sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Serviço art déco de pratos para consommé – Vista Alegre


Meio-serviço art déco para consommé, formado por pratos e taças, de porcelana moldada, de cor marfim. Ambos dodecagonais. A taça assemelha-se a um sólido geométrico cortado a meio, de bojo suavemente escalonado antes de inflectir em direcção à base. É complementada pela presença de duas asas laterais, na vertical, rigidamente angulosas formando cantos e contracantos Quanto ao prato, a aba facetada apresenta uma inflexão junto ao bordo, morrendo num covo dodecagonal liso onde encaixa a taça. No fundo da base, carimbo verde V.A. Portugal [Marca nº 31 (1924-1947)], e, apenas no prato, «1» inscrito na pasta.
Data: c.1930-35
Dimensões: Prato Ø 16 cm; taça Ø 16,5 cm (c/ asas) x Alt. 4,5 cm


As formas geométricas adoçadas e os escalonados, de forte pendor decorativo, remetem para um gosto art déco muito em voga em França na década de 20 que cedo extravasou fronteiras e influenciou, ou serviu de modelo e cópia, como será o caso, estamos em crer, deste exemplar de lavra nacional, como temos vindo a ilustrar. O tom marfim/creme foi muito utilizado em loiça utilitária de porcelana da Vista Alegre, (mas não só, pois já aqui mostrámos objectos decorativos de igual cor) por contraponto ao branco puro, enquanto cor mais privilegiada para receber a aposição de decorações.


quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Jarras da Fábrica do Outeiro - Águeda


Da cerâmica produzida na região de Aveiro, para além das sobejamente conhecidas Aleluia e Vista Alegre, temos duas jarras, que hoje postamos, da Fábrica do Outeiro, em Águeda, fábrica da qual nada sabemos.

Na verdade pouco nos diz o tipo de faiança que aí foi feito e, de uma maneira geral, nem temos particular interesse na sua produção. Não fora a forma destas peças nos ter chamado a atenção por outras razões.


A maior, adquirimo-la em Maio de 1999 na feira de velharias e antiguidades que, então, se realizava, no Forum Picoas. A mais pequena, comprada em 2005 num bazar de Natal. O modelo entrava dentro da gramática formal que nos ocupa.


Jarras de faiança moldada, trilobadas em forma de leque, com decoração, pintada à mão, de flores e folhas. No fundo da base, pintado à mão, a preto, na de maiores dimensões: «Outeiro» «Águeda» e «276»; na outra, «Outeiro» «Águeda» «Portugal» e «396»
Data: Entre 1940-60 (?)
Dimensões: Grande: Alt. 17 cm x comp. 28 cm x larg. 14,5 cm (máximos)
                    Pequena: Alt. 10,5 cm x comp. 17 cm x larg. 8 cm (máximos)


Esta forma art déco será cópia de um modelo da fábrica alemã Carstens-Uffrecht concebido por volta de 1930. Estamos em crer que os exemplares nacionais datarão da década de 40 ou mesmo de 50. Pode ser que entretanto encontremos novas datações. Imaginem a surpresa se fossem anteriores…


Partindo do princípio que estamos perante uma cópia, não deixa de ser interessante constatar que o espírito da peça alemã remete para uma produção de massa vanguardista dentro da estética art déco modernista, por oposição à produção portuguesa de gosto mais popular. Reflexo de duas realidades socias e culturais radicalmente opostas.


A decoração da jarra grande, com as suas flores e folhas muito nítidas, que ressaltam sobre fundo azul, remete para decorações idênticas que encontramos na produção de Sacavém dos anos 50. A da jarra pequena, muito mais conservadora, tem ainda um carácter vagamente arcaico, com as suas florinhas e folhagem, dada por pequenas pinceladas rápidas, que preenchem totalmente a superfície. Em ambos os casos a padronagem têxtil é muito evidente.


Dos exemplos que conhecemos do modelo da Carstens-Uffrecht, que aqui se ilustram, seleccionámos decorações que remetem também para outras produções portuguesas, como a da Fábrica Lusitânia, tanto das unidades de Lisboa como de Coimbra. Veja-se como também a forma, em versão alongada, é próxima das que já postámos em 7 de Janeiro de 2013, 7 e 8 de Fevereiro e 12 de Julho de 2015.


