 20 do catálogo de jarras da década de 1930, não impresso, disponível no Museu de Cerâmica de Sacavém - Centro de Documentação Manuel Joaquim Afonso. É o quarto exemplar deste modelo que aqui apresentamos com uma decoração completamente distinta.


Jarra art déco de faiança moldada, vidrada a branco com decoração policroma com motivo estilizado de rosas em dois tons de cor-de-rosa e folhagem a verde, delineados a negro, segundo a técnica da estampilha aplicada manualmente sobre o vidrado. O gargalo, pintado igualmente sobre o vidrado, é cintado por faixas a rosa e verde, delineadas a preto. No fundo da base carimbo verde «Gilman & Cdtª– Sacavém» sobrepujando «Portugal» e inscrito na pasta «JL» [autor do decor?].
Data: c.1930 - 35
Dimensões: alt. c. 20 cm


A propósito deste modelo, aproveitamos para reflectir um pouco sobre a produção cerâmica da Fábrica de Loiça de Sacavém, considerações que, no entanto, nos parecem, de uma maneira geral, pertinentes relativamente às demais fábricas nacionais.

Constatamos existir em Sacavém uma maior diversidade nas decorações face à quantidade de formas produzidas. É o caso das jarras, por exemplo. Na verdade há um reduzido número de modelos na década de 1930, que mantém ainda em produção formas de uma estética anterior, nomeadamente Arte Nova, situação que se prolonga pelo menos até aos anos 50.

Por um lado, poder-se-á justificar pela ausência de designers criadores de novas formas o que obrigava à compra (ou à cópia) de modelos estrangeiros. Implicava custos acrescidos na produção, o que não deveria ser muito vantajoso num mercado pequeno e onde a concorrência era muita, mesmo quando se exportava. Por outro lado, talvez entre o público-alvo consumidor não fosse sentida a falta de novidades constantes, porque maioritariamente pouco escolarizado e de parcos recursos económicos. A pequena elite portuguesa tinha acesso à produção importada se o entendesse.


Apostar sobretudo nas decorações permitiu que a produção de uma mesma forma se prolongasse no tempo e daí encontrarmos este modelo que vinha, pelo menos, desde cerca de 1930, ainda em produção durante a década de 50, embora nesta década apareça sob a designação de «Jarra Portugália, n.° 17» (tabela de Maio de 1951). Ver post de 4 de Junho de 2012.

Neste exemplar estamos perante uma decoração muito art déco com motivo estilizado de rosas e folhagem e cores planas, daí estarmos convictos de que se enquadra na cronologia que propomos.

sábado, 19 de agosto de 2017

Jarra Arte Nova com dente-de-leão – Rörstand - Suécia


Jarra Arte Nova de porcelana moldada, em forma de balaustre, de cor verde-cinza pálido manchado, decorada por um pé de dente-de-leão com três hastes florais já em fruto (aquénio), circundando parcialmente o bocal baixo, e igual número de folhas serrilhadas verde-cinza escuro, que se agitam como chicotes. No fundo da base, carimbo verde «Rörstrand», envolvido por 3 coroas, e, pintado à mão, «G.A.» (autor) e «5545» (modelo). Inscrito na pasta «I».
Data: c. 1900
Dimensões: Alt. 18 cm x Ø máx. 10 cm


Os pompons formados pelos penachos brancos que coroam as sementes, dispostas em esfera, do dente-de-leão (Taraxacum officinale), encantam crianças e adultos. É difícil resistir a não apanhar um para, com um sopro, dispersar os etéreos paraquedas que levados pelo vento espalham as sementes da planta. À sua beleza em fruto também não ficaram indiferentes os artistas plásticos.

Foi o caso do autor deste exemplar, Georg Kristian Asplund (1873 - 1963), que começou a sua carreira como estudante de pintura sobre porcelana na Rörstrands Porslinsfabrik, em 1891, e pintor de porcelana especializado nos anos 1898-1911 na mesma fábrica.


O japonismo é evidente nesta decoração Art Nouveau, com o elemento vegetal a revestir parcialmente o bojo da jarra. Uma vez mais, como já havíamos escrito a propósito de exemplares pâte-sur-pâte desta fábrica sueca, encontramos reproduzido um elemento da flora local, espécie, aliás, comum a toda a Europa, mas aqui representada numa agitação nervosa contrária à natureza da própria planta. As folhas são silhuetas reconhecíveis mas não naturalistas, tal como os frutos, reduzidos à geometria do círculo e regularmente alinhados no topo do bojo.

