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domingo, 19 de agosto de 2018

Uma decoração icónica de Sacavém


Parte de serviço formato «Porto», de faiança moldada. Sobre formas ainda oitocentistas foi aplicada uma decoração geométrica estampilhada e aerografada, a três cores com pintura em esfumado: verde, azul e castanho alaranjado. Asas, pegas, bicos e bocais pintados à mão, a castanho. No fundo das bases, carimbo a verde «Gilman & Cta-Sacavém» «Portugal» e, «386» (decor), acrescido no bule de «O», na leiteira e açucareiro de «E», etc..
Data: c. 1930-40
Dimensões: Várias

A padronagem art déco modernista deste serviço é a que qualquer leigo português nestas coisas da produção cerâmica nacional é capaz de imediatamente identificar como sendo “Sacavém”. Verdadeira referência icónica desta fábrica, a decoração nº 386 foi usada entre cerca de 1930 e 1960s. Só que, mais uma vez, não é uma criação original portuguesa.


No fundo documental da Fábrica de Loiça de Sacavém encontra-se o verbete que se ilustra, gentilmente cedido pelo Museu de Cerâmica de Sacavém / Centro de Documentação Manuel Joaquim Afonso (MCS-CDMJA), onde o motivo decorativo nº 386 aparece aplicado a uma tigela.

Os sensores em Portugal não percebiam a carga ideológica dos objectos modernos. Perseguia-se um pintor ou um escultor, mas as peças modernas de uso quotidiano entravam livremente nos lares portugueses. É disto um bom exemplo a faiança aerografada de boa parte da produção de Sacavém, só para citar uma fábrica. Hitler destruía-as na Alemanha, onde integravam o rol das artes degeneradas, produto de judeus e comunistas, como temos vindo a referir.



O provincianismo local abria-lhes as portas e mesmo em cenas como no filme «O Pai Tirano» (1941), o café com leite (?) do pequeno-almoço da pensão pequeno-burguesa, que na ficção fílmica se localiza na travessa da Portuguesa, no bairro da Bica, é servido em peças (chávenas e manteigueira) de um serviço com esta decoração, a uso como grito de modernidade popular num ambiente ainda muito século XIX. Curiosamente, a boleira de loiça com tampa metálica é alemã (ver fotogramas do filme).


Apresentamos aqui, igualmente, fotografia de um tête-à-tête que esteve há uns anos, e durante longos meses, à venda no Miau.pt como sendo «Sacavém». Era uma peça que gostaríamos de ter adquirido, mas o preço exorbitante pedido tal não permitiu. Mesmo sem termos visto a marca, arriscamos afirmar que se trata de produção da Europa Central, de origem alemã ou checa. Caso os nossos leitores tenham alguma informação que possa satisfazer a nossa curiosidade, deixamos desde já o nosso agradecimento.

A técnica do dégradé num dos lados do desenho da estampilha, tão ao gosto alemão teve, em Portugal, na produção da Fábrica de Loiça de Sacavém o seu expoente máximo, onde conheceu grande longevidade, como se pode constatar aplicada a este serviço, que por mais de 30 anos foi comercializado.


Dado só temos parte do serviço de chá e familiares nossos terem muitos mais peças, em parte por nós oferecidas, decidimos apresentar esta fotografia com algumas delas (embora a tigela apresente outra variante decorativa) como um conjunto ilustrativo da aplicação da decoração nº 386 e onde se pode ver, agora a cores, o modelo de chávena usado pela «Tatão» do filme, a actriz Leonor Maia.

domingo, 15 de julho de 2018

Jarra craquelé com decoração à chinesa – Sacavém



Jarra de faiança moldada, piriforme de colo invertido e pequena gola elevando o bocal circular. De cor branco-sujo e craquelé miúdo, apresenta, em lados opostos, decoração manual a preto e laranja, aplicada sobre o vidrado, com motivo de cerejeira retorcida com algumas flores, emergindo de um terreno ondulado às escamas, ao gosto chinês. Bocal cintado por corrente de elos a laranja e preto intercalados. No fundo da base, carimbo preto «Gilman & Ctª – Sacavém» «Made in Portugal» sobreposto a outro carimbo idêntico amarelado, e, em relevo na pasta, «80».
Data: c. 1930 – 40
Dimensões: Alt. 14 cm


