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sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Placa decorativa com veado Lusitânia – Coimbra


Placa decorativa de suspensão rectangular, art déco, de faiança moldada e relevada, vidrada a mate cor de marfim, craquelé, com representação de veado numa floresta. A cena é enquadrada por barras laterais lisas formando moldura. Dois furos laterais, com fio, permitem a sua suspensão. No fundo da base, carimbo estampado verde, pouco legível, Lusitânia - ELCL – Coimbra – Portugal]
Data: c. 1930 - 35
Dimensões: Comp. c. 32,5 cm x Larg. 25 cm
 

A peça remete para a ideia de um baixo-relevo pétreo com o bujardado do fundo a fazer ressaltar os elementos escultóricos. Mais um exemplo nacional de um tema particularmente grato ao Art Déco.
 
A imagem do cervídeo tende para uma representação naturalista, e vimos nela um desejo de figuração ancestral próximo do que encontramos em pinturas rupestres, embora o elemento vegetalista, estilizado e que tudo envolve, seja estranho a essas obras. A posição inclinada do corpo, metáfora de movimento, cortando na diagonal a cena, é idêntica às encontradas em Valltorta (Castellón) - Espanha, por exemplo, sobretudo quando observado de tardoz. As cenas de caça em que os animais são perseguidos reduzem-se nesta placa à visualização de um único elemento retirando-lhe um contexto preciso.


terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Placa art déco: Héracles e o Leão de Némea - Sacavém



Mais uma das placas que compõem a série “Os 12 Trabalhos de Héracles”, no caso “Héracles e o Leão de Némea”. Placa quadrada, de cerâmica moldada, simulando bronze, de verdete manchado, tendo os contornos angulosos das figuras a bronze dourado como se houvesse desgaste no metal. Representa um nu masculino lutando com um leão apostos sobre três quadrados concêntricos em degraus, dentro de uma gramática art déco. Junto à pata inferior do leão, inscrito na pasta, G. No tardoz, inscrito na pasta, à mão, APAR e Nº 3.
Data: c. 1935-45
Dimensões: Alt. 28,5 cm x larg. 28,5 cm x espessura 0,9 cm


Ao contrário da placa anteriormente apresentada, não só o trabalho dos esmaltes é nesta peça muito superior, sendo perfeita a ilusão que se trata de uma placa de bronze, como a forma representa um quadrado regular, ligeiramente menos espesso. Estamos em crer que será de uma fornada mais antiga que a primeira, dada a qualidade geral da mesma: nitidez de composição, tipo de esmaltes, para além de se encontrar marcada no tardoz e, à frente, portar a inicial do seu autor, o G indiciando Donald Gilbert como seu presumível escultor. A opção pela simples inicial do nome, por oposição ao «Gilbert Sc» com que costumava assinar as suas criações, foi certamente deliberada face a uma excessiva presença numa superfície quase plana.


Filho do mortal Anfitrião e de Alcmena, Héracles é, na verdade, filho de Zeus, e daí a ira da mulher deste, Hera, contra o herói, pelo que terá engendrado os Doze trabalhos. Mais uma vez sem entrar em grandes detalhes sobre o mito, que também tem diversas variantes, o leão de Némea é um monstro irmão de outra conhecida monstruosidade, a célebre Esfinge de Tebas. Filho de Ortro e Equidna, terá sido uma criação de Hera que o colocou na região de Némea onde devorava habitantes e gado. Héracles ficou hospedado em casa de um humilde agricultor, Molorco, a quem o leão tinha devorado o filho. Em jeito de homenagem ao ilustre hóspede, Molorco quis matar o único carneiro que lhe restava. Contudo, Héracles pediu-lhe que o mantivesse durante 30 dias, findos os quais, se não regressasse da caçada ao leão, o deveria sacrificar em sua memória.
O leão era invulnerável e vivia numa caverna com duas aberturas. Fracassada que foi a tentativa de matar o leão com arco e flechas, pois nem o ferro nem o fogo afectavam a sua pele, Héracles com o auxílio de uma clava obrigou-o a entrar na gruta. Encerrou uma das aberturas e com os braços estrangulou-o. Só com o auxílio das próprias garras do leão, conseguiu esfolá-lo devidamente passando o herói a utilizar a pele como manto.
Como no trigésimo dia Héracles não regressasse, Molorco tomou-o como morto e preparava-se para honrar o seu compromisso quando lhe surge o herói vestido com a pele da besta. O carneiro foi, então, sacrificado a Zeus Salvador, e no local do sacrifício Héracles decretou a criação dos Jogos Nemeus em honra de seu pai. Depois levou os despojos do leão até Micenas e seu primo Euristeu, espantado e assustado com tal proeza, proibiu-o de entrar na cidade, ordenando-lhe que, a partir daí, deixasse os seus futuros despojos às portas da cidade. Zeus incluiu o leão entre as constelações a fim de perpetuar o feito do filho.

