domingo, 26 de agosto de 2018

Boleira ziguezague - Villeroy & Boch – Mettlach - Alemanha


Caixa de faiança moldada e relevada, de forma oblonga e bojuda, com tampa em calote, e aplicação de metal cromado na tampa e pega, dobradiça e fecho. Sobre a superfície branca destaca-se a decoração geométrica de ziguezague vertical, relevado e esmaltado a dois tons de laranja, aclarando e diminuindo de tamanho na tampa. No fundo da base carimbo verde «Villeroy & Boch, Mettlach» sobrepujando «Made in Saar Basin» e carimbo preto rectangular com «6252». Inscrito na pasta «3719» e «HJ» sobre «21»
Data: c. 1930
Dimensões: Alt c. 12 cm (sem pega) x comp. c. 24,5 cm, larg. c. 17 cm


Mais uma peça da nossa colecção dedicada ao “spritzdekor” (aerografado) alemão: uma boleira de que gostamos particularmente, produzida na unidade fabril da Villeroy & Boch em Mettlach.

É inesperado o contraste entre o ziguezague, muito art déco, em dégradé e em relevo, da decoração sobre a forma arredondada, que nos parece mais convencional, da caixa. E, sobretudo, parece-nos curioso, do pouco que conhecemos, que o dégradé seja feito pela sequência de duas cores planas, onde cada cor aerografada preenche homogeneamente cada estampilha, muito à maneira francesa, não cumprindo, assim, o que nos parece ser mais comum na produção germânica, isto é, o esfumado. Será influência da ocupação gaulesa do Sarre, território que esteve sobre administração franco-inglesa entre 1920 e 1935, como indica o «Made in Saar Basin» do carimbo?

Claro que estas questões não são lineares e as influências são recíprocas, sobretudo na zona fronteiriça entre os dois países, como algumas decorações de Sarreguemines, por exemplo, o comprovam.

Estão lembrados do fotograma do filme O Pai Tirano, que postámos recentemente, a 19 de Agosto, onde se vê uma boleira deste tipo, embora mais conservadora na sua decoração floral? Eram peças vistas com alguma frequência nas casas portuguesas, como muitos dos menos jovens ainda se lembrarão. De importação alemã, claro!



domingo, 19 de agosto de 2018

Uma decoração icónica de Sacavém


Parte de serviço formato «Porto», de faiança moldada. Sobre formas ainda oitocentistas foi aplicada uma decoração geométrica estampilhada e aerografada, a três cores com pintura em esfumado: verde, azul e castanho alaranjado. Asas, pegas, bicos e bocais pintados à mão, a castanho. No fundo das bases, carimbo a verde «Gilman & Cta-Sacavém» «Portugal» e, «386» (decor), acrescido no bule de «O», na leiteira e açucareiro de «E», etc..
Data: c. 1930-40
Dimensões: Várias

A padronagem art déco modernista deste serviço é a que qualquer leigo português nestas coisas da produção cerâmica nacional é capaz de imediatamente identificar como sendo “Sacavém”. Verdadeira referência icónica desta fábrica, a decoração nº 386 foi usada entre cerca de 1930 e 1960s. Só que, mais uma vez, não é uma criação original portuguesa.


No fundo documental da Fábrica de Loiça de Sacavém encontra-se o verbete que se ilustra, gentilmente cedido pelo Museu de Cerâmica de Sacavém / Centro de Documentação Manuel Joaquim Afonso (MCS-CDMJA), onde o motivo decorativo nº 386 aparece aplicado a uma tigela.

Os sensores em Portugal não percebiam a carga ideológica dos objectos modernos. Perseguia-se um pintor ou um escultor, mas as peças modernas de uso quotidiano entravam livremente nos lares portugueses. É disto um bom exemplo a faiança aerografada de boa parte da produção de Sacavém, só para citar uma fábrica. Hitler destruía-as na Alemanha, onde integravam o rol das artes degeneradas, produto de judeus e comunistas, como temos vindo a referir.