Este arrojo de linhas, tanto do agrado da estética Art Nouveau, acaba por dar uma ressonância estranha à representação, afastando-a do naturalismo habitualmente empregue.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Jarro 29-C - Aleluia-Aveiro


Jarro de faiança moldada, bojudo, cujo colo estrangulado abre num bocal em bico de onde, no lado oposto, parte a asa, ambos a castanho. O bojo é decorado por composição floral estilizada em tons de castanho sobre creme, onde, no meio de uma folhagem dinâmica, sobressaem duas grandes flores, parcialmente sobrepostas, compostas pela sucessão de formas circulares polilobadas e concêntricas. No fundo da base, a preto pintado à mão, «Aleluia Aveiro» «Made in Portugal» e, inscrito na pasta, «29» seguido de «C» igualmente a preto pintado à mão. Também inscrita na pasta «4» (?)
Data: c. 1935 - 45
Dimensões: alt. 23 cm


Trata-se do modelo nº 29, com a terceira decoração da série, como indica a letra «C», e aparece representado no Catálogo de loiças decorativas de inícios da década de 40.


Já a temos há alguns anos, mas demorámos muito tempo a comprá-la. Esperou na loja onde a vimos, à Feira da Ladra, uns meses antes que nos decidíssemos a ficar com ela. É uma daquelas relações de amor-ódio que por vezes acontecem aos colecionadores, divididos entre o desejo de sistematização de coerência da produção da fábrica e o gosto pessoal.


Convenhamos que, apesar da estilização da decoração e das cores planas, numa linguagem art déco muito característica da Aleluia-Aveiro entre cerca de 1935 e 1945, a forma maciça e a espessura da asa e do corpo retiram-lhe leveza e elegância, dotando a peça de uma expressão algo rude. No entanto, não deixa de ter graça por isso ou, se calhar, por isso mesmo.



segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Prato de cozinha com motivo de “amores-perfeitos” azul - Sacavém


Prato de cozinha de faiança moldada, formato circular com aba larga e lisa. De cor branca, o covo apresenta decoração central estampilhada e aerografada com bouquet de flores formado por três amores-perfeitos, a castanho e amarelo, campainhas castanhas e folhagem verde. Aba com barra aerografada a azul que, partindo do bordo, se esfuma em direcção ao centro. No fundo da base carimbo verde «Gilman & Ctª – Sacavém» sobrepujando «Portugal» e carimbos da mesma cor com «Z», um «S» (?) e «1300» (?)
Data: c. 1930-40
Dimensões: Ø 30 cm x alt. 5 cm


Mais um prato de grandes dimensões da Fábrica de Loiça de Sacavém. O motivo central remete para a decoração nº 1300-A «para malgas e pratos de cosinha», conforme se pode ver na ilustração da década de 1930 do catálogo de desenhos da fábrica, disponível no Centro de Documentação do respectivo Museu (MCS-CDMJA), cuja disponibilidade e apoio uma vez mais agradecemos.

Esta versão, com a aba simplesmente aerografada a uma cor, menos pesada do ponto de vista da ornamentação que a do catálogo, foi produzida com outras variantes cromáticas, como teremos oportunidade de mostrar.


domingo, 22 de maio de 2016

Jarra de flores castanhas - Lusitânia - Coimbra


Jarra de faiança moldada, em forma de balaústre bojudo com gargalo curto evasé e pé em meia-cana. Bojo decorado com composição floral pintada à mão em tons de castanho. A parte superior do bojo, de fundo castanho no prolongamento do estrangulamento do gargalo, é cintada por grandes flores, de duas espécies, intercaladas, que pendem com demais folhagem sobre o branco marfim do fundo. Pé uniformemente a castanho, tal como o gargalo. Interior branco. No fundo da base, pintado à mão, a castanho, «Lusitânia Coimbra».
Data: c. 1930-40
Dimensões: Alt.34,5cm


Não se pode dizer que tenhamos adquirido esta peça porque gostámos dela. Pelo contrário, não gostamos. Todavia, achámos curioso o facto de ter a mesma decoração da jarra quadrilobada que postámos em 7 de Janeiro de 2013 e que muito apreciamos. Esta jarra de flores castanhas é estranhamente grosseira e pesada, por contraponto à elegância da azul. Talvez pela dimensão, pela forma, pelo horror ao vazio e mesmo pela cor, ou tudo junto. Se na outra versão a composição respira, nesta tudo abafa, mesmo que se esvaia em direção à base.

