domingo, 8 de setembro de 2013

Cigarreira de Paul Speck - Karlsruhe


Mais uma cigarreira criada por Paul Speck para a Karlsruher Majolika. Trata-se de uma caixa de faiança moldada, paralelepipédica, com taça apresentando, nas extremidades mais estreitas, rebordos curvos salientes onde encaixa uma tampa perfeitamente rectilínea rectangular. A peça apresenta cor marfim com decoração, pintada à mão, de listas verdes que contornam a base e exterior curvo dos encaixes salientes, assim como o rebordo exterior da tampa. Listas verde-amareladas correm no sentido longitudinal das laterais da taça e da tampa, assim como interior dos encaixes, acompanhadas por traços a cinzento esverdeado. No fundo da base, inscritos na pasta, carimbo da manufactura de Karlsruhe, «2903» (modelo?) e «23» (decor?), assim como «PSp» e «Made in Germany».
Data: 1925
Dimensões: comp. 21,6 cm x larg. 10 cm x alt. 5,3 cm
 


 
A decoração não será tão descontraída e alegre como a que integra a colecção do Badisches Landesmuseum, que aqui apresentamos (ver catálogo da exposição: «Paul Speck und die Karlsruher Majolika», 1997, p. 85), mas o despojamento decorativo deste nosso exemplar acentua mais o funcionalismo da forma. 


Por imposições devidas à Grande Guerra, a Alemanha não pôde participar na Exposição de Paris de 1925. Por isso foi vedado ao público ver as grandes inovações e a grande qualidade da produção germânica da  época, quer seja ao nível do mobiliário, sobretudo o que utilizava materiais industriais, adaptados à vida contemporânea do novo século (Marcel Breuer desenhou a sua primeira cadeira em aço tubular em 1925, na Bauhaus), quer ao nível dos objectos decorativos e utilitários que privilegiam, também eles, o funcional.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Taça art déco de Odette Chatrousse e Auguste Heiligenstein - França


Taça de grés com decoração art déco relevada vegetalista de esmaltes policromos e realces a ouro, tanto externa como interiormente, de bojo nervurado com caneluras céladon cintado superiormente por grinalda de folhagem estilizada verde e bagas a azul-real, ambas contornadas a ouro, que, em três partes geometrizadas pendem sobre as caneluras. Bordo a ouro “à accidents”. A taça assenta sobre pé em anel a verde e ouro. No côvo, envoltas por círculo verde, bagas a azul-real caídas sobre ouro. No fundo da base, pintada à mão, a preto, OC inseridos num H (iniciais dos autores).
Data: c.1925
Dimensões: Alt. 6,4 cm x Ø13 cm


A taça é bem um exemplo do trabalho conjunto da dupla de artistas que constituiu o casal Chatrousse e Heiligenstein.

Auguste Heiligenstein (1891-1976) começou como aprendiz de decorador na Fábrica de Vidro Legras & Cª entre 1904 a 1906. Contratado pela Cristalaria de Baccarat, aí permanece entre 1907 e 1912 enquanto frequenta o ensino nocturno da Escola de Artes Decorativas. 

Após a Grande Guerra, entra para a Maison Geo Rouard onde executa decorações em esmalte sobre vidro da autoria de Marcel Goupy. Em 1923, após deixar Rouard, casa com a ceramista Odette Chatrousse (1896-1989). A par do trabalho sobre vidro vai começar uma parceria com a sua mulher no campo do esmalte sobre cerâmica. Tendo participado em inúmeras exposições, recebe uma medalha de ouro na Exposição das Artes Industriais e Modernas de 1937.

É sobretudo o período entre guerras, principalmente após o casamento, que vai marcar o apogeu dos dois artistas e torná-los incontornáveis na história das artes decorativas da primeira metade do séc. XX no Ocidente. 


No atelier parisiense que Odette herda do seu pai, o escultor Emile Chatrousse, trabalham ambos a cerâmica e o vidro. Por vezes outros artistas como Mayodon aparecem para trabalhar e cozer as suas criações. Odette decora peças que manda executar a oleiros a partir de desenhos seus. Antes do casamento havia trabalhado principalmente para as Galerias Lafayette que abriram o seu atelier de decoração moderna, dirigido por Maurice Dufrenne, em 1921.

Os pratos, taças, jarras, muito decorativos num estilo floral e geométrico já em moda e que triunfará na exposição de 1925, são ornamentados em esmaltes ricamente coloridos. Rapidamente as cores restringem-se e harmonizam-se numa gama de azuis, do turquesa ao azul real que contrastam com o dourado. Esta gama de cores irá ser, também, a imagem de marca do atelier de vidro esmaltado de Heiligenstein. Este, de 1923 a 1935, vai assim trabalhar paralelamente o vidro e, com a ajuda da mulher, a decoração sobre cerâmica. Essencialmente a sua participação técnica nas peças de Odette restringe-se à aplicação de realces a ouro, em segunda cozedura, nos contornos dos motivos feitos a esmalte.