O provincianismo local abria-lhes as portas e mesmo em cenas como no filme «O Pai Tirano» (1941), o café com leite (?) do pequeno-almoço da pensão pequeno-burguesa, que na ficção fílmica se localiza na travessa da Portuguesa, no bairro da Bica, é servido em peças (chávenas e manteigueira) de um serviço com esta decoração, a uso como grito de modernidade popular num ambiente ainda muito século XIX. Curiosamente, a boleira de loiça com tampa metálica é alemã (ver fotogramas do filme).


Apresentamos aqui, igualmente, fotografia de um tête-à-tête que esteve há uns anos, e durante longos meses, à venda no Miau.pt como sendo «Sacavém». Era uma peça que gostaríamos de ter adquirido, mas o preço exorbitante pedido tal não permitiu. Mesmo sem termos visto a marca, arriscamos afirmar que se trata de produção da Europa Central, de origem alemã ou checa. Caso os nossos leitores tenham alguma informação que possa satisfazer a nossa curiosidade, deixamos desde já o nosso agradecimento.

A técnica do dégradé num dos lados do desenho da estampilha, tão ao gosto alemão teve, em Portugal, na produção da Fábrica de Loiça de Sacavém o seu expoente máximo, onde conheceu grande longevidade, como se pode constatar aplicada a este serviço, que por mais de 30 anos foi comercializado.


Dado só temos parte do serviço de chá e familiares nossos terem muitos mais peças, em parte por nós oferecidas, decidimos apresentar esta fotografia com algumas delas (embora a tigela apresente outra variante decorativa) como um conjunto ilustrativo da aplicação da decoração nº 386 e onde se pode ver, agora a cores, o modelo de chávena usado pela «Tatão» do filme, a actriz Leonor Maia.

sábado, 18 de agosto de 2018

Cabaré e charme. A propósito de uma escultura de Gustav Oppel para a Rosenthal - Alemanha


Peça de porcelana moldada e relevada, de cor branca, com apontamentos a amarelo, laranja, ouro, preto e verde, figurando uma jovem mulher, de pé e em pose, envergando traje de cabaré: calções curtos a amarelo, casaco e chapéu alto. Cabelo à la garçonne. Assenta sobre pé circular escalonado debruado a ouro. No fundo da base, carimbo verde «Rosenthal»«B-Bavaria». Inscrito na pasta «11». A dourado uma assinatura ilegível, talvez do pintor.
Data: 1923

Dimensões: Alt. 23 cm


Cabaré e Alemanha de entre guerras parecem ser indissociáveis, ideia que a literatura, o teatro e o cinema ajudaram a cimentar.

Mais que a divine decadence da personagem Sally Bowles, do filme Cabaret (1972), baseado na obra homónima de Cristopher Isherwood, que a brilhante Liza Minelli interpreta no filme de Bob Fosse, ao vermos esta delicada figurinha de porcelana, e embora não estejamos perante a atracção fatal da Lola Lola que actua no decadente cabaré Anjo Azul (Der blaue Engel), interpretado pela não menos brilhante Marlene Dietrich, do filme de Josef von Sternberg, estreado em 1930, é dela que nos lembramos.

Embora mais liberta, reivindicando para si atributos de moda, de pose e de comportamentos até então masculinos, a mulher é ainda uma ameaça. Continua durante este período a encarnar o Mal. A atracção demoníaca exercida por actrizes e coristas, no palco e no ecrã (embora neste se reduzisse, para a grande maioria dos espectadores, a amor platónico e a devaneios oníricos) continua tão presente como durante a Belle Époque.

A Alemanha sente o tratado de paz de 1919 como uma injustiça. Apesar dos sacrifícios e da pesada perda de vidas, quer militares, quer civis, o país não tinha conhecido o horror das batalhas e da destruição dentro do seu território, e a população mantinha-se profundamente ligada à monarquia e sentia como estranha a nova república imposta.
Arruinada economicamente pelo conflito e pelas pesadíssimas indemnizações que era obrigada a pagar às potências vencedoras, mergulha na miséria. Paralelamente, franjas de ricos, novos-ricos e arrivistas consomem freneticamente as coisas boas que o dinheiro pode proporcionar. A festa, o desvario, vão constituir a fuga a uma realidade da qual não se vislumbrava saída.