Não há dúvida que a influência da criação alemã pré-hitleriana é transversal à produção nacional dos anos 30 e mesmo sequentes. O que, num país como o nosso, com um fascismo de teor ruralizante, não deixa de ser curioso. A merecer melhor reflexão.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Jarra Bunzlau - talvez da Fábrica de Grés Julius Paul & Sohn - Alemanha


Jarra de grés moldado, em forma de balaústre, com decoração geométrica aerografada em tons de verde e castanho. Interior a castanho-mel. No fundo da base não apresenta qualquer marca. Todavia, será de uma fábrica de Bunzlau, provavelmente da Julius Paul & Sohn.
Data: c. 1930
Dimensões: Alt. 22,5 cm


As potencialidades do aerógrafo aplicado com estampilha são, como sabem, uma das nossas preferências no que à cerâmica diz respeito. Temos outras, mas não há dúvida que a modernidade e aparente facilidade deste método de decorar superfícies dá origem a uma paixão muito especial.

Já muito temos escrito por aqui sobre a maneira como as fábricas alemãs utilizaram e potenciaram as possibilidades deste método, mas ainda não tínhamos apresentado nenhuma peça cuja pintura final remetesse para um objecto pseudo-usado, uma superfície gasta por um tempo que não houve.


A composição sugere uma paisagem vertical em três planos, três vezes repetida. Por detrás de duas cadeias de montanhas, formadas pelos recortes das estampilhas, angulosos uma e curvos outra, desponta um sol acastanhado que se ergue num céu do mesmo tom delimitado pela linha recta de outra estampilha. Esta separa as três composições.


Remetendo para o abstracionismo pictórico, enquanto arte maior, os tons verdes não respeitam com rigor a estampilha do desenho de base, nem cumprem simplesmente o esfumado que é característico de grande parte das produções germânicas. Aqui a pintura a aerógrafo surge enevoada, esborratada e aparentemente gasta. A peça é, assim, simultaneamente rude e refinada. O Art Déco neste tipo de produção assume uma dimensão de vanguarda artística nitidamente bauhausiana.

Apesar de não ter qualquer marca, o estilo, as cores empregues e o próprio material, remetem para uma produção de Bunzlau, muito provavelmente da Feinsteinzeugfabrik Julius Paul & Sohn (fábrica de grés) activa entre 1893 e 1945. Porém, todo o experimentalismo vanguardista da composição parece ter tido origem na Staatliche Keramische Fachschule Bunzlau (Escola Profissional de Cerâmica do Estado em Bunzlau) cujas criações vão revolucionar a produção cerâmica local a partir do fim dos anos 20. Várias foram as fábricas da zona que aderiram a esta revolução estilística então iniciada pelo designer Artur Hennig (1880-1959).


O seu trabalho pioneiro na referida escola, iniciado em 1925, vai contaminar, através dos seus alunos, a produção cerâmica industrial de Bunzlau no final da década, assim como de outras fábricas alemãs.

Estética de curta duração, por volta de 1933 as fábricas de Bunzlau regressam a um gosto mais tradicionalista onde vão predominar os castanhos característicos da produção local oitocentista.

Bunzlau (Bolesławiec em polaco) fica na Baixa Silésia, território que desde o fim da Segunda Guerra Mundial foi reintegrado na Polónia e que a Prússia havia anexado em 1740.

domingo, 6 de dezembro de 2015

Jarra art déco Denbac forma nº 411 – França


Este modelo 411 de jarra art déco, de grés, com relevos em forma de cabochão, em duas dimensões distintas intercalados, já aqui foi apresentado numa outra variante cromática e com aplicação de armação metálica em 29 de Março de 2013. Todavia, e como então referimos, a sua leitura é, sem dúvida, muito diferente, não só porque se esvanece a lembrança do vidro soprado que os cabochões sugeriam na versão com armação metálica, como a própria cor, um verde-azulado forte brilhante, com escorrências mate castanhas mosqueadas a partir do bocal, que, em contacto com o esmalte brilhante adquire uma leitura de palhetas douradas, lhe confere uma identidade muito distinta.
No fundo da base, aparentemente sem marca dada a espessura do esmalte, as ténues incisões permitem-nos adivinhar que o que está impresso na pasta é, certamente, «Denbac» e «411».
Dimensões: Alt. 22 cm
Data: c.1925-30