A aplicação a ouro utilizada durante este período remete para Mayodon, sobretudo para a sua técnica do ouro “à accidents” com o qual decorava o fundo das suas criações, como é bem evidente na taça que mostramos. Trata-se de um ouro velho, cheio de imperfeições.

Fruto de uma colaboração estreita, Odette e Auguste influenciam-se profundamente na gramática decorativa e nos temas que utilizam quer no vidro quer na cerâmica: o amor pela natureza, o Oriente, a Antiguidade Clássica.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Jarrinha art déco com flores – Aleluia-Aveiro


Jarrinha art déco de faiança moldada, piriforme de colo invertido e pequena gola curva elevando o bocal circular. De cor creme com decoração estampilhada manualmente a preto e castanhos. Três listas verticais a preto, cortadas na parte mais larga do bojo por duas fiadas de traços castanhos-claros e filetes a preto sobre reserva, unem-se ao preto que cinta a base e o bocal. Intercalam com três flores estilizadas a castanhos e preto, de caule curvo e folha. No fundo da base, pintado à mão a preto, Aleluia - Aveiro sob «42» inscrito na pasta, a que sucede, igualmente pintado à mão a preto, um traço horizontal e um «C».
Data: c. 1935-45
Dimensões: alt. 9,5 cm



Mais uma jarra de pequenas dimensões com que a Aleluia-Aveiro nos brindou na sua produção entre c. 1935-45. O processo semi-industrial do seu fabrico, a paleta de cores, que privilegiam preferencialmente os tons terra e preto, e o tipo de decoração, neste caso uma flor estilizada de desenho muito característico, presentes nas peças então aí feitas, embora diferentes, têm afinidades que não deixam qualquer dúvida quanto à sua origem. Mesmo que por detrás se detectem influências estrangeiras, caso da produção francesa de Ciboure ou outras, como já referimos, a Aleluia-Aveiro soube criar uma linguagem muito própria.


No catálogo de louças decorativas de inícios dos anos 40, que nos tem acompanhado, aparece referida sob o Nº 42 – C. 

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Parte de serviço de café ou tête-à-tête (?) art déco - Massarelos - Porto


Duas peças de faiança moldada, açucareiro e leiteira, de um serviço de café ou tête-à-tête – assim interpretamos dadas as dimensões mais reduzidas das peças que o serviço de chá do exemplar anteriormente postado - com idêntica decoração estampilhada e aerografada. O modelo é ligeiramente diferente do de chá, pelo menos no que nos é dado a conhecer pelas únicas duas peças em presença, ao nível do desenho da tampa do açucareiro. No fundo das bases carimbos pretos compostos por dois círculos concêntricos sobrepujados por coroa e lateralmente envolvidos por coroa de louros. No círculo interior uma Cruz de Cristo enquadrada pelas iniciais C F C L [Companhia das Fábricas de Cerâmica Lusitânia], envolvido no círculo exterior por «Massarellos – Roriz – Porto». Por baixo de todo o conjunto «Portugal».
Data: c. 1936-40
Dimensões: Leiteira – alt. 8,5 cm; açucareiro c/ tampa – alt. 11cm


O modelo é mais uma vez alemão, claramente inspirado no serviço Donatello, cuja forma Arte Nova (Jugendstil), de 1904, foi criada para a Rosenthal. Já dele falámos, em 15 de Janeiro de 2012, a propósito de um outro serviço da Electro-Cerâmica (EC) muito semelhante a este. Todavia, a esse o diríamos também próximo de um outro modelo germânico, também Jugendstil, da Fábrica de Porcelana de Moschendorf ao nível das asas e pegas, pelo que aproveitamos para agora o ilustrar.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Serviço de chá art déco - Massarelos - Porto


Parte de serviço de chá art déco, de faiança moldada, composto por bule, açucareiro, leiteira e manteigueira, de cor branca com decoração geométrica, de rectângulos e triângulos, estampilhados e aerografados a azul e cor-de-vinho, em esfumado, com apontamentos à mão, a castanho, nas asas, pegas e bicos. No fundo da base, carimbo preto (marca utilizada entre, pelo menos 1936-50) composto por dois círculos concêntricos sobrepujado por coroa e lateralmente envolvido por coroa de louros. No círculo interior uma Cruz de Cristo enquadrada pelas iniciais C F C L [Companhia das Fábricas de Cerâmica Lusitânia], envolvido no círculo exterior por «Massarellos – Roriz – Porto». Por baixo de todo o conjunto «Portugal». Leiteira e açucareiro apresentam ainda, inscrito na pasta, «R». O bule não tem qualquer marca para além das da trempe presentes em todas as peças
Data: c. 1936-40
Dimensões: Várias


Segundo José Queirós (Cerâmica portuguesa e outros estudos, da Editorial Presença, Lisboa, 2002, p.380) a fábrica foi fundada em 1738 por Manuel Duarte Silva, no lugar de Massarelos, na Rua da Restauração, perto do Cais das Pedras. Será a mais antiga fábrica de faianças do Norte de Portugal. Arrendada entre 1819 e 1845 a Rocha Soares, familiar do fundador, produziu louça utilitária, peças artísticas e azulejos lisos e relevados – que se tornaram uma das marcas identitárias da fisionomia urbana do Porto, e que são raros em Lisboa onde aparecem num edifício unifamiliar da Rua do Quelhas. 