A necessidade de esquecer as agruras passadas e presentes vai potenciar a criatividade artística e sumptuária. A indústria cerâmica acompanha os novos gostos e tendências, abastecendo e contribuindo para o escapismo angustiado de uma sociedade que vivia apenas para o dia-a-dia. A República de Weimar embrenha-se, assim, com uma intensidade na joie de vivre dos anos loucos que sucederam à Grande Guerra, desconhecida nos demais países activos no conflito, apesar da grande miséria que se abatera sobre a pequena burguesia e o operariado.


Quando a escultura intitulada «Charme» foi criada, por Gustav Oppel, para a fábrica alemã Rosenthal, nos inícios da década de 1920, era este o cenário. A situação arrastou-se até 1925, quando se dá o empréstimo americano, ano em que se inicia a acção do Anjo Azul, e a situação económica alemã melhora nos curtos anos que antecedem o crash da bolsa de Nova Iorque.

A escultura mostra uma elegante e charmosa criatura de um qualquer espectáculo musical de luxo, até porque se destinava a ser adquirida por uma clientela sofisticada e de posses.

Não é o caso do Anjo Azul, mas a indumentária de Lola Lola, apesar de mais pobre, aproxima-se da da escultura: o mesmo tipo de cartola, o mesmo género de sapatos, e a lingerie sob o curto vestido evoca os calções curtos. Traje de cena, para deslumbrar e seduzir, porque lá fora a vida é dura, mas dentro do cabaré tudo é vibrante de ritmo e de cor, de luz e de brilho e, sobretudo, de erotismo. O sexo acompanha o ritmo do jazz, e o frenesim de danças como o charleston. Estamos no apogeu do teatro musical e congéneres.


Na obscuridade teatral e difusa, repleta de fumo de cigarro, para as cabeças toldadas pelo álcool, todos os rostos são belos e há muitas carnações à vista. O encanto das actrizes e coristas ilude, assim, os sentidos e os sentimentos. Vive-se numa outra dimensão. E há espaços de espectáculo para todas as bolsas. Divine decadence.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Jarra cabaça azul com guarnição de metal Paul Milet - Sèvres


O modelo de jarra em forma de cabaça canelada que hoje postamos já aqui foi apresentado em 14 de janeiro de 2012. A diferença passa pela cor, neste exemplar simulando crisocola, a azul-ultramarino e a amarelo, como palhetas de ouro, dando cambiantes esverdeados, e pelos motivos decorativos da guarnição de metal (bronze?), igualmente art déco, formando anel cintando o bocal de onde pendem três conchas ou palmetas classicizantes que intercalam com igual número de cadeias geométricas formadas por trapézios escalonados. No fundo da base, carimbo circular pontilhado envolvendo «MP» «Sèvres» e, pintado à mão, «V».
Data: c. 1920-25
Dimensões: alt. 15 x larg. 11,5cm


Numa colecção, a constituição de séries permite compreender como um mesmo elemento decorativo (neste caso a cadeia geométrica formada por trapézios escalonados), repetido em contextos e associações diferentes, dá origem a novas composições decorativas.

A guarnição metálica, mais uma vez, contribui para enobrecer a cerâmica, numa continuação das tendências decorativas do Barroco, neste caso para enfatizar a estética art déco da época pouco evidente na forma desta jarra que remete para modelos orientais.