Mas colecionar de uma maneira que diríamos científica – porque busca congéneres, relações, modelos, referências… - requer alguns sacrifícios à bolsa e ao olhar. Está escondida, mas se, porventura, nos libertássemos do parti pris e experimentássemos expô-la, até poderia ser que resultasse bem sem outra ornamentação nas proximidades, recortando-se no branco de uma parede. Talvez um dia...


Inserimo-la, no entanto, num certo gosto art déco de cariz popular e, também por isso, faz sentido integrá-la na nossa pequena colecção de peças da Lusitânia-Coimbra dedicada a essa gramática.


terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Jarra art déco «Quatro Asas» - Vista Alegre


Jarra art déco de porcelana moldada, em forma de balaústre, com 4 pequenas asas. Sobre a cor branca base a parte superior do bojo recebeu pintura, sobre esmalte, a preto e hastes florais policromas com folhas e caules a verde. No prolongamento das asas a cor preta, entremeada de flores e folhas, é prolongada até ao pé, seccionando o bojo em quatro partes, por sua vez seccionadas por quatro linhas a dourado. Bocal, pé e parte exterior das asas a dourado, Interior destas últimas a preto. No fundo da base, carimbo V.A. (marca nº 31 utilizada de 1924-1947). Inscrito na pasta «4»
Data: c. 1930
Dimensões: Alt. 25 cm


Sobre este formato nº 1169 (Quatro Asas) produzido pela Vista Alegre a partir de um modelo criado em 1893 para a Manufacture National de Sèvres – o designado «Vase de Bourges» - já escrevemos em 18 de Janeiro deste ano a propósito de outra jarra. E o quão é diferente desta que postamos hoje. Cá está, as decorações transformam as formas, ora secundarizando-as ora acentuando-as. À semelhança da jarra que então postámos, também esta poderá ter decoração importada e executada por Ângelo Chuva.


Adquirida na Feira de Antiguidades Forum Picoas, nos finais da década de 80 do século passado, esta jarra sempre nos agradou, pelo despojamento decorativo e forte contraste do preto e branco, complementados pelo dourado, assim como pela policromia acentuada, mas muito subtil, das flores que ressaltam sobre o primeiro.

sábado, 12 de setembro de 2015

Prato de cozinha art déco cor-de-rosa com flores estilizadas – Lusitânia-Coimbra


Hoje trazemos um prato de cozinha, idêntico ao anterior e igualmente da «Lusitânia ELCA – Coimbra – Portugal», como indica o carimbo a verde, diferindo apenas na dimensão, na cor rosa, igualmente a esfumado ou a cheio mais intenso, e no acréscimo do motivo aerografado em zig-zag que circunda o bordo.
Data: c. 1930 - 40
Dimensões: Ø 34,3 cm x alt. 4,5 cm



domingo, 6 de setembro de 2015

Prato de cozinha art déco verde com flores estilizadas – Lusitânia-Coimbra


Prato de cozinha de faiança moldada, circular com aba larga e lisa. De cor branca com decoração, estampilhada e aerografada, a verde esfumado, no centro do covo, com motivo de flores estilizadas de gramática art déco. Bordo aerografado a verde esfumado. No fundo da base, carimbo verde «Lusitânia ELCA – Coimbra – Portugal».
Data: c. 1930-40
Dimensões: Ø 37 cm x alt. 6 cm


Este é mais um caso, como veremos no próximo post e como temos vindo a mostrar, que permite aferir que uma mesma estampilha e técnica foram coetaneamente utilizadas em peças produzidas nas unidades da fábrica Lusitânia de Coimbra e de Lisboa.

