sexta-feira, 23 de março de 2012

Jarra Anos 50 – Aleluia-Aveiro




Jarra de faiança moldada e relevada, de forma orgânica, cuja cor verde-água do fundo, numa superfície aparentemente lisa, recebeu uma decoração a preto e ouro, que corresponde às incisões que definem o desenho perfeitamente regular e repetitivo. Assim, uma sucessão de doze verticais, que ora engrossam ora estreitam, a preto, envolvidas por linhas espiraladas a ouro, seccionam a espaços regulares a totalidade da peça. O interior, a preto mas esvanecendo-se em verde-água à media que se aproxima do fundo, destaca-se do bocal curvilíneo recortado de forma claramente assimétrica na diagonal e delineado a verde-água. Na base, carimbo castanho «Aleluia Aveiro» com um v ou L pintado à mão, a ouro, sobrepujando carimbo da mesma cor «Fabricado Portugal» inscrito num rectângulo, e, escrito à mão, a ouro, 712-A.
Data: c. 1955
Dimensões: alt. 35 cm x larg. c. 17 cm

A descrição formal com que habitualmente iniciamos cada post, é para nós um exercício de extrema importância, na medida em que nos auxilia a olhar e ordenar uma colecção que, dada a dimensão, começa a ser difícil de gerir em termos de inventariação e que a falta de espaço agudiza. Para mais, a organização das nossas fichas de inventário está em permanente actualização, conforme os dados que vamos recolhendo, seja em bibliografia, trocas de impressões com colecionadores e vendedores, centros de documentação de museus, internet, partilha na blogosfera, etc..

Em termos de forma e de características técnicas o exemplar de hoje aproxima-se da peça anteriormente mostrada. Seguindo o mesmo critério nela explanado, o número 712 corresponderá ao modelo e dimensão e o «A» à decoração.
Todavia, nela encontramos leituras outras que nos obrigam a tecer algumas considerações.
Por um lado, a organicidade da forma está em consonância com o dinamismo da decoração. Não existe tensão ou contradição entre ambas, antes complementaridade. À fluidez estrutural corresponde uma decoração fluida com algo que nos remete para um ambiente marinho, numa ondulação de algas acentuada pela cor do fundo.
Por outro lado, essas mesmas linhas ondeantes remetem-nos para a visualização do som e do ritmo que Walt Disney tão bem soube exprimir na obra-prima que é Fantasia (1940), na cena 9, em que é feita a apresentação da «banda sonora». Nela vemos uma sequência de cores e formas cujos ecos se vislumbram em grande parte da produção internacional de artes decorativas dos anos 50 até mesmo aos 70, e, obviamente, na produção cerâmica da Aleluia-Aveiro. Não nos podemos esquecer do fascínio que o filme exerceu nas sucessivas gerações que o viram. O encanto mantém-se intacto ainda hoje na era dos computadores e dos efeitos especiais.
Mas já Kandinsky tinha andado por ali, envolvido em cores e ritmos … e o mesmo ia fazendo Busby Berkeley no cinema musical.



2 comentários:

Paulo Varanda disse...

Esta peça é maravilhosa, há outras exactamente com o mesmo formato mas com decoração completamente diferente. Parabéns pelo blogue.

AM-JMV disse...

Obrigado Paulo,
Em primeiro lugar, bem-vindo. Este modelo só o conhecemos com a mesma decoração mas com outra cor, em rosa pastel. Gostaríamos de ver outros exemplos.
Cumprimentos