domingo, 15 de julho de 2018

Jarra craquelé com decoração à chinesa – Sacavém



Jarra de faiança moldada, piriforme de colo invertido e pequena gola elevando o bocal circular. De cor branco-sujo e craquelé miúdo, apresenta, em lados opostos, decoração manual a preto e laranja, aplicada sobre o vidrado, com motivo de cerejeira retorcida com algumas flores, emergindo de um terreno ondulado às escamas, ao gosto chinês. Bocal cintado por corrente de elos a laranja e preto intercalados. No fundo da base, carimbo preto «Gilman & Ctª – Sacavém» «Made in Portugal» sobreposto a outro carimbo idêntico amarelado, e, em relevo na pasta, «80».
Data: c. 1930 – 40
Dimensões: Alt. 14 cm


A Fábrica de Loiça de Sacavém é uma caixinha de surpresas. Desta vez uma inesperada - pelo menos para nós que desconhecíamos este tipo de produção - jarra craquelé com decoração de chinoiserie. As cores são totalmente art déco e a estética orientalizante, presente também no craquelé, acentua esse gosto pelo exótico que se manteve durante os anos 20 e 30, senão mesmo por toda a primeira metade, do século XX. Não sabendo a data de produção é por estas características formais que a datámos. De qualquer maneira encontamos semelhanças nesta decoração com a de 1927/1929 que o artista vidreiro francês Schneider baptizou "Bonzai".  Uma peçazinha de qualidade que demonstra bem que Sacavém era outa loiça…


domingo, 8 de julho de 2018

Jarra art déco com guarnição metálica com rosas – Paul Milet - França


 Jarra de faiança moldada em forma de balaustre, de cor azul-turquesa exteriormente manchado, simulando crisocola, a azul-ultramarino e a amarelo, como palhetas de ouro, dando cambiantes esverdeados. A peça é envolvida por guarnição de metal martelado (bronze?), que cinta bocal, bojo e pé. Do anel do bojo pendem fitas, à maneira de festões, subdividindo a jarra em três faces, que se unem a “pilastras” saindo da base, encimadas por rosas e folhagem. No fundo da base, carimbo circular pontilhado, preto, envolvendo «MP» «Sèvres» e, à mão, também a preto, «V».
Data: c. 1920
Dimensões: Alt. 33 cm


Não é a primeira vez que postamos uma jarra Paul Milet aqui no blogue e, certamente, não será a última, pois a nossa pequena colecção de cerâmica francesa ainda inclui mais umas quantas que haveremos de aqui mostrar um dia. Porém, como já passou tanto tempo desde a última peça desta manufactura, recapitulamos um pouco da sua história com mais alguma informação.

Paul Milet começa a assinar as peças produzidas na sua manufactura com MP Sèvres dentro de círculo pontilhado a partir de 1911, depois da morte de seu pai Optat Milet. Com o decorrer dos anos a vizinha Manufactura Nacional de Sèvres, também conhecida por Manufactura de Porcelana de Sèvres (MPS), preocupada com as confusões possíveis por causa das semelhanças de nome que outras marcas cerâmicas locais propositadamente provocavam, devido ao seu prestígio histórico, ameaçou processá-las. Foi o caso de Paul Milet que, para evitar conflitos judiciais, a 4 de Outubro de 1930, deposita nova marca invertendo as iniciais para PM Sèvres dentro do mesmo círculo pontilhado.

A jarra de hoje estilisticamente integra-se numa vertente art déco inicial, conservadora, pelo que a datamos como sendo anterior a 1925, muito provavelmente entre 1915-20. 


domingo, 29 de outubro de 2017

Jarra 734-A – Aleluia-Aveiro


Hoje voltamos à produção dos anos 50 da Aleluia-Aveiro com uma peça que achamos muito engraçada, pois lembra-nos o corpo de ave com pescoço virado para trás, sem cabeça e patas. Ideia reforçada pela decoração que parece remeter para asas.