A Fábrica de Loiça de Sacavém é uma caixinha de surpresas. Desta vez uma inesperada - pelo menos para nós que desconhecíamos este tipo de produção - jarra craquelé com decoração de chinoiserie. As cores são totalmente art déco e a estética orientalizante, presente também no craquelé, acentua esse gosto pelo exótico que se manteve durante os anos 20 e 30, senão mesmo por toda a primeira metade, do século XX. Não sabendo a data de produção é por estas características formais que a datámos. De qualquer maneira encontamos semelhanças nesta decoração com a de 1927/1929 que o artista vidreiro francês Schneider baptizou "Bonzai".  Uma peçazinha de qualidade que demonstra bem que Sacavém era outa loiça…


domingo, 27 de agosto de 2017

Jarra “Portugália” art déco com rosas - Sacavém

Voltamos hoje à jarra «Portugália», o formato nº 20 do catálogo de jarras da década de 1930, não impresso, disponível no Museu de Cerâmica de Sacavém - Centro de Documentação Manuel Joaquim Afonso. É o quarto exemplar deste modelo que aqui apresentamos com uma decoração completamente distinta.


Jarra art déco de faiança moldada, vidrada a branco com decoração policroma com motivo estilizado de rosas em dois tons de cor-de-rosa e folhagem a verde, delineados a negro, segundo a técnica da estampilha aplicada manualmente sobre o vidrado. O gargalo, pintado igualmente sobre o vidrado, é cintado por faixas a rosa e verde, delineadas a preto. No fundo da base carimbo verde «Gilman & Cdtª– Sacavém» sobrepujando «Portugal» e inscrito na pasta «JL» [autor do decor?].
Data: c.1930 - 35
Dimensões: alt. c. 20 cm


A propósito deste modelo, aproveitamos para reflectir um pouco sobre a produção cerâmica da Fábrica de Loiça de Sacavém, considerações que, no entanto, nos parecem, de uma maneira geral, pertinentes relativamente às demais fábricas nacionais.

Constatamos existir em Sacavém uma maior diversidade nas decorações face à quantidade de formas produzidas. É o caso das jarras, por exemplo. Na verdade há um reduzido número de modelos na década de 1930, que mantém ainda em produção formas de uma estética anterior, nomeadamente Arte Nova, situação que se prolonga pelo menos até aos anos 50.

Por um lado, poder-se-á justificar pela ausência de designers criadores de novas formas o que obrigava à compra (ou à cópia) de modelos estrangeiros. Implicava custos acrescidos na produção, o que não deveria ser muito vantajoso num mercado pequeno e onde a concorrência era muita, mesmo quando se exportava. Por outro lado, talvez entre o público-alvo consumidor não fosse sentida a falta de novidades constantes, porque maioritariamente pouco escolarizado e de parcos recursos económicos. A pequena elite portuguesa tinha acesso à produção importada se o entendesse.


Apostar sobretudo nas decorações permitiu que a produção de uma mesma forma se prolongasse no tempo e daí encontrarmos este modelo que vinha, pelo menos, desde cerca de 1930, ainda em produção durante a década de 50, embora nesta década apareça sob a designação de «Jarra Portugália, n.° 17» (tabela de Maio de 1951). Ver post de 4 de Junho de 2012.

Neste exemplar estamos perante uma decoração muito art déco com motivo estilizado de rosas e folhagem e cores planas, daí estarmos convictos de que se enquadra na cronologia que propomos.

domingo, 20 de agosto de 2017

Cinzeiro «Hipopótamo» creme - Sacavém


Cinzeiro de faiança moldada e relevada em forma de hipopótamo estilizado, de corpo arredondado, quase esférico, assente sobre quatro patas simétricas, e boca aberta, de cor creme subtilmente craquelé. O maxilar inferior, curvo, serve para apoiar o cigarro. No fundo da base carimbo azul «Gilman & Cta, Sacavém» sobrepujando «Made in Portugal».
Data: c. 1930-40
Dimensões: Alt. 6,5 cm x comp. 7,5 cm x larg. 5 cm (aproximadamente)


Trata-se de mais um objecto fantasista e divertido com que os criadores de cerâmica, e não só, amenizaram o quotidiano do período entre as duas Grandes Guerras. As suas obras ajudavam a esquecer o passado recente que profundas marcas havia deixado em todos assim como a Depressão que, iniciada em 1929, fazia surgir o especto de nova hecatombe, corporizada na subida ao poder de Hitler, em 1933. A potência alemã que havia causado a tragédia de 1914-18 voltava a mostrar as fauces.

