sábado, 5 de outubro de 2013

Jarra modelo nº 148 - Aleluia - Aveiro


Jarra de faiança moldada, periforme, com decoração pintada à mão. O bojo pronunciado é decorado com faixas torcidas, a cor-de-tijolo e preto intercaladas, com composições vegetalistas espiraladas à maneira dos grotescos renascentistas, separadas por listas brancas. Estrangula num anel relevado branco, de onde parte o gargalo lotiforme cor-de-tijolo. O branco do interior morre no bocal curvo. No fundo da base, carimbos pretos, um circular sobre rectângulo, com «Aleluia-Aveiro», outro, «Made in Portugal hand painted». Pintado à mão, a preto, x, dentro do carimbo circular, e 148 X. No frete, também à mão, outro X.
Data: c. 1940 - 50
Dimensões: alt. 29 cm
 

A forma, que remete para a de algumas peças chinesas, é a nº 148 e a decoração será a X. No Catálogo de loiças decorativas de inícios dos anos 40 aparece a forma nº 148 com outras decorações (A e B) e decoração idêntica surge associada a uma jarra de modelo completamente distinto sob o nº 15 – G (forma e decor). 



Dada a numeração alfanumérica elevada e o não figurar no referido catálogo, poderá indiciar uma forma e decoração da produção de 1935-45 mas já de feitura posterior, possivelmente da segunda metade dos anos 40. Todavia não o podemos afirmar.


De qualquer maneira a decoração aproxima-se também da de uma jarra da Vista Alegre, com marca de 1924 a 1947, que ilustramos, exposta no museu da fábrica e que um amigo nos fez chegar. Tal como já havíamos referido, a proximidade geográfica entre os dois centros de produção cerâmica levava à circulação de técnicos e operários e daí as semelhanças formais e decorativas que se encontram em muitas peças de ambas as proveniências. Continuaremos a mostrar exemplos desta contaminação.


A jarra de hoje tem uma história curiosa, pois chegou às nossas mãos de forma particularmente diferente. Em encontro casual, e dado tratar-se de um conhecido colecionador, conversámos sobre os interesses comuns. Trocámos contactos. Passado uns tempos telefonou-nos dizendo que estava interessado em desfazer-se de um pequeno conjunto de peças. De vez em quando há necessidade de fazer opções, mais que não seja por uma razão tão prosaica como a falta de espaço – também nós já o fizemos com objectos que em determinado momento das nossa vidas fizeram sentido mas que passados uns anos já não era possível manter. Outros há que mesmo já sem fazer qualquer sentido nas colecções os mantemos por razões mais afectivas que racionais.

Ora esta partilha, por troca ou por venda, entre coleccionadores é uma forma excelente de adquirir exemplares que não se possuem. No caso, acabámos por ficar com uma peça de grande qualidade técnica.

domingo, 29 de setembro de 2013

Jarra Solitário Anos 50 – Modelo 815 - Aleluia - Aveiro


Jarra solitário, de faiança moldada, em forma de jarro curvo, com três faces, estreitando da base para o bocal, com aleta igualmente curva onde se inscreve abertura circular. A parte da frente, convexa, de cor branca, recebeu decoração geométrica de linhas a preto que se entrecruzam obliquamente na vertical, cortadas pontualmente por segmentos de recta, também a preto, formando pequenos trapézios a azul e laranja. As duas outras faces são côncavas, a preto, com a cor branca a cobrir o rebordo exterior da “pega” e o interior da abertura circular. No fundo da base, carimbo castanho «Aleluia Aveiro» em cujo centro aparece um I pintado à mão, a preto, sobrepujando carimbo da mesma cor «Fabricado Portugal» inscrito num rectângulo, e, à mão, a preto, 815.
Data: c. 1955 - 65
Dimensões: alt. c. 40,7 cm


Mais que um objecto decorativo com função específica, como a denominação “jarra” nos poderia indicar, trata-se de uma peça essencialmente escultórica. Situação, aliás, comum a outras peças da Aleluia-Aveiro que temos apresentado.


Não foi por acaso que quando a vimos imediatamente estabelecemos uma associação formal com o projecto vencedor do concurso internacional, realizado em 1958, para o monumento ao Infante D. Henrique a erguer em Sagres e inviabilizado pelo governo (Salazar não gostou do arrojo …).

Baptizado «Mar Novo», o projecto, concebido em 1957, é do arq. João Andresen (1920-1967), em co-autoria com o escultor Barata Feio (1899 – 1990) e o pintor Júlio Resende (1917 -2011). O título da obra poética homónima de Sophia de Mello Breyner Andresen é uma homenagem ao trabalho do seu irmão João. 


Vela enfunada aberta ao Atlântico, esta monumental obra ímpar, simbólica e de prestígio, parafraseando José-Augusto França, obviamente com impacto na época, poderá ter inspirado o autor da peça cerâmica. O que acha CMP?