Trata-se de uma jarra de faiança moldada e relevada, freeform, de bojo pançudo e colo lateral curvo com incisões que delimitam as cores. A decoração é simétrica, de bandas sinuosas, a preto, branco-nacarado e cor-de-laranja, que enfatizam as laterais, sobressaindo o dorso branco e o “peito” branco-nacarado. Interior a amarelo-nacarado. No fundo da base, carimbo circular a castanho «Aleluia-Aveiro» envolvendo «//» pintados à mão, a preto, sobrepujando «Fabricado Portugal», inscrito num rectângulo. Pintado à mão, a preto, «734-A» (forma e decoração). Foi furada junto à base, na parte de trás, e no fundo da base, para adaptação a candeeiro.
Data: c. 1955-60
Dimensões: Alt. 26 cm x comp. c. 22 cm x larg. c. 15 cm



domingo, 22 de outubro de 2017

Prato de serviço de mesa art déco de Marcel Goupy para a Casa Rouard


Já aqui postámos, em 17 de Setembro de 2012, dois outros pratos deste mesmo serviço art déco, de faiança moldada e relevada, criado por Marcel Goupy e editado pela Casa Rouard que recebeu a designação «Sologne». Difere dos anteriores na decoração do medalhão circular central. Neste caso, uma corça salta deixando para trás uma árvore. No fundo da base, carimbo a preto com a assinatura «M. Goupy» e, dentro de uma cartela representando em corte uma taça, «Rouard – France». Inscrito na pasta «B9».
Data: c. 1925
Dimensões: Ø 25,5 cm;



Este mesmo modelo com outra decoração esteve presente no pavilhão da Exposição de Paris 1925 que a Casa Rouard partilhou com Jean Puiforcat e a revista Art et Décoration, como então escrevemos e que agora apresentamos numa imagem do catálogo geral da exposição.


domingo, 15 de outubro de 2017

Jarra art déco com flores de Raoul Lachenal – França


Jarra art déco de grés porcelânico, modelada em forma de balaústre, de cor verde-bronze antigo mate, com decoração de flores estilizadas, a branco-mosqueado igualmente mate, de corolas poligonais irregulares, raiadas a partir de centro circular. As flores, de diferentes tamanhos, serpenteiam de um só lado subindo pelo bojo, num esmalte espesso delineado a corda seca. Bocal saliente em forma de anel liso. No fundo da base, pintado à mão, a castanho, «Raoul Lachenal».
Data: c. 1920
Dimensões: Alt. 18 cm


Trata-se de uma peça bem exemplificativa do abandono da estética Art Nouveau por Raoul Lachenal que, mantendo o japonismo, aligeira e geometriza a decoração de acordo com os novos cânones que a exposição de Paris de 1925 haveria de sintetizar. Uma estética que, na sua simplificação de formas e decorações, oscilou entre o culto do objecto único e irrepetível e a produção seriada para consumo mais alargado.

Claramente influenciada pelas formas e decorações do Extremo Oriente, esta jarra remete igualmente para os trabalhos de bronze dessa região e para a dinanderie tão em voga na França à época.

A técnica do petit feu utilizada por este ceramista, que integra um grupo menos preocupado com a tradição, procura a renovação da arte milenar da cerâmica graças a novas experimentações mais abertas ao tempo que passa, às modas ou à própria personalidade dos criadores. (Edgar Pelichet – La Cèramique Art Déco, 1988).

Dado o esmalte verde-bronze não recobrir uniformemente a superfície da jarra, transmite a ilusão de uma pátina antiga, de matéria envelhecida e suja pelo tempo, ideia retomada no branco-mosqueado das flores, o que confere à peça um requinte e uma sumptuosidade de grande expressividade.

Raoul Lachenal, percebendo o seu tempo, foi dos poucos grandes ceramistas mundiais, a par de Bonifas, que, sem abdicar da peça artística e única, procurou produzir seriados.


Um aparte: quando, na nossa colecção, integramos peças Arte Nova japonizantes, pretendemos ilustrar, para nosso gozo pessoal, a evolução de um gosto que marcou indelevelmente a estética ocidental e a Art Déco em particular, de que esta jarra é um modelo exemplar.

domingo, 8 de outubro de 2017

Jarro (pequeno) art déco - GAL


Em 7 de Outubro de 2013, a propósito de uma caixa da efémera Fábrica de Faianças Gal (1935 a 1937), apresentámos um jarro idêntico (retirado de MAFLS) ao que hoje postamos. Trata-se do modelo nº 223, embora, infelizmente, o nosso exemplar nos tenha chegado sem tampa. Com a decoração nº 39, tal como a caixa, relativamente a esta apresenta uma ligeira diferença cromática no castanho.
  