Mas, por enquanto, a Europa fingia viver no melhor dos mundos possíveis. Brincar ajudava e os objectos funcionavam como escapismo na esquizofrenia ascendente. Não é à toa que este «Yawning Hippo Ashtray», reproduzido pela fábrica de loiça de Sacavém, seja uma concepção inglesa da Wilkinson Ltd, por volta de 1930. Arthur J Wilkinson (Ltd) operava na Royal Staffordshire Pottery, em Burslem, Stoke-on-Trent. O Reino Unido fazia parte do grupo dos vencedores mas as cicatrizes demoravam a fechar.

Encontrámos uma referência online como tendo sido este cinzeiro criado por Clarice Cliff, que nessa firma trabalhou, mas não o conseguimos apurar.


Como sabem, gostamos de imaginar possíveis cenários onde os objectos pudessem ter figurado no passado. Tratando-se de um cinzeiro individual, logo pouco propício à partilha (a não ser que houvesse vários exemplares estrategicamente espalhados pelo espaço colectivo de recepção de um qualquer interior doméstico), imaginamo-lo numa mesinha de apoio, junto a uma poltrona pronto a ser manuseado. Na pacata realidade portuguesa era mais uma blague num mundo ainda rural isolado sobre si próprio.

Esta forma simplificada e divertida de um cinzeiro em forma de hipopótamo, mais uma vez um brinquedo para o universo dos adultos, remete-nos ainda para a sexy bailarina hipopótamo que nos deliciou, e delicia ainda, na «Dança das Horas», de Ponchielli, no filme de Walt Disney, Fantasia (1940). Deixa-nos bem-dispostos e faz-nos sorrir.


Infelizmente, o nosso exemplar creme tem um defeito de fabrico no maxilar inferior. 

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Prato de cozinha com motivo de “amores-perfeitos” azul - Sacavém


Prato de cozinha de faiança moldada, formato circular com aba larga e lisa. De cor branca, o covo apresenta decoração central estampilhada e aerografada com bouquet de flores formado por três amores-perfeitos, a castanho e amarelo, campainhas castanhas e folhagem verde. Aba com barra aerografada a azul que, partindo do bordo, se esfuma em direcção ao centro. No fundo da base carimbo verde «Gilman & Ctª – Sacavém» sobrepujando «Portugal» e carimbos da mesma cor com «Z», um «S» (?) e «1300» (?)
Data: c. 1930-40
Dimensões: Ø 30 cm x alt. 5 cm


Mais um prato de grandes dimensões da Fábrica de Loiça de Sacavém. O motivo central remete para a decoração nº 1300-A «para malgas e pratos de cosinha», conforme se pode ver na ilustração da década de 1930 do catálogo de desenhos da fábrica, disponível no Centro de Documentação do respectivo Museu (MCS-CDMJA), cuja disponibilidade e apoio uma vez mais agradecemos.

Esta versão, com a aba simplesmente aerografada a uma cor, menos pesada do ponto de vista da ornamentação que a do catálogo, foi produzida com outras variantes cromáticas, como teremos oportunidade de mostrar.


domingo, 4 de setembro de 2016

Bases de candeeiro «Peixes em relevo» - Sacavém


Hoje apresentamos uma muito conhecida base de candeeiro art déco com motivos relevados de peixes e enrolamentos que remetem para búzios, em duas versões cromáticas e, estamos em crer, de materiais e datações diferentes. Uma, com um vidrado marmoreado de tonalidades amareladas semi-mate, será de faiança moldada, e outra, a branco mate, será de grés ou pasta de loiça sanitária (vitrificada). No fundo das bases, não vidrado na última, inscrito na pasta, «Made in Portugal – Sacavém»
Data: c. 1950 (amarela); c. 1980 (branca)
Dimensões (só base cerâmica): Alt. c. 14 cm (amarela); c. 13 cm (branca)