É por se tornarem objectos tão distintos consoante as cores ou variantes decorativas que, enquanto colecionadores quase compulsivos (rimo-nos, mas é assunto sério, garantimos-vos), gostamos de ter vários exemplares das mesmas formas, sempre que possível. Com as consequências nefastas relativamente ao espaço e aos gastos, claro. Mas não vale a pena contrariarmo-nos, até porque nos divertimos na descoberta de cada pequena diferença…


Que pensariam o ceramista René Denert, que fundou, em 1908, o atelier cerâmico em Vierzon, e o seu sócio, a partir de 1910, René Louis Balichon, cuja junção de nomes gerou «Denbac» que baptizou a firma, como já escrevemos, ao saber que em pleno século XXI haveria em Portugal uns fanáticos que na sua colecção de cerâmica da primeira metade de Novecentos também decidiram incluir obras suas? E isto apesar da produção dos modelos que foram concebendo ter continuado até 1952 (evitar comprar modelos art nouveau se o fundo da base for esmaltado, porque demasiado tardios – a coisa é menos grave para os modelos art déco – mas daí também o baixo custo da maioria das peças).

sábado, 5 de dezembro de 2015

Base de Candeeiro – modelo 163 – Aleluia-Aveiro


Base de candeeiro de faiança moldada em forma de balaústre de quatro asas com canelura que, partindo da parte inferior do bojo, encurvam e terminam em enrolamentos no colo. Sobre a cor verde-claro recebeu, entre as asas, composição gráfica com enrolamentos lineares, a ouro, lembrando as serralharias artísticas (ferroneries) francesas de finais dos anos 30 e da década seguinte na linha de um tardo-Art Déco. É também a cor ouro que acentua bocal e pé assim como as arestas das asas. No fundo da base carimbo circular, a castanho, «Aleluia-Aveiro», com «v» a ouro pintado à mão, ao centro (marca do pintor), sobrepujando «Fabricado Portugal» inscrito num rectângulo.
Data: c. 1945-55
Dimensões: Alt. 24,5 cm



Esta decoração e forma, enquanto base de candeeiro, não aparecem ilustradas no Catálogo de loiças decorativas das Fábricas Aleluia. Aveiro, com os modelos produzidos entre cerca de 1935-45, embora surja forma idêntica, em versão urna com tampa, com o nº 163-C, que tem de altura 30cm. Sob o nº 162-A e 162-B aparece, no mesmo catálogo, forma idêntica, de menores dimensões (alt. 19 cm). Assim, parece-nos estarmos perante uma versão mais tardia, possivelmente de entre 1945-55 do modelo 163. Qual a sua opinião CMP?


quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Jarra modelo 28–A – Aleluia-Aveiro


Jarra de faiança moldada com decoração estampilhada a preto e apontamentos manuais a aguada acastanhada sobre fundo creme. Bojo preenchido por composição de flores e folhagem, de sabor vagamente renascentista, ladeado por duas pegas simétricas bicónicas a preto. Bocal em gola évasée, creme, com exterior a aguada acastanhada e filete a preto, e interior creme com filete e perolado a preto sobre aguada da mesma cor. A parte inferior, inflectida para dentro em meia cana, a aguada acastanhada, assenta sobre pé a preto. No fundo da base, estampilhado a preto, «Aleluia Aveiro», e, pintado à mão «A» também a preto. Inscrito na pasta «28».
Data: c. 1935-45
Dimensões: alt. 13 cm


A ornamentação da jarra integra uma linha decorativa frequente na produção da Fábrica Aleluia-Aveiro das décadas de 1930-40, de que já apresentámos alguns exemplos, caso da jarra ou do cache-pot postados respectivamente em 26 de Janeiro e em 1 de Março de 2012. Desenho de inspiração clássica, num ecletismo que tanto pode remeter para uma releitura neo-renascentista ou mais barroquizante, que parece ter tido muita aceitação nacional enquanto versão local de um Art Déco conservador e respeitável.