Jarro art déco modernista, de faiança moldada, com bojo tendencialmente esférico e colo cilíndrico com bico triangular saliente. Asa curva que, emergindo junto ao bocal, se interliga na zona central do bojo por um elemento recto, de cor branca com decoração geométrica aerografada, sobre o vidrado, a castanho e verde. O bojo, e prolongando-se na parte inferior da asa, é cintado por faixa verde enquadrada de castanho, e na sua parte superior, de cada um dos lados, recebeu uma composição linear, em que duas faixas paralelas, desencontradas, são interligadas por faixa vertical a eixo. Faixas, bicromas, contornam bocal e bico, prolongando-se pela parte superior da asa. No fundo da base, pintado à mão a castanho, «GAL» e «223/39».
Data: c. 1935-37
Dimensões: Alt. 12,5 cm


No referido post escrevemos sobre a influência que a produção alemã da República de Weimar, de finais dos anos 20 e inícios da década seguinte, teve na produção nacional, e em particular na GAL e concluímos mesmo que um modelo de jarro da Carstens-Georgenthal, de c. 1931, parece estar na génese desta peça. Nada mais temos a acrescentar, mas haveremos de postar outras versões cromáticas e tamanhos desta forma.


domingo, 3 de setembro de 2017

Taça branca e ouro – Vista Alegre


Taça art déco de porcelana moldada e relevada, com corpo troncocónico invertido, de cor branca, com bordo realçado a ouro subtilmente evasé, assente sobre pé canelado também a ouro. No fundo da base carimbo «V. A.» sobrepujando «Portugal» (marca nº 31 - 1924-1947) e, inscrito na pasta, «18».
Data: c. 1930
Dimensões: Ø 31 cm x alt. 9 cm


Esta taça, fruteira ou centro de mesa, de forma depurada, não deverá ser criação nacional. Mais uma vez estamos em crer que se trata de modelo importado que diríamos francês, talvez de Sèvres, dada a quantidade de peças identificadas daí provenientes produzidas pela Vista Alegre – não nos podemos esquecer que o seu director artístico, J. Cazaux (datas desconhecida), era dessa nacionalidade e nela trabalhou durante pelo menos parte dos anos 20 e 30 do século passado.

Modelo recorrente neste período, formalmente elegante no seu despojamento moderno dentro de uma estética art déco, para a qual o anel canelado do pé remete, e a que o toque quente do ouro dá maior refinamento.


Pode ser que algum dos nossos leitores, nacionais ou estrangeiros, nos possa disponibilizar mais alguma informação.


domingo, 27 de agosto de 2017

Jarra “Portugália” art déco com rosas - Sacavém

Voltamos hoje à jarra «Portugália», o formato nº 20 do catálogo de jarras da década de 1930, não impresso, disponível no Museu de Cerâmica de Sacavém - Centro de Documentação Manuel Joaquim Afonso. É o quarto exemplar deste modelo que aqui apresentamos com uma decoração completamente distinta.


Jarra art déco de faiança moldada, vidrada a branco com decoração policroma com motivo estilizado de rosas em dois tons de cor-de-rosa e folhagem a verde, delineados a negro, segundo a técnica da estampilha aplicada manualmente sobre o vidrado. O gargalo, pintado igualmente sobre o vidrado, é cintado por faixas a rosa e verde, delineadas a preto. No fundo da base carimbo verde «Gilman & Cdtª– Sacavém» sobrepujando «Portugal» e inscrito na pasta «JL» [autor do decor?].
Data: c.1930 - 35
Dimensões: alt. c. 20 cm


A propósito deste modelo, aproveitamos para reflectir um pouco sobre a produção cerâmica da Fábrica de Loiça de Sacavém, considerações que, no entanto, nos parecem, de uma maneira geral, pertinentes relativamente às demais fábricas nacionais.