Fábricas nacionais como Sacavém, Massarelos e Lusitânia, tanto na unidade de Lisboa como de Coimbra, e, mais tardiamente, a Lufapo, herdeira das últimas, e a Cesol produziram pratos de cozinha e saladeiras, entre outras peças, com decorações recorrendo a estampilhas e a aerógrafo, onde predominam composições de gosto art déco.


Apesar de acrescida de pequenos apontamentos vegetalistas e ligeiras modificações reconhece-se que a mesma composição floral do exemplar de hoje foi utilizada, em finais da década de 40 e/ou já na seguinte, em peças fabricadas pela Cesol (ver MAFLS). Permanências de um estilo que em Portugal conquistou uma popularidade longeva como temos mostrado na cerâmica, mas igualmente noutros campos como foi o caso da arquitectura popular. 

domingo, 23 de agosto de 2015

Jarra art déco com três asas (grande) e flores cor-de-rosa – Aleluia-Aveiro


Hoje apresentamos mais uma jarra art déco com três asas da Aleluia-Aveiro. Se no post de 24 de Julho passado apresentámos o modelo 20, hoje postamos o modelo 21. Trata-se da mesma forma, embora esta de maiores dimensões. Sobre as suas muito prováveis origens germânicas, com base numa criação da Rosenthal, também escrevemos então.

De cor branca de fundo, a jarra recebeu decoração estampilhada manualmente a preto e cor-de-rosa, a cheio e em aguadas. Entre as caneluras do bojo, debruadas por filete preto e aguada, pendem festões vegetalistas estilizados, com folhagem a preto e aguada a enquadrar duas flores, uma de maior dimensão parcialmente sobreposta a uma de menor tamanho, nos tons de rosa e apontamentos a preto. Pendem de um anel cor-de-rosa aguado com perolado mais intenso, delineado por duas fiadas de filetes a preto, que cinge a parte inferior do colo. Este é ornado por folha composta digitada (motivo que se repete no início e fim dos festões, a lembrar as folhas do castanheiro-da-Índia) pendendo do filete a preto que realça o bocal, entre as ligações superiores das três asas cujas extremidades são pintadas a preto, a cheio e duas aguadas, em degradé. O pé saliente é delineado na extremidade por aguada e filete preto sobrepujados por perolado da mesma cor. No fundo da base, dois carimbos rectangulares a preto, um «Fábrica Aleluia-Aveiro», outro «Fabricado em Portugal», e, inscrito na pasta, «21» seguido de «B» pintado à mão a preto, ao lado de «†» (?) inscrito na pasta.
Data: c. 1935-45
Dimensões: alt. 20,5 cm

Estamos perante o modelo nº 21, e a segunda decoração da série, como indica a letra «B». Esta jarra aparece representada no Catálogo de loiças decorativas das Fábricas Aleluia-Aveiro,de inícios da década de 40, com mesma dimensão e numeração.


Nota: Quando no referido post anterior escrevemos a propósito da jarra «Ângelo», da Vista Alegre, não estamos exactamente perante a mesma forma, como, por lapso, referimos, mas uma sua variante com quatro asas, como MAFLS muito bem notou. 

domingo, 22 de março de 2015

Prato de cozinha art déco flores estilizadas – Lusitânia-Lisboa


Prato de cozinha de faiança moldada, com decoração art déco no covo, de flores estilizadas e motivos geométricos, policroma, estampilhada e areografada. Aba aerografada a lilás, em esfumado na direcção do seu centro, e com motivo livre ziguezagueante a castanho mais próximo do bordo. No fundo da base, carimbo estampado verde em forma de escudo com cruz de Cristo, encimado por coroa, Lusitânia CFCL - Portugal
Data: c. 1930 - 40
Dimensões: Ø 34 cm x alt. 5 cm


Da unidade de Lisboa da Companhia das Fábricas de Cerâmica Lusitânia (C F C L) chega-nos uma das decorações art déco mais interessantes, em nossa opinião, aplicadas à faiança popular do estilo feita em Portugal. Embora a linha ziguezagueante que circunda a aba remeta ainda para um gosto popular oitocentista o que sobressai é a contemporaneidade do grafismo central.

A assimetria da composição, a geometrização das flores e os motivos geométricos e, sobretudo, o despojamento dos elementos ornamentais no vazio, agrada-nos particularmente.