Muitos modelos art déco produzidos pela Fábrica de Loiça de Sacavém na década de 30 só apareçam referenciados na «NovaTabelaPrecos – Loicas Decorativas Em Faianca», de Novembro de 1945 (nesta listagem constam as célebres criações animalistas de Donald Gilbert e demais peças art déco da década anterior), mantiveram-se no mercado até tarde, geralmente até próximo de 1960, embora com outras variações de cor e vidrados, ou até com novas decorações mais consentâneas com o gosto vigente.


Será o caso deste formato, que aparece na dita tabela de Novembro de 1945 com a designação «31 – Jarra Peixes em relevo nº 6», indicando que terá sido inicialmente apenas comercializado em versão jarra e, mais tarde, produzido também como base de candeeiro.



Não nos parece que se trate de um modelo criado por Sacavém. Apostamos para mais uma importação de uma criação inglesa.

Mais informações, ver MAFLS (de cujo blogue reproduzimos a versão verde) aqui e aqui.



domingo, 12 de junho de 2016

Jarra canelada marmoreada – Lusitânia-Coimbra


Jarra de faiança moldada, em forma de granada ou de barrica canelada na horizontal, assente em pé saliente, com decoração marmoreada, a verde que alastra como óleo sobre creme-amarelado, com lustrina, que lhe dá um efeito suavemente irisado. No fundo da base, carimbo estampado verde, pouco legível, «Lusitânia – ELCL (?) – Coimbra – Portugal»
Data: c. 1930 - 40
Dimensões: Alt. 15,5 cm


 A forma será resultado da importação de modelo estrangeiro, dentro da gramática art déco modernista.


Um tipo de decoração marmoreada semelhante, com outra cor e expressão, foi mostrado
(1 de Dezembro de 2011) neste blogue a propósito de uma peça de Sacavém, que, então, incorrectamente datámos entre c. 1910-18. Hoje inclui-la-íamos na mesma cronologia desta jarra Lusitânia, tal como a jarra da francesa Onnaing que se ilustra, retirada da net (leilões eBay-Fr). Poderá ser esta produção francesa a estar na génese do exemplar de Sacavém, embora este tipo de efeitos tenha sido explorado em diversas fábricas de cerâmica de distintos países. O resultado “mancha de óleo” obtido pelo acaso da dissolução dos pigmentos sobre a cor base da peça é muito semelhante aos obtidos no papel marmoreado, de que se dá também exemplo infra. 


terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Prato de cozinha com motivo de mesquita - Sacavém


Prato de cozinha de faiança moldada, formato circular com aba larga e lisa. Decoração central estampilhada e aerografada, policroma. Sobre fundo branco, duas estampilhas a amarelo e castanho estilizam o motivo de mesquita, com espelho de água em frente e margem oposta em primeiro plano, onde se erguem duas palmeiras (tamareiras), à esquerda, definidas por duas outras estampilhas a castanho-mel e verde. Bordo com barra aerografada a cor-de-rosa que se esfuma em direcção ao centro. No fundo da base, carimbos verde «Gilman & Ctª – Sacavém – Portugal» e «946».
Data: c. 1930-40
Dimensões: Ø32 cm x alt. 5,5 cm


A arquitectura de uma mesquita otomana à borda de água, muito provavelmente um rio, com as duas tamareiras em primeiro plano, servindo de repoussoir, remete para o exotismo de um qualquer deserto do Próximo Oriente, o Egipto, por exemplo. Como se a mesquita turca do Cairo tivesse descido até ao Nilo.

Decorações idênticas podem ser encontradas em bases para bolos alemãs (infelizmente perdemos uma das imagens que tínhamos para ilustrar) e noutras peças cerâmicas da mesma nacionalidade.