Constatamos existir em Sacavém uma maior diversidade nas decorações face à quantidade de formas produzidas. É o caso das jarras, por exemplo. Na verdade há um reduzido número de modelos na década de 1930, que mantém ainda em produção formas de uma estética anterior, nomeadamente Arte Nova, situação que se prolonga pelo menos até aos anos 50.

Por um lado, poder-se-á justificar pela ausência de designers criadores de novas formas o que obrigava à compra (ou à cópia) de modelos estrangeiros. Implicava custos acrescidos na produção, o que não deveria ser muito vantajoso num mercado pequeno e onde a concorrência era muita, mesmo quando se exportava. Por outro lado, talvez entre o público-alvo consumidor não fosse sentida a falta de novidades constantes, porque maioritariamente pouco escolarizado e de parcos recursos económicos. A pequena elite portuguesa tinha acesso à produção importada se o entendesse.


Apostar sobretudo nas decorações permitiu que a produção de uma mesma forma se prolongasse no tempo e daí encontrarmos este modelo que vinha, pelo menos, desde cerca de 1930, ainda em produção durante a década de 50, embora nesta década apareça sob a designação de «Jarra Portugália, n.° 17» (tabela de Maio de 1951). Ver post de 4 de Junho de 2012.

Neste exemplar estamos perante uma decoração muito art déco com motivo estilizado de rosas e folhagem e cores planas, daí estarmos convictos de que se enquadra na cronologia que propomos.

domingo, 20 de agosto de 2017

Cinzeiro «Hipopótamo» creme - Sacavém


Cinzeiro de faiança moldada e relevada em forma de hipopótamo estilizado, de corpo arredondado, quase esférico, assente sobre quatro patas simétricas, e boca aberta, de cor creme subtilmente craquelé. O maxilar inferior, curvo, serve para apoiar o cigarro. No fundo da base carimbo azul «Gilman & Cta, Sacavém» sobrepujando «Made in Portugal».
Data: c. 1930-40
Dimensões: Alt. 6,5 cm x comp. 7,5 cm x larg. 5 cm (aproximadamente)


Trata-se de mais um objecto fantasista e divertido com que os criadores de cerâmica, e não só, amenizaram o quotidiano do período entre as duas Grandes Guerras. As suas obras ajudavam a esquecer o passado recente que profundas marcas havia deixado em todos assim como a Depressão que, iniciada em 1929, fazia surgir o especto de nova hecatombe, corporizada na subida ao poder de Hitler, em 1933. A potência alemã que havia causado a tragédia de 1914-18 voltava a mostrar as fauces.

Mas, por enquanto, a Europa fingia viver no melhor dos mundos possíveis. Brincar ajudava e os objectos funcionavam como escapismo na esquizofrenia ascendente. Não é à toa que este «Yawning Hippo Ashtray», reproduzido pela fábrica de loiça de Sacavém, seja uma concepção inglesa da Wilkinson Ltd, por volta de 1930. Arthur J Wilkinson (Ltd) operava na Royal Staffordshire Pottery, em Burslem, Stoke-on-Trent. O Reino Unido fazia parte do grupo dos vencedores mas as cicatrizes demoravam a fechar.

Encontrámos uma referência online como tendo sido este cinzeiro criado por Clarice Cliff, que nessa firma trabalhou, mas não o conseguimos apurar.


Como sabem, gostamos de imaginar possíveis cenários onde os objectos pudessem ter figurado no passado. Tratando-se de um cinzeiro individual, logo pouco propício à partilha (a não ser que houvesse vários exemplares estrategicamente espalhados pelo espaço colectivo de recepção de um qualquer interior doméstico), imaginamo-lo numa mesinha de apoio, junto a uma poltrona pronto a ser manuseado. Na pacata realidade portuguesa era mais uma blague num mundo ainda rural isolado sobre si próprio.