Até agora, pelo menos, não encontrámos referência de fábrica estrangeira que utilizasse esta ornamentação. Motivos de bordados regionais podem ter sido a fonte de inspiração, mas também encontramos afinidades com certas serralharias, madeiras entalhadas ou mesmo baixos-relevos ornamentais (cerâmicos ou pétreos), aplicados em arquitecturas, francesas mas também americanas (por via francesa), como se ilustra (imagens retiradas da net no Pinterest).



terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Prato de cozinha art déco com capuchinhas – Sacavém


Prato de cozinha de faiança moldada, formato circular com aba larga e lisa. Decoração central estampilhada e aerografada, policroma, sobre fundo branco vidrado, onde se destaca um bouquet naturalista de chagas em flor, a amarelo e rosa-velho, com respectiva folhagem verde, sobre um subtil esfumado cinza-azulado. Bordo com barra aerografada a cor-de-rosa que se esfuma em direcção ao centro. No fundo da base, carimbos verde Gilman & Ctª – Sacavém – Portugal, «V» e «947».
Data: c. 1930-35
Dimensões: Ø 34,4 cm x alt c. 5,5 cm


De acordo com a imagem que ilustramos do catálogo de desenhos da Fábrica de Loiça de Sacavém, existente no Centro de Documentação do respectivo Museu (MCS-CDMJA), a quem mais uma vez agradecemos, trata-se da decoração nº 947, para malgas e pratos de cozinha.

O sucesso alcançado por este tipo loiça utilitária com decoração a aerógrafo, levou a que fosse produzida num período longo de tempo. O caso mais flagrante terá sido o motivo de rosas abertas, já ilustrado, que perdurou durante cerca de 40 anos, em pratos e, sobretudo, em malgas (saladeiras). O motivo de capuchinhas foi retirado, como indica o «R» a azul escrito na folha do catálogo, mais cedo, embora em data desconhecida.


No caso de hoje, o motivo floral, representa uma planta originária da região andina da América do Sul, a capuchinha (Tropaeolum majus), também conhecida por chagas, flor-do-sangue, agrião-do-méxico, nastúrcio, nastúrio, nastruço do Perú. É uma planta muito decorativa, com flores que podem ser de cor amarela, laranja ou carmim (estas mais raras), e também comestível. Era muito utilizada como planta medicinal na região dos Andes. Na sua América natal é plurianual, e, curiosamente, na Europa, para onde veio trazida no século XVII pelos conquistadores espanhóis, aclimatou-se muito bem e tornou-se anual.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Jarra «Quatro Asas» com decoração de flores e frutos - Vista Alegre


Jarra de porcelana moldada, em forma de balaústre, com 4 pequenas asas a negro na parte superior do bojo. De cor branca, é decorada com flores e frutos policromos que pendem do bocal sobre fundo inicialmente a preto. No fundo da base, dado ter sido furada para adaptação a candeeiro, não tem marca, embora fosse a marca nº 31: carimbo V.A. (1924-1947). Inscrito na pasta «13» e pintado à mão «33» (?).
Data: 1929
Dimensões: Alt. 25 cm


Faz este mês 14 anos que adquirimos a presente jarra. Hesitámos comprá-la quando a vimos à venda num ajuntador (loja/armazém de velharias) ao Conde Barão. Tinha sido transformada em candeeiro com uma guarnição metálica de gosto duvidoso (temos consciência da subjectividade da afirmação, mas…) envolvendo base e bocal. Desmontada a estrutura metálica e lavada ficou com muito melhor aspecto, apesar do bárbaro buraco no fundo da base que mandámos restaurar. Valeu a pena. A peça recuperou a dignidade perdida.

Podemos ler em MAFLS que se trata do motivo decorativo P.799, aprovado em 22 de Janeiro de 1929 pelo director artístico da Vista Alegre, J. Cazaux, para este formato, o 1169 (jarra Quatro Asas), e que a pintura foi executada por Ângelo Chuva a partir de um modelo adquirido pela empresa.


De facto, o modelo foi desenhado por Joseph Chéret em 1893, para a Manufacture National de Sèvres, onde recebeu a designação «Vase de Bourges», que se ilustra com uma decoração Art Nouveau de1903 com penas de pavão.