Embora com raízes ainda setecentistas e que o espírito do Romantismo desenvolveu, este tipo de representações de um misterioso e exótico Oriente Próximo alimentaram o imaginário do Ocidente século XX dentro. O fascínio que a espectacular descoberta do túmulo de Tutankhamon, em 1922, causou, ou antes a personagem Lawrence da Arábia (1888-1935) e a canção «The Sheik of Araby» (1921), depois o cinema, em filmes como «The Sheik» (1926), ou os cenários da intriga de algumas obras de Agatha Christie (o mais conhecido será «Morte no Nilo», de 1937), por exemplo, contribuíram para continuar a alimentar fantasias das “mil e uma noites” no imaginário e estética colectivos pelo menos até ao desencanto que eclodiu com a II Grande Guerra.


Exemplar idêntico já foi apresentado por MAFLS, que sobre o tema discorreu, e apenas rectificamos que se trata da decoração nº 946 «para malgas e pratos de cosinha», conforme desenho do fundo documental da antiga Fábrica de Loiça de Sacavém, disponível no Museu de Cerâmica de Sacavém - Centro de Documentação Manuel Joaquim Afonso, a quem dirigimos, uma vez mais os nossos agradecimentos, e conforme carimbo deste nosso exemplar.

Como os Reis Magos vieram do Oriente e o Menino também por lá nasceu, aproveitamos o motivo para desejar um


domingo, 15 de novembro de 2015

Prato coberto art déco - Serviço Estoril – Sacavém


Prato coberto de faiança moldada, de formas geométricas ao gosto art déco modernista, monocromo azul-pálido. O contentor, circular e com pé inflectido escalonado, tem duas asas semicirculares assentes sobre mísulas escalonadas. A tampa, igualmente circular e escalonada, tem pega em forma de anel largo, interrompido. Integra o serviço de jantar Estoril. No fundo da base, carimbo verde «Gilman e Ctª - Sacavém – Portugal» e, também a verde, carimbo em forma de flor (?) de 4 pétalas.
Data: c. 1935
Dimensões: Ø 26,7 cm (com asas) x alt. 10,5 cm



 Estamos perante uma forma importada de Inglaterra. O modelo Estoril da Fábrica de Loiça de Sacavém, reparem na ironia do nome português, não é mais que a importação do modelo Casino criado, provavelmente em 1932 ou 34, pela Royal Doulton Potteries, na Nile Street, em Burslem, Stroke-on-Trent, onde foi produzido em faiança e em porcelana.


As linhas modernas, simples e práticas, mas elegantes, deste serviço art déco de vertente streamline, são concebidas no âmbito da renovação que a empresa inglesa sofre nos inícios dos anos 30, ao contratar artistas contemporâneos para conceber objectos de design para produção em massa. A forma remete para uma estética industrial em que as diversas partes parecem resultar da colagem de elementos mecânicos. O modelo Casino recebeu decoração linear: “Marquis”, “Radiance” ou “Envoy”, no original inglês, onde faixas de cor – laranja, verde ou azul, respectivamente – são complementadas por faixas e filetes concêntricos a preto.


Este modelo, produzido por Sacavém, teve um grande sucesso de vendas em Portugal, e a sua forma é ainda mais depurada nesta variante monocroma que apresentamos, por contraponto aos exemplares com decoração linear, também frequentes no mercado nacional. Quando olhamos para a fotografia ou a publicidade dos exemplares ingleses que ilustramos julgamos, de imediato, estar perante peças produzidas por Sacavém. Ver outra variante decorativa em MAFLS.


Ter serviços, então completos pior ainda, é uma dor de cabeça para um colecionador de cerâmica. Nada ocupa tanto espaço quanto estes. Agravado quando se gosta de ter os mesmos modelos nas suas diversas variantes decorativas. Peças isoladas, mas exemplificativas, de cada modelo produzido ajudam a colmatar a dificuldade. É o caso.

domingo, 18 de outubro de 2015

Jarra “coração” com duas crianças – Electro-Cerâmica - Candal


Jarra de porcelana moldada em forma de coração, a verde com interior a branco, assente sobre pés laterais salientes, a preto. Sentado no bordo, casal de meninos a namorar, policromos. No fundo da base, carimbo verde «EC» inscrito num quadrado na diagonal sobrepujando «Candal». Inciso na pasta «F. 42» e, pintado à mão a preto, «N» (marca do pintor?)
Data: c. 1940 - 50
Dimensões: alt. 16 cm x comp. c. 11, 5 cm x larg. c. 9 cm



Claramente, e como MAFLS já havia referido, estamos perante um modelo de fortes ressonâncias germânicas, muito próximo das produções da fábrica Goebel.