As Maçãs de Ouro das Hespérides; Os Bois de Gérion; O cinto da Rainha Hipólita; O Touro de Creta.


sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Placa Art Déco: Héracles e os Pássaros do Lago Estínfalo - Sacavém




Placa de cerâmica moldada e relevada, com representação central de um nu masculino com arco caçando pássaros contida sobre três quadrados concêntricos em degraus, dentro de uma gramática art déco. A placa, tendencialmente quadrada, é de cor verde-celadon tendo as figuras recebido uma aguada de esmalte branco. No tardoz, em negativo, não apresenta qualquer marca.
Data: c. 1935-45
Dimensões: Alt. 29,6 cm x larg. 28,7 cm x espessura 1 cm



Apesar de não estar identificada, sabemos que é da Fábrica de Loiça de Sacavém e, estamos em crer, que seja obra de Donald Gilbert criada, ainda, na década de 30, embora com uma produção que se prolongou no tempo.

Trata-se de uma das placas que compõem a série “Os 12 Trabalhos de Héracles”, ou de Hércules na sua versão latina. No caso, Héracles e os Pássaros do Lago Estínfalo.


Sem nos alargarmos em grandes explicações e dado haver diversas variantes deste tema da mitologia grega, o herói Héracles, sob ordens de seu primo Euristeu viu-se obrigado a executar uma série de trabalhos que incluíam libertar o mundo de certos monstros. Segundo a tradição mais corrente entre os mitógrafos, os Doze Trabalhos dividem-se em duas séries de seis. Com o primeiro grupo a localizar-se numa região geográfica relativamente pequena do Peloponeso, e o segundo a abranger outros territórios, incluindo os Infernos.

Também em relação ao trabalho concreto de os Pássaros do Lago Estínfalo, as versões são múltiplas. Simplificando, o trabalho consistiu em fazer sair de uma espessa floresta junto ao lago, na Arcádia, com a ajuda de castanholas de bronze, uma praga de pássaros que aí se escondiam e que o herói matou com flechas. Segundo uns, os pássaros limitavam-se a destruir frutos e colheitas, outros dizem que eram aves de rapina e devoravam também homens. Num relato mais radical, as aves tinham penas de aço que lançavam como setas. Imaginamos que a tarefa não terá sido fácil.

Teremos oportunidade de apresentar mais um dos trabalhos de Héracles a propósito de outra placa que possuímos. 

domingo, 19 de agosto de 2012

Bases de candeeiro art déco com motivos folclóricos - Sacavém



Par de bases de candeeiro de cerâmica moldada e relevada, de cor creme, em forma de balaústre com friso policromo com motivos populares regionais. Na base, carimbo azul Gilman & Ctª – Sacavém Portugal. Em relevo na pasta nº 380.
Data: c. 1930 - 40
Dimensões: alt. 13,5 cm



Apresentamos fotografia antiga, proveniente do acervo do Centro de Documentação do Museu de Cerâmica de Sacavém (MCS-CDMJA), cuja colaboração agradecemos, onde surge com a designação de «jarra para candeeiro com figuras regionais»,. A peça aparece referenciada sob o nº 380 nas tabelas de preços de faianças decorativas, 1945-1966. Na tabela de 1945, consta a designação de «jarra candeeiro, formato regional». Tal como acontecia com a fotografia do peixe do “Pintor Reis” anteriormente postada, também no verso desta aparece a nota: «Enquiry from: Cape Town». As questões que então levantámos mantêm-se.


 Já aqui havíamos mostrado uma peça em que o folclore como leit-motiv para a arte moderna foi utilizado. Tratou-se da placa cerâmica com vendedor de peixe da Fábrica Lusitânia de Lisboa que hoje voltámos a repescar a propósito do tema e porque encontrámos um postal ilustrado que lhe terá servido de modelo.


O folclore é um dos elementos constitutivos da modernidade. Se vai ser fonte de inspiração para a geração do primeiro modernismo português (caso de Sousa Cardoso, Viana, Almada, …), em consonância com os demais movimentos artísticos europeus, graças às especificidades culturais e políticas do nosso país, eterniza-se até aos inícios da segunda metade do século XX.