No cômputo geral das importações de modelos estrangeiros, como já tivemos oportunidade de escrever e ilustrar, será a Manufacture National de Sèvres, sem dúvida, a grande fornecedora, tanto de formas como de decorações, para a fábrica Vista Alegre nas décadas de 20 e 30.


Sendo uma forma do período Arte Nova, em Portugal, pelo menos, foi mantida no período Art Déco com decorações várias reflexo do sucesso que terá tido. 


domingo, 5 de maio de 2013

Jarra Arte Nova - Rörstrand (Suécia)


Jarra Arte Nova de porcelana moldada, de forma bulbosa, de cor branca com decoração constituída por três hastes florais, dispostas regularmente, subtilmente relevadas segundo a técnica da pâte-sur-pâte, em tons pastel, com folhagem verde-cinza e corolas a lilás pálido. No fundo da base, carimbos a verde, Rörstrand e .E., e inciso na pasta, 8409.
Data: c. 1900
Dimensões: Alt. 9 cm x Ø 12 cm


A delicadeza com que partes das pétalas e das folhas sobressaem da superfície lisa e branca dá uma impressão de fragilidade e transparência que parece anular a densidade e espessura da matéria, como se as flores estivessem soltas no vazio.


A letra «.E.» indica-nos tratar-se de uma peça concebida e pintada pela modeladora e decoradora Astrid Ewerlöf (1876-1927). Ceramista e pintora de porcelana nascida em Estocolmo em 8 de Novembro de 1876, Astrid licencia-se na Högre Konstindustriella Skolan (Escola Superior de Arte e Design) da cidade, em 1899, sendo nessa data contratada pela fábrica de Rörstrand como pintora de porcelana onde se manteve até 1917. Para além de pintar vai também criar modelos próprios, caso da jarra que apresentamos. Morre aos 51 anos, em 31 de Janeiro de 1927, tendo vivido os últimos dez anos da sua vida na companhia de sua irmã mais nova, Alfhild Ewerlöf (1885-1967), em Drottningholmsvägen, na sua cidade natal.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Jarra art déco quadrilobada com flores - Lusitânia - Coimbra



Esta semana estamos de parabéns! O Moderna Uma Outra Nem Tanto foi escolhido como o «blogue da semana» pelo Delito de Opinião. Responsabilidades acrescidas …


Jarra de faiança moldada, quadrilobada e lotiforme assente sobre pé saliente em calote oval, finamente craquelé, de cor creme com decoração vegetalista pintada à mão até dois terços do bojo. Sob o fundo creme, surgindo do bocal azul-escuro, em pinceladas rápidas, pendem folhas e flores de diversas plantas em dois tons de azul. Interior a branco. No fundo da base, pintado à mão a azul-escuro, Lusitânia Coimbra.
Data: c. 1930
Dimensões: Alt. 24 cm


A composição decorativa, pouco naturalista e algo ingénua, dinamiza a superfície de uma maneira que nos parece interessante e genuína. Cria cheios e vazios em contraponto com o despojamento da parte inferior deixada em reserva.

A vegetação como que transborda em desordem de uma jarra demasiado cheia. Parte da folhagem, lembrando fetos, na mesma cor do bocal, sugere zonas de sombra, servindo de repoussoir e dando assim maior profundidade à composição. Ambas as faces apresentam composições semelhantes, fugindo a uma expectável simetria, em que as duas flores, próximas de antúrios, repetidas nos lóbulos centrais e as duas flores dos lóbulos laterais, mais pronunciados, fariam prever. 



A pincelada rápida, espontânea, e as cores empregues remetem-nos para um gosto tradicional da azulejaria portuguesa em que o conjunto harmoniza e esconde muitas vezes a fragilidade do desenho. No entanto, nesta jarra a aparente espontaneidade da pintura é profundamente controlada, tornando a peça um bem conseguido exemplar do que, em nossa opinião, se poderia definir como uma estética art déco de raiz nacional.

Quanto ao formato, é seguramente importado, quase de certeza da Alemanha, como haveremos de ilustrar a propósito de uma outra jarra. É, sobretudo, pela forma que nos atrevemos a datá-la dos anos 30, dada a cronologia das suas congéneres estrangeiras. Sem certezas absolutas, evidentemente. E sem arquivos de fábrica para explorar …