O proprietário destra fábrica, Franz Goebel, em 1934 havia decidido lançar uma nova linha a partir de desenhos concebidos por uma freira, a irmã Maria Innocentia Hummel, anteriormente editados em postais e livros. Aliás, estamos mesmo em crer que não se tratará de mera inspiração mas de um modelo importado, talvez até especificamente para a Electro-Cerâmica do Candal, pois não conseguimos encontrar (pelo menos até agora) exemplar idêntico de fabrico alemão.


Berta Hummel (1909 -1946) foi uma artista alemã, nascida em Massing, na Baviera. Educada, a partir dos 12 anos, num colégio de freiras, as Irmãs do Loreto, em Simbach am Inn, ingressou, aos 18 anos, em 1927, na prestigiada Escola de Artes Aplicadas de Munique, onde se licenciou com distinção em 1931. Profundamente religiosa, nesse mesmo ano entrou para o convento franciscano de Siessen, onde escolheu o nome de Maria Innocentia, tomando votos em 1937.


A sua inspiração artística estava claramente imbuída do espírito franciscano. Pelo amor às crianças, aos animais, à natureza, e pelo sentimento de inocência que as suas obras transmitem ainda hoje. Transparece nas suas criações um gosto fácil, ternamente kitch que, todavia, provocou reacções negativas numa Alemanha totalitária.

Profundamente anti-nazi, a sua arte foi repudiada pelo regime, que entre outras questões, que não cumpre aqui analisar, não aceitava as suas crianças “hidrocéfalas” e amaneiradas, contrárias ao ideal ariano da masculinidade e da força física (ver foto).


Quiçá as suas criaturinhas delicodoces, inocentes, rosadinhas e saudáveis, bem vestidinhas, crianças muito loiras e pacíficas, como anjinhos barrocos agora remetidos para um papel mais laico, não terão sido uma reacção à brutalidade nazi que se impôs na Alemanha, visto que algumas das suas obras religiosas atingiram o patamar da provocação ao regime (ver aqui).

O convento de Siessen é ocupado pelos nazis em 1940, ficando as religiosas confinadas a um pequeno espaço. As dificuldades a partir de então, sentidas pela comunidade, vão deteriorar o estado de saúde da irmã Maria Innocentia que, tuberculosa, acaba por morrer em 1946, com 37 anos de idade.

A expansão internacional dos seus modelos vai dar-se, sobretudo, no final da II Guerra Mundial, com a divulgação nos Estados Unidos da América, graças aos exemplares levados pelos soldados americanos de regresso a casa.

Talvez como consequência desta popularidade, não só a Electro-Cerâmica do Candal, mas também outras fábricas nacionais, caso da Vista Alegre ou de Sacavém (imagens da Virgem, por exemplo), copiam, ou importam, os modelos da Goebel. A série «Bebé» desta última, em nossa opinião, poderá, para além das sugestões de MAFLS, com as quais concordamos plenamente, também ser uma reinterpretação da estética criada pela freira franciscana. Uma digestão perfeita de uma estética importada, esvaziada de conteúdo político, pois ao repúdio do regime belicista nazi pelas obras de Hummel, corresponde na produção portuguesa uma clara simpatia por parte da situação política vigente, ruralizante e de uma religiosidade paternalista tão do agrado do regime e da Igreja de então. Uma produção apaziguante, ternurenta e completamente inócua.


Daí também o sucesso do exemplar de hoje e de outras figurinhas com a mesma origem que a fábrica do Candal produziu e que haveremos de postar.

sábado, 8 de agosto de 2015

Ainda a propósito do cinzeiro-cigarreira art déco «Gato» - Sacavém

Relativamente ao cinzeiro, formato «Gato», postado em 15 de Março passado, verificámos que, por distração (estávamos mesmo a precisar de férias), nos esquecemos de publicar a fotografia, de 1941, constante do acervo do Museu de Cerâmica de Sacavém -Centro de Documentação Manuel Joaquim Afonso (MCS-CDMJA), cujos créditos e colaboração agradecemos. É bem exemplificativa de como era utilizado este cinzeiro bem-humorado.