No Catálogo de loiças decorativas das Fábricas Aleluia-Aveiro, de inícios dos anos 40, na pág. 22, esta peça aparece referenciada com o nº 28 – A, confirmando o indicado na própria peça. 


domingo, 29 de novembro de 2015

Caixa art déco “Ouriço-cacheiro” da Electro-Cerâmica – Vila Nova de Gaia


Caixa art déco, de porcelana moldada e relevada, em forma de ouriço-cacheiro estilizado, sendo a tampa a cabeça do animal. Corpo ovoide, a preto, revestido de espinhos em triângulo, lembrando escamas, sob o qual sobressaem subtilmente as patas da mesma cor. Cabeça e cauda a branco, tendo a primeira apontamentos a preto realçando focinho e olhos. No fundo da base, inciso na pasta, as letras sobrepostas «EC» inscritas num quadrado na oblíqua. Selo colado da «Vidraria Monumental - Av. Almirante Reis, 162A – Lisboa».
Data: c. 1930
Dimensões: Comp. c. 15,5 cm x larg. c. 7,5 cm x alt. c. 6,5 cm


Esta peça art déco remete claramente para a influência estilística de algumas criações de Édouard-Marcel Sandoz, caso do ouriço-cacheiro deste autor, que se ilustra, que parece ter sido a matriz inspiradora da deliciosa e simpática criatura produzida pela Electro-Cerâmica de Vila Nova de Gaia que hoje apresentamos.


Surge, certamente, na sequência da influência que esse escultor suíço radicado em França teve na produção nacional na década de 1930, bem documentada na Fábrica da Vista Alegre, que produziu, pelo menos, duas peças de Sandoz. Foi o caso de um coelho e de um saleiro-rã, este último já postado aqui no blogue, na sua versão a amarelo, em 19 de Janeiro de 2012.


A surpresa do selo de uma vidraria aposto a uma pequena peça decorativa de porcelana, talvez uma drageoire, pode indiciar uma prática comum em Portugal até aos anos 60 do século XX, a de se oferecer brindes a certos clientes. Embora nada obste a que um estabelecimento dessa natureza não pudesse também vender objectos de decoração.


sábado, 28 de novembro de 2015

Jarra com borboletas - Royal Copenhagen - Dinamarca


Jarra ao gosto Arte Nova japonizante, de porcelana moldada em forma de balaústre, com decoração policroma, pintada à mão, em tons pastel, predominantemente de cinzas azulados. No dealbar de uma manhã sem nuvens, duas borboletas esvoaçam em primeiro plano, servindo de repoussoir a uma paisagem campestre, de colinas suaves, que cinta linearmente o bojo, e onde nos apercebemos de uma pequena casa rural que desponta por detrás da curva suave de uma colina. Apercebemo-nos também da copa de árvores que lhe estão próximas. Num plano intermédio a clara presença de três árvores recortadas contra o céu opalino. No fundo da base, carimbo verde com coroa circundada por «Royal Copenhagen» sobre três ondas pintadas à mão a azul. Também à mão, a verde, nºs 925 (decor) e 88B. (forma), e a azul «53» (nº do pintor E. Gad).
Data: c. 1900 (Marca entre 1897 e 1922)
Dimensões: Alt. 13,5 cm x Ø 8,5 cm


Trata-se de um modelo de Arnold Krog, de 1893, que recebeu uma decoração executada pelo pintor E. Gad, que trabalhou na fábrica Royal Copenhagen de 1893 a 1932.


O nascer do Sol, antevisto no toque opalino da alvorada, símbolo do renascer da vida, tem correspondência no acordar das borboletas que iniciam o seu voo na paisagem ainda adormecida. O Simbolismo da pintura complementa-se no japonismo evidente da composição.

