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sábado, 6 de abril de 2013

Jarro art déco – Vista Alegre - Portugal





Jarro de porcelana moldada art déco de vertente modernista, de cor branca com parte saliente do bojo, interior da asa e bordo a cor-de-laranja forte aplicado a aerógrafo. No fundo da base, carimbo verde V.A. Portugal - Marca nº 31 (1924-1947) e, inscrito na pasta, à mão, 2215.
Data: c. 1935
Dimensões: Alt. 16,1 cm






Aproveitámos para postar esta peça portuguesa na sequência do post anterior, dado tratar-se de uma peça funcionalista claramente inspirada no modelo 3287, criado pela designer Eva Stricker-Zeisel, para a Fábrica Schramberg, c. 1929-30, que ilustramos. 


Judia, tal como Margarete Heymann-Marks, e perseguida pelos totalitarismos da época (leia-se um pouco da sua biografia no que escrevemos a 18 de Julho de 2012), foi igualmente importante no design alemão da República de Weimar e uma grande divulgadora, a nível mundial, dos ideais da Bauhaus.

O Portugal de então não ficou também imune à influência das suas criações. Já não é a primeira vez que referimos esta ceramista a propósito de peças de produção nacional, no caso, associada a Sacavém.Como se vai vendo, é a Alemanha uma das grandes fontes de inspiração da produção nacional, pelo menos ao nível das chamadas artes decorativas. Provavelmente mais importante até que as influências francesas e inglesas de que tanto se fala.

É interessante relembrar que, enquanto os nazis consideravam a sua obra como “degenerada”, por cá, num assomo de “modernidade”, em pleno regime salazarista, era um modelo a seguir. Contradições de uma sociedade que resume a modernidade a um tique sem lhe apreender o conteúdo. Não estamos a falar de hoje, estamos a escrever sobre os anos 30, claro!

quinta-feira, 28 de março de 2013

Jarra art déco azul com flores – Vista Alegre




Jarra art déco piriforme de cor azul forte com composição vegetalista estampilhada (?) e apontamentos à mão. O bojo é decorado, numa única face, por uma composição de flores estilizadas, circulares, delineadas a preto, com corolas a branco e esfumado cinza e centro a amarelo. Folhagem a preto. Uma das flores repetete-se, em curva, ad infinitum, gerando uma falsa perpectiva. Junto ao bocal anel preto. No fundo da base, carimbo verde V. A. Portugal - Marca nº 31 (1924-1947) e x igualmente carimbado a verde. Inscrito na pasta, à mão, 6-5.
Data: c. 1930
Dimensões: Alt. 14 cm


No contexto da produção nacional, esta composição floral parece-nos inusitada, tanto pela estranheza como pela surrealidade do motivo. No encadeado dos círculos florais ora imaginamos uma coluna vertebral ora um estranho animal marinho. 

Não sendo uma peça que, do ponto de vista plástico, nos agrade, achamo-la interessante pela singularidade. Como tantas outras que adquirimos apenas por ilustrarem diversas vertentes das estéticas art déco produzidas no nosso país e destinadas, evidentemente, a clientes com perfis distintos.
 

Nada sabemos sobre a sua autoria ou datação exacta, embora lhe encontremos um vago paralelismo com certas composições florais, de finais dos anos 20, concebidas por Eva Zeisel para Schramberg, caso do prato que apresentamos. [Ver «Jarra art déco P. Bastard», post de 20 Agosto 2013]

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Açucareiro art déco modernista de Schramberg


Açucareiro, de faiança moldada, de forma esférica com decoração geométrica estampilhada em tons de azul-escuro, sobre fundo azul-claro esponjado, apresenta linhas art déco modernistas filiadas na Bauhaus. A tampa, composta por dois semi-círculos desnivelados é atravessada por pega semi-circular composta por três semi-círculos relevados e concêntricos. Bordos da taça e da tampa esponjados a azul-escuro. Na base, carimbo preto com SMF inscrito em escudo sobrepujando Schramberg, e Dec: 548. Inscrito na pasta 3844
Data: c. 1930
Dimensões: Alt. 12 cm x diâm. 11 cm


A compra deste açucareiro, atribuído a Eva Stricker Zeisel, deveu-se apenas a possuirmos as chávenas de Sacavém anteriormente postadas e atraiu-nos mais que os pires aí ilustrados. E se a sua forma mais vanguardista pouco tem a ver com a do formato Aldeia, é interessante possuir a decoração original e a sua versão portuguesa. Se ao nível da forma a peça alemã é mais harmoniosa, pelo rigor geométrico, ao nível da decoração a versão aerografada da FLS agrada-nos mais que a estampilhada manualmente.