Como referimos então, a peça aparece referida com o nº 272 nas tabelas de preços de faianças decorativas de 1941 (10$00), de 1945 (15$50) e 1951 (20$00), e não, mais um lapso, 1950 ...

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Jarra art déco com três asas (pequena) – Aleluia-Aveiro


Jarra de faiança moldada e relevada, piriforme, com bojo seccionado regularmente por caneluras verticais e três pequenas asas entre o colo e a parte superior do bojo. Sobre a cor creme de fundo recebeu decoração estampilhada manualmente a preto e castanho. Entre as caneluras, debruadas por filete preto, recebeu festões vegetalistas estilizados que pendem de um anel perolado que cinge a parte inferior do colo sendo a parte superior do mesmo decorado por duas folhas cruzadas, onde liga a parte superior das asas que são, em ambas extremidades, pintadas a preto em degradé, simulando o esfumado do aerógrafo. Assenta sobre pé saliente realçado por filete preto e aguada acastanhada. No fundo da base, a preto pintado à mão, «Aleluia Aveiro» e, inscrito na pasta, «20» seguido de «A» igualmente a preto pintado à mão.
Data: c. 1935 - 45
Dimensões: alt. 12,5 cm



Trata-se pois do modelo nº 20, e a primeira decoração da série, como indica a letra «A». No Catálogo de loiças decorativas de inícios da década de 40, aparece representada jarra idêntica, com mesma dimensão e numeração, mas com o nº 20-B, ou seja, a segunda da série. Haveremos de postar o modelo nº 21 de maiores dimensões e outras decorações.


Estaremos, uma vez mais, perante um exemplo de contaminação com a produção da vizinha Fábrica da Vista Alegre. Ao observarmos a jarra «Ângelo», que ilustramos, não há dúvida de que estamos perante a mesma forma. A jarra aparece-nos referida na bibliografia existente como tendo sido criada na Vista Alegre em 1937. Todavia, e mais uma vez a ironia do desconhecimento sobre a produção nacional, a fábrica alemã de porcelanas Rosenthal produziu este modelo na mesma década de 30, e não cremos que tenha sido ela a copiar um modelo português.


Aliás, a Rosenthal parece ter sido uma razoável fornecedora de modelos para o mercado nacional das fábricas de cerâmica, caso da Vista Alegre ou Sacavém e, provavelmente por acréscimo, da Aleluia-Aveiro como será o caso do exemplo de hoje.


A propósito de Sacavém, aproveitamos para exemplificar um dos casos mais flagrantes de utilização de um modelo escultórico alemão da Rosenthal e os equívocos que, mais uma vez, o desconhecimento introduz no discurso nacional vigente sobre o assunto.

Trata-se da escultura de mulher nua sentada, que na obra «Fábrica de Loiça de Sacavém» de Ana Paula Assunção aparece, na página 125, erradamente identificada como sendo da autoria de Donald Gilbert. Como ilustramos, trata-se também de uma peça concebida pela Rosenthal, criada em 1934 pelo escultor alemão Gustav Adolf Bredow (Krefeld, 1875 - Stuttgart 1953). Basta saber ver a obra de Donald Gilbert, um artista moderno, para se perceber que tal peça, de estética profundamente reacionária, já da época hitleriana, não poderia nunca ser criação sua. Uma obra sem garra.


Como tivemos oportunidade de desvendar na palestra «À conversa com …», realizada no Museu de Cerâmica de Sacavém, em 24 de Maio de 2014, intitulada «Modelos e referências estrangeiras na produção da loiça de Sacavém na 1ª metade do século XX», a influência alemã é bastante grande em Sacavém.

Habitualmente só se refere a importação de modelos ingleses, mas como se vê a Alemanha (fábricas como a referida Rosenthal, a Max Roesler, a Schramberg, a Sörnewitz-Meissen, etc.), mas também a França (apresentamos dois exemplos da Fábrica de Sainte Radegonde), deram contributos significativos para esta fábrica. São, por agora, apenas alguns exemplos, mas voltaremos ao assunto a propósito de outras peças.