Esta forma simplificada e divertida de um cinzeiro em forma de hipopótamo, mais uma vez um brinquedo para o universo dos adultos, remete-nos ainda para a sexy bailarina hipopótamo que nos deliciou, e delicia ainda, na «Dança das Horas», de Ponchielli, no filme de Walt Disney, Fantasia (1940). Deixa-nos bem-dispostos e faz-nos sorrir.


Infelizmente, o nosso exemplar creme tem um defeito de fabrico no maxilar inferior. 

sábado, 19 de agosto de 2017

Jarra Arte Nova com dente-de-leão – Rörstand - Suécia


Jarra Arte Nova de porcelana moldada, em forma de balaustre, de cor verde-cinza pálido manchado, decorada por um pé de dente-de-leão com três hastes florais já em fruto (aquénio), circundando parcialmente o bocal baixo, e igual número de folhas serrilhadas verde-cinza escuro, que se agitam como chicotes. No fundo da base, carimbo verde «Rörstrand», envolvido por 3 coroas, e, pintado à mão, «G.A.» (autor) e «5545» (modelo). Inscrito na pasta «I».
Data: c. 1900
Dimensões: Alt. 18 cm x Ø máx. 10 cm


Os pompons formados pelos penachos brancos que coroam as sementes, dispostas em esfera, do dente-de-leão (Taraxacum officinale), encantam crianças e adultos. É difícil resistir a não apanhar um para, com um sopro, dispersar os etéreos paraquedas que levados pelo vento espalham as sementes da planta. À sua beleza em fruto também não ficaram indiferentes os artistas plásticos.

Foi o caso do autor deste exemplar, Georg Kristian Asplund (1873 - 1963), que começou a sua carreira como estudante de pintura sobre porcelana na Rörstrands Porslinsfabrik, em 1891, e pintor de porcelana especializado nos anos 1898-1911 na mesma fábrica.


O japonismo é evidente nesta decoração Art Nouveau, com o elemento vegetal a revestir parcialmente o bojo da jarra. Uma vez mais, como já havíamos escrito a propósito de exemplares pâte-sur-pâte desta fábrica sueca, encontramos reproduzido um elemento da flora local, espécie, aliás, comum a toda a Europa, mas aqui representada numa agitação nervosa contrária à natureza da própria planta. As folhas são silhuetas reconhecíveis mas não naturalistas, tal como os frutos, reduzidos à geometria do círculo e regularmente alinhados no topo do bojo.

Este arrojo de linhas, tanto do agrado da estética Art Nouveau, acaba por dar uma ressonância estranha à representação, afastando-a do naturalismo habitualmente empregue.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Caixa forma 3202- Decor 3094 - Theodor Paetsch - Alemanha


Caixa para biscoitos de faiança moldada, paralelepipédica com cantos arredondados, de cor branca. As faces principais são decoradas por composição geométrica e abstracta estampilhada e aerografada, com dois conjuntos, um na horizontal outro na vertical, de motivos lineares a amarelo e de ziguezague a azul, ambos em esfumado. As faces laterais ostentam apenas os motivos lineares a amarelo na horizontal. O contentor assenta sobre pé reentrante e é coberto por tampa igualmente reentrante com pega em meia-cana, aerografada a azul e topos num subtil esfumado da mesma cor. No fundo da base carimbos a castanho «3094» (decor) e «F». Inscrito na pasta «3203» (forma)
Data: c. 1930-33
Dimensões: Comp. 19x larg. 12cm x alt. 12cm


Sabendo da nossa paixão pelo aerógrafo e pela cerâmica da República de Weimar, duas queridas amigas alemãs, mãe e filha (H e L), surpreenderam-nos, no Natal passado, presenteando-nos com esta deliciosa caixa.

Cada decoração dá uma identidade muito particular a um mesmo formato, podendo valorizá-lo ou anulá-lo. Neste caso, a harmonia abstracta da geometria do desenho e o contraste das cores, potenciam as qualidades formais do objecto. Haveremos de postar esta forma com outras variantes decorativas.