Com origens que remontam a 1820, a fábrica de Schramberg teve vários nomes e proprietários, chegando, em 1883, a integrar, como subsidiária, a Villeroy e Boch em Mettlach. Em 1912 foi vendida aos irmãos Moritz e Leopold Meyer, de origem judaica, passando a marca a ostentar a sigla SMF (Schramberger Majolika-Fabrik), passando a companhia limitada em 1918.

Nos anos 20  a empresa vai apostar na inovação artística contratando artistas de renome. Esta renovação ganha mais fôlego no final da década com participantes da Bauhaus e também acentuando uma vertente mais Art Déco.

Por força das perseguições nazis a família Meyer, em 1938, emigrou para o Reino Unido. Em 1949, Peter Meyer, filho de Moritz, nascido em 1922, voltou com sua família para Schramberg retomando a propriedade e direcção da fábrica com sucesso.


A húngara Eva Zeisel (nascida Eva Amalia Striker, em Budapeste, em1906) foi uma dessas artistas. Contratada em 1928 para desenhar loiça utilitária, concebeu modelos e decorações que fizeram época, especialmente popularizando motivos influenciados por Mondrian.

Tendo estudado pintura em Budapeste acabou por ser atraída pela cerâmica tradicional húngara, tornando-se ceramista. A sua visita, em 1925, à Exposição Internacional das Artes Decorativas e Industriais Modernas, em Paris, pô-la em contacto com os trabalhos de Le Corbusier e os movimentos modernos, caso da Bauhaus.

A entrada em Schramberg transformou-a de ceramista de estúdio em designer industrial.

Em 1935 encontra-se a trabalhar em Moscovo como directora artística da indústria de porcelana e vidro da República Russa. Presa em 1936 por acusação de conspiração contra Estaline, passou 16 meses na prisão, sendo libertada em 1937 sem qualquer explicação. Parte para Viena de onde foge em 1938 aquando da entrada dos nazis na Áustria. Refugiada na Inglaterra, haveria de casar com Hans Zeisel, que conhecia de Berlim, com quem emigrará para os Estados Unidos nesse mesmo ano, país onde terá uma longa e profícua carreira de sucesso que lhe granjeou fama internacional. Morreu em Nova Iorque a 30 de Dezembro de 2011.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Chávena de chá com pires – Formato Aldeia - Sacavém


Chávenas e pires de um serviço de chá, de faiança moldada, com decoração geométrica estampilhada e areografada de motivos de círculos castanho-mel a que se sobrepõe parcialmente uma composição de linhas paralelas, castanho-escuro, formando quadrado sobre um fundo esponjado a amarelo. Bordos, asa e centro do pires realçados no tom castanho-escuro. O corpo das chávenas é em calote esférica, embora exteriormente apresente quatro gomos que se desvanecem em direcção ao bordo redondo, formando base recortada. Os pires são quadrilobados. As chávenas não apresentam qualquer marca, mas os pires têm na base, carimbos verde, Gilman & Ctª – Sacavém – Portugal, H e, inscrito na pasta, Sacavém 52 PP.
Data: c. 1930
Dimensões: Várias




Deste serviço, formato «Aldeia», com decoração nº 807 do catálogo de desenhos da Fábrica de Loiça de Sacavém, existente no Centro de Documentação do respectivo Museu (MCS-CDMJA), a quem mais uma vez agradecemos, infelizmente só possuímos algumas chávenas e pires. Informa-nos uma nota manuscrita no referido desenho, pelo aviso 34 de 1946, que esta decoração foi retirada nessa data.


A técnica do esfumado que a pintura a aerógrafo possibilita, neste serviço é particularmente cuidada e permite dar uma tridimensionalidade aos círculos que, assim, se assemelham a esferas. Esta decoração ilustra bem, mais uma vez, a grande influência que as criações alemãs exerceram em Portugal nas primeiras décadas do século XX, neste caso concreto em Sacavém, visto que reproduz o decor 548 da Fábrica de Schramberg atribuído à designer Eva Zeisel, de cerca de 1930 (ver foto e aqui). O mais curioso é que tendo sido a técnica do aerógrafo vulgarizada na fábrica por alemães, na criação germânica o motivo é estampilhado mas aplicado a pincel, o que lhe confere uma outra leitura.