Gostamos deste tipo de peças da Royal Copenhagen. Sendo umas mais meditativas e melancólicas que outras, de uma maneira geral são apaziguadoras. Transmitem uma saudade bucólica a quem nunca viveu numa paisagem assim, mas que sente falta dela na agitação da grande cidade. 

domingo, 15 de novembro de 2015

Prato coberto art déco - Serviço Estoril – Sacavém


Prato coberto de faiança moldada, de formas geométricas ao gosto art déco modernista, monocromo azul-pálido. O contentor, circular e com pé inflectido escalonado, tem duas asas semicirculares assentes sobre mísulas escalonadas. A tampa, igualmente circular e escalonada, tem pega em forma de anel largo, interrompido. Integra o serviço de jantar Estoril. No fundo da base, carimbo verde «Gilman e Ctª - Sacavém – Portugal» e, também a verde, carimbo em forma de flor (?) de 4 pétalas.
Data: c. 1935
Dimensões: Ø 26,7 cm (com asas) x alt. 10,5 cm



 Estamos perante uma forma importada de Inglaterra. O modelo Estoril da Fábrica de Loiça de Sacavém, reparem na ironia do nome português, não é mais que a importação do modelo Casino criado, provavelmente em 1932 ou 34, pela Royal Doulton Potteries, na Nile Street, em Burslem, Stroke-on-Trent, onde foi produzido em faiança e em porcelana.


As linhas modernas, simples e práticas, mas elegantes, deste serviço art déco de vertente streamline, são concebidas no âmbito da renovação que a empresa inglesa sofre nos inícios dos anos 30, ao contratar artistas contemporâneos para conceber objectos de design para produção em massa. A forma remete para uma estética industrial em que as diversas partes parecem resultar da colagem de elementos mecânicos. O modelo Casino recebeu decoração linear: “Marquis”, “Radiance” ou “Envoy”, no original inglês, onde faixas de cor – laranja, verde ou azul, respectivamente – são complementadas por faixas e filetes concêntricos a preto.


Este modelo, produzido por Sacavém, teve um grande sucesso de vendas em Portugal, e a sua forma é ainda mais depurada nesta variante monocroma que apresentamos, por contraponto aos exemplares com decoração linear, também frequentes no mercado nacional. Quando olhamos para a fotografia ou a publicidade dos exemplares ingleses que ilustramos julgamos, de imediato, estar perante peças produzidas por Sacavém. Ver outra variante decorativa em MAFLS.


Ter serviços, então completos pior ainda, é uma dor de cabeça para um colecionador de cerâmica. Nada ocupa tanto espaço quanto estes. Agravado quando se gosta de ter os mesmos modelos nas suas diversas variantes decorativas. Peças isoladas, mas exemplificativas, de cada modelo produzido ajudam a colmatar a dificuldade. É o caso.

domingo, 8 de novembro de 2015

Jarra com bodelhas e estrelas-do-mar - Aleluia-Aveiro


Jarra de faiança moldada, bulbiforme, com decoração relevada de bodelhas e estrelas-do-mar. Duas asas em anel no estrangulamento do colo. Sobre a cor bege, apontamentos a ouro realçam, em parte, as estrelas-do-mar e as asas e circundam pé e bocal. No fundo da base carimbo a castanho «Aleluia – Aveiro» com «i» manual, a ouro, ao centro, e, pintado à mão, também a ouro, «X167-A»
Data: c. 1965
Dimensões: alt. 11 cm


O «X» indica a presença de apontamentos a ouro, seguido de «167», que será o número do modelo, e a letra «A» a indicar que se trata da primeira de uma série.

Quase sempre afinamos a datação por características estilísticas, e neste caso até a situaríamos na década de 1940, devido à linguagem tardo art déco da forma, apesar de contrariada pela agitação quase Arte Nova dos elementos ornamentais, Porém, avançamos para meados da década de 1960, na sequência do comentário de CMP aquando do peixe postado em 27 de Abril deste ano. Qualquer informação que nos possam fazer chegar, agradecemos.


A decoração em relevo remete, mais uma vez, para o ambiente marinho enquanto tema recorrente da Fábrica Aleluia-Aveiro. A maré desceu, ficaram caídas as bodelhas (Fucus vesiculosus L.), espécie de alga comum nos enrocamentos do litoral e estuários do país, que preenchem a superfície da peça com as suas ramificações onduladas e vesículas (mais precisamente aerocistos) cheias de ar, deixando entrever estrelas-do-mar. Um universo que traz para a esfera doméstica a lembrança do labor na ria de Aveiro e no litoral circunvizinho a que muita da população local se dedicava. Memórias de trabalho árduo mas também de uma natureza bela e generosa cristalizadas na produção cerâmica local.