A decoração, aliás comum a várias outras formas, é de um grafismo mondrianesco, que enfatiza de forma irónica, naturalmente inconsciente, a monumentalidade da vela enfunada, aqui rasgada e remendada. 


A modernidade da forma continua actual como se pode ver em projectos de arquitectura contemporânea, nomeadamente em edifícios recentes erguidos nas cidades petrolíferas do Golfo Pérsico (ou Arábico, que não queremos ferir susceptibilidades …).

domingo, 22 de setembro de 2013

Jarra art déco modelo nº 520 - Denbac – França


Jarra art déco de grés moldado, de forma quadrilobada assente sobre pé cruciforme saliente, de onde parte a estrutura de “suporte” onde encaixa o vaso. A cor mate acastanhada, com escorrências esverdeadas e arroxeadas a partir do bordo, confere-lhe uma aparência metálica. No fundo da base, inscrito na pasta, 520 (número de forma) e Denbac.
Data: c.1930-35
Dimensões: Alt. 18,5 cm
 


Da produção Denbac que possuímos, gostamos particularmente desta peça que, quer pela forma quer pelo tratamento dos esmaltes e cor, nos remete para outra função e material que não a jarra ou o grés. Também a espessura das suas paredes finas contribuem para essa ilusão. Ganha contornos de recipiente industrial, integrado num qualquer complexo fabril, quiçá uma siderurgia, feito de ferro ferruginoso (ou cobre), cujas escorrências  ainda acentuam mais a estética de uma peça típica de “l’âge de la machine”. Assim, foge ao mero decorativismo do Art Déco, onde se insere pelo lado modernista, pelo geometrismo, pelo despojamento e mecanização das formas, e está perfeitamente integrada na época em que foi criada, por contraponto aos modelos Arte Nova que Denbac vai continuando a produzir com grande aceitação junto de uma determinada clientela de gosto conservador.

domingo, 15 de setembro de 2013

Jarra art déco aerografada - Villeroy & Boch - Alemanha

A propósito da visita que ontem fizemos à exposição itinerante «Deutscher Werkbund.100 anos de arquitectura e design na Alemanha. 1907-2007», movimento que trouxe influências incontornáveis que perduram ainda hoje, ao promover a colaboração entre a arte, a excelência artesanal e a indústria, escolhemos a peça de hoje.




Trata-se de uma jarra de faiança moldada composta pela justaposição de duas formas geométricas que se interpenetram. Do bojo ovaloide, assente em base saliente, abre-se um colo troncocónico invertido com bocal em anel. De cor amarela com decoração estampilhada e aerografada, com apontamentos à mão, em tons laranja e castanhos. Na parte superior uma composição geométrica abstracta, escalonada na oblíqua, resultante da sobreposição de estampilhas, repete-se três vezes. No seu alinhamento, junto ao estrangulamento, uma composição de linhas castanhas, três verticais cortadas por duas horizontais. No fundo da base carimbo castanho «7670» e inscrito na pasta «3233».
Data: 1932
Dimensões: Alt. 22 cm



Embora sem marca, é da Villeroy & Boch, da unidade fabril de Torgau, de 1932, modelo 3233, conforme catálogo da fábrica dessa mesma data.

A forma desta jarra filia-se claramente numa outra, presente na referida exposição, criada por Marguerite Friedlaender (1896-1985), que foi aluna na Bauhaus de Weimar. Trata-se da jarra «Hallesche» (forma), de c. 1931, editada pela KPM (Konigliche Porzellan-Manufaktur), em Berlim, que aqui se ilustra.


Se nesta peça icónica de Friedlaender o despojamento da forma e ausência de decoração enfatizam a função, na reinterpretação da Villeroy & Boch a forma é relativamente secundarizada por uma decoração de padronagem aerografada. Assim o funcionalismo integra-se numa das vertentes do Art Déco alemão. Destinada a uma população economicamente mais desfavorecida, cumpria a sua função de divulgação de uma estética de vanguarda junto das massas em tempos de crise. A arte e a indústria aliadas e ao serviço do povo.

Pena que o catálogo que acompanha a exposição seja apenas em língua alemã e não tenha havido o cuidado do país que a concebeu, dado ser uma exposição itinerante, de ter editado uma versão numa língua veicular mais acessível a um maior número de eventuais interessados. É verdade que existe uma pequena brochura com textos em português, em jeito de síntese, mas sem o complemento ilustrativo das peças ou demais imagens expostas.

Infelizmente, trata-se de uma situação assaz frequente na Alemanha, e que diríamos mesmo incómoda para o visitante estrangeiro, ver exposições ou museus que geralmente não dispõem de catálogos ou outra bibliografia disponíveis se não em língua alemã.