Datado de 1923, um friso decorativo policromo, da autoria de Bernardo Marques, correndo as paredes junto à sanca de uma sala da casa de António Ferro e de Fernanda de Castro, na antiga Calçada dos Caetanos (desde 1963 Rua João Pereira da Rosa), trazia para um interior, que se pretendia actual, a temática estilizada de danças populares (ver foto). Os motivos populares já então eram vistos por Ferro como elementos de afirmação nacionalista. Para o futuro ideólogo da «Política do Espírito» do consulado salazarista, o folclore devia ser fonte inspiradora de modernidade para os artistas nacionais, que assim seriam «modernos sem deixar de ser portugueses». A cultura com António Ferro era simultaneamente um veículo de propaganda e um instrumento de controlo social. «(…) a sua principal preocupação não era a criação e difusão das ideias do regime, mas a criação de meios de ocupação dos "tempos livres" dos portugueses. Estes constituíam um tempo potencialmente perigoso para o poder se não fosse organizado. A contribuição mais significativa de António Ferro foi, (…), ter mostrado que as múltiplas manifestações culturais podiam ser organizadas de modo a predisporem os indivíduos para certas formas de comportamento e pensamento espontâneo. (…) A [sua] grande promoção cultural centrou-se contudo em volta da cultura popular, que tinha nas romarias, arraiais e feiras a (…) expressão mais genuína. (…) procurou criar uma grande encenação não apenas para os estrangeiros, mas sobretudo para consumo interno. Uma vasta equipa de artistas e intelectuais, (…) ao longo dos anos (…) foi pacientemente reelaborando as grandes manifestações populares em termos plásticos mais modernos, apresentando-as em seguida como expressões genuinamente populares. Fragmentos de memórias locais são pretexto para a criação de tradições centenárias. A confusão entre o falso e o autêntico era total. A promoção da cultura erudita junto do povo, foi neste contexto limitadíssima, pois a mesma correspondia a um desvio à integração do povo numa cultura popular que se lhe apresentava como exaltante.» (Para mais ver aqui)

O friso que encontrámos na casa de António Ferro, com a sua estética art déco de raiz folclórica, está na génese de todo um gosto estético que perdurou décadas na arte feita em Portugal, sobretudo nas chamadas artes decorativas.

Segundo Rui Afonso Santos, a primeira tentativa de introduzir vidros pintados com motivos folclóricos feita pelos artistas plásticos Sarah Afonso, Ofélia e Bernardo Marques, apresentados no II Salão de Outono organizado pela revista Contemporânea, faz-se em 1926. Contudo, sem sucesso. Já os jarros e copos de água desenhados e decorados por Jorge Barradas, a partir de 1929, para a CIP - Companhia Industrial Portuguesa, na Marinha Grande, teve tanto êxito que, no ano seguinte o mesmo artista vai conceber uma linha de jarras também com motivos do folclore nacional para decorar os quartos do Palace Hotel do Estoril que então abria portas. Os consumidores mantiveram-se fiéis a estes motivos e, ainda em 1941, Jorge Barradas desenhava vidros com a mesma temática. Veja-se o copo «Algarve».


Tal sucesso motivou um surto de objectos utilitários e decorativos de temática folclórica em diversos suportes, do vidro à cerâmica, do ferro forjado à ourivesaria, feitos por outros autores que, com maior ou menor criatividade, cimentaram um gosto que se manteve até, pelo menos, aos anos 60. Isto para não falar das artes gráficas onde a temática remontava à primeira geração modernista. Deixamos aqui alguns exemplos ilustrativos, sendo a maioria dos vidros da Marinha Grande (esta matéria daria um blogue interessante, mas não temos disponibilidade para o fazer).


Em relação a Piló [Manuel Júlio Piló Santos (1905-1988)], cuja série de desenhos criados em 1935 darão origem a uma colecção de postais, decorarão vidros fabricados pela CIP e porcelanas da Vista Alegre e mesmo pratas, a ele haveremos um dia de dispensar maior atenção.


quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Placa Cerâmica: Vendedor de peixe da Lusitânia - Lisboa

Placa rectangular, de pó de pedra, com decoração policroma e relevada realizada pelo método da tubagem a separar as cores lisas. Representa, num grafismo estilizado art déco, um costume popular - um vendedor de peixe ou varino. Segundo José Meco, realizada na oficina de azulejos, dirigida por António Costa, da Fábrica de Cerâmica Lusitânia. Verso com estrias e dupla marca Lusitânia, em relevo. Estamos em crer que a moldura é de origem.
Data: c. 1930-40
Dimensões: alt. 30,5 cm x 15 cm

Conhecemos, porque publicados, mais dois exemplos desta série, que aqui também mostramos. Aliás, é um deles que nos esclarece tratar-se da Lusitânia Lisboa, como se pode ler no carimbo que a “pastora” da colecção Mário Oliveira Soares possui no canto inferior direito. Como o da nossa colecção nunca foi retirado da moldura, não sabemos se contém esta informação. A série de placas cerâmicas, que resultou da actualização dos temas tradicionais numa linguagem adequada aos tempos modernos, foi exponenciada na decoração azulejar, recortada, utilizada no átrio e escadas de um edifício na Avenida Óscar Monteiro Torres, em Lisboa.

(ver actualização em post de 19 de Agosto de 2012).