De uma gestão familiar até ao início do século XX, a fábrica foi comprada a 2 de Maio de 1904 por uma sociedade, a Empresa Cerâmica Portuense, Lda, administrada por Archibald James Wall, que havia adquirido sede e novas instalações fabris na Quinta do Roriz, em Quebrantões do Norte, na freguesia do Bonfim, junto ao rio Douro, tendo como propósito a produção de tubos de grés e louça sanitária. O seu funcionamento só ficaria regularizado em 1906 com a atribuição da respectiva licença que permitia estabelecer no local uma fábrica de cerâmica, tendo a partir daí laborado em simultâneo com a filial da fábrica de louça em Massarelos.


Em 1912 C. J. Chambers, que havia entrado dois anos antes para a Empresa Cerâmica Portuense como empregado, adquiriu uma cota, ficando a firma a denominar-se Chambers & Wall.
 
Consumida por um incêndio na madrugada de 11 de Março de 1920, a unidade original de Massarelos passa para a Quinta do Roriz onde a firma Chambers & Wall assegurou a produção da louça da marca “Massarelos-Porto”. A louça da marca “Massarelos” continuou a ser produzida na unidade industrial de Quebrantões do Norte até 1980. Depois do encerramento da fábrica foram demolidos, para que se pudesse construir a ponte de São João, os edifícios de que restam apenas dois fornos “garrafa” e uma chaminé. 

 
A sociedade Chambers & Wall, por escritura lavrada no dia 3 de Junho de 1933, passou a designar-se Chambers & Wall, Lda., sociedade por quotas constituída pelos sócios Charles Archibald Wall, Richard Allan Wall e Leslie Dow Smart. Em 29 de Fevereiro de 1936 a fábrica de Roriz foi vendida à Companhia das Fábricas Lusitânia, SARL, com sede em Lisboa, constituída por escritura de 3 de Setembro de 1929, que por mais alguns anos daria continuidade à marca Massarelos. Entretanto a unidade industrial da Quinta de Roriz muda novamente de mãos pelo que de 1 de Julho de 1944 a 1952 se encontra arrendada à Companhia das Fábricas de Cerâmica Lusitânia (CFCL) e por escritura de 25 de Julho de 1944 passou a denominar-se Fábrica de Loiças «Massarelos», Lda.

A fábrica é vendida, em 29 de Dezembro de 1952, à firma Fábricas «Lufapo» de Faianças e Porcelanas, (S.A.R.L.) embora a laboração da Fábrica de Louças «Massarelos», Lda., continuasse a ser anunciada ao ano seguinte. Embora a «Massarelos» revelasse uma situação económica difícil a partir de meados da década de 50, realizaram-se avultados investimentos nos anos 70, e a «Lufapo» manteve esta sua filial no Porto até 16 de Abril de 1980, ano em que encerraria definitivamente por declarado estado de falência. 

A marcação das peças com o carimbo “MASSARELLOS / RORIZ – PORTO / CFCL / PORTUGAL” corresponde, sem sombra de dúvida, ao fabrico posterior a 1936 em que a fábrica apresenta cariz mais industrializado.


Na posse da CFCL a fábrica produzia para o mercado interno e para o estrangeiro, neste caso sobretudo os produtos em pasta de faiança, apresentando uma produção bastante variada onde, para além da louça de uso doméstico e decorativo, fabricava uma vasta gama de louça sanitária, pias para água benta, tinteiros para carteira, etc., com três séries (A, B e C) de qualidade de decoração e de preço, bem como com várias cores e dimensões, conforme as tabelas de preços para os anos de 1940 e 1943, editadas pela CFCL, referentes à produção da Fábrica “Massarelos”.


A decoração deste serviço de chá insere-se na Série B, «constituídas por desenhos cheios ou pulverizados, a mais de uma cor, por crómos pequenos e médios, e por bandas simples», conforme explica a tabela de preços de 1943. Trata-se de uma decoração geométrica, aplicada a estampilha e aerógrafo, perfeitamente germânica, dentro de espírito da República de Weimar, e na Alemanha, à data em que por cá foi feita, abolida como "arte degenerada". Também ao nível das formas poderemos encontrar a mesma filiação. Ambas muito próximas, aliás, do que se produzia em Sacavém. Embora a qualidade plástica seja muito apelativa, o mesmo não se poderá dizer da qualidade técnica que deixa muito a desejar.

Para saber mais sobre a fábrica de Louça de Massarelos consultar a dissertação de mestrado online de Armando O. P. Araújo.