domingo, 18 de outubro de 2015

Jarra “coração” com duas crianças – Electro-Cerâmica - Candal


Jarra de porcelana moldada em forma de coração, a verde com interior a branco, assente sobre pés laterais salientes, a preto. Sentado no bordo, casal de meninos a namorar, policromos. No fundo da base, carimbo verde «EC» inscrito num quadrado na diagonal sobrepujando «Candal». Inciso na pasta «F. 42» e, pintado à mão a preto, «N» (marca do pintor?)
Data: c. 1940 - 50
Dimensões: alt. 16 cm x comp. c. 11, 5 cm x larg. c. 9 cm



Claramente, e como MAFLS já havia referido, estamos perante um modelo de fortes ressonâncias germânicas, muito próximo das produções da fábrica Goebel.

O proprietário destra fábrica, Franz Goebel, em 1934 havia decidido lançar uma nova linha a partir de desenhos concebidos por uma freira, a irmã Maria Innocentia Hummel, anteriormente editados em postais e livros. Aliás, estamos mesmo em crer que não se tratará de mera inspiração mas de um modelo importado, talvez até especificamente para a Electro-Cerâmica do Candal, pois não conseguimos encontrar (pelo menos até agora) exemplar idêntico de fabrico alemão.


Berta Hummel (1909 -1946) foi uma artista alemã, nascida em Massing, na Baviera. Educada, a partir dos 12 anos, num colégio de freiras, as Irmãs do Loreto, em Simbach am Inn, ingressou, aos 18 anos, em 1927, na prestigiada Escola de Artes Aplicadas de Munique, onde se licenciou com distinção em 1931. Profundamente religiosa, nesse mesmo ano entrou para o convento franciscano de Siessen, onde escolheu o nome de Maria Innocentia, tomando votos em 1937.


A sua inspiração artística estava claramente imbuída do espírito franciscano. Pelo amor às crianças, aos animais, à natureza, e pelo sentimento de inocência que as suas obras transmitem ainda hoje. Transparece nas suas criações um gosto fácil, ternamente kitch que, todavia, provocou reacções negativas numa Alemanha totalitária.

Profundamente anti-nazi, a sua arte foi repudiada pelo regime, que entre outras questões, que não cumpre aqui analisar, não aceitava as suas crianças “hidrocéfalas” e amaneiradas, contrárias ao ideal ariano da masculinidade e da força física (ver foto).


Quiçá as suas criaturinhas delicodoces, inocentes, rosadinhas e saudáveis, bem vestidinhas, crianças muito loiras e pacíficas, como anjinhos barrocos agora remetidos para um papel mais laico, não terão sido uma reacção à brutalidade nazi que se impôs na Alemanha, visto que algumas das suas obras religiosas atingiram o patamar da provocação ao regime (ver aqui).

O convento de Siessen é ocupado pelos nazis em 1940, ficando as religiosas confinadas a um pequeno espaço. As dificuldades a partir de então, sentidas pela comunidade, vão deteriorar o estado de saúde da irmã Maria Innocentia que, tuberculosa, acaba por morrer em 1946, com 37 anos de idade.

A expansão internacional dos seus modelos vai dar-se, sobretudo, no final da II Guerra Mundial, com a divulgação nos Estados Unidos da América, graças aos exemplares levados pelos soldados americanos de regresso a casa.

Talvez como consequência desta popularidade, não só a Electro-Cerâmica do Candal, mas também outras fábricas nacionais, caso da Vista Alegre ou de Sacavém (imagens da Virgem, por exemplo), copiam, ou importam, os modelos da Goebel. A série «Bebé» desta última, em nossa opinião, poderá, para além das sugestões de MAFLS, com as quais concordamos plenamente, também ser uma reinterpretação da estética criada pela freira franciscana. Uma digestão perfeita de uma estética importada, esvaziada de conteúdo político, pois ao repúdio do regime belicista nazi pelas obras de Hummel, corresponde na produção portuguesa uma clara simpatia por parte da situação política vigente, ruralizante e de uma religiosidade paternalista tão do agrado do regime e da Igreja de então. Uma produção apaziguante, ternurenta e completamente inócua.


Daí também o sucesso do exemplar de hoje e de outras figurinhas com a mesma origem que a fábrica do Candal produziu e que haveremos de postar.