domingo, 19 de julho de 2015

Manga cilíndrica art déco com pássaros – K et G Lunéville - França


Jarra cilíndrica (manga) art-déco de faiança moldada de cor branca com decoração estilizada policroma, em azul, mostarda e preto, estampilhada e aerografada, de pássaros empoleirados em ramagens com folhas e flores. Parte inferior bordejada por uma sequência de segmentos curvos e tracejados a azul como uma “renda”. No fundo da base carimbo preto K&G - Lunéville- France. Inscrito na pasta «3P» e um «♥» [coração].
Data: c. 1923-30
Dimensões: Alt. 18,5cm x Ø 8 cm


Já todos conhecem esta nossa apetência pelas criações de Géo Condé, artista recorrente neste blogue, ou do seu círculo em Lunéville. As suas decorações com estilizados desenhos art déco são, a nosso ver, simultaneamente populares e eruditas, singelas e sofisticadas. Esta manga é mais um exemplo do seu estilo peculiar.

Associa-se também ao nosso gosto pela técnica, aparentemente simples, da estampilhagem aerografada. De facto, as figuras recortadas em estampilhas e aplicadas a aerógrafo, geralmente, com duas ou três cores apenas, da produção de Lunéville, são de um invulgar efeito visual, dentro dos parâmetros da contemporaneidade de então na versão art déco popular francesa.


Para mais, costumamos cá por casa falar de Lunéville como a versão francesa da Fábrica de Loiça de Sacavém (a nossa paixão nacional), embora nesta os aerografados sejam mais de inspiração germânica. Mesmo assim encontramos algumas afinidades, sobretudo na lógica da produção para as massas de loiça corrente, geralmente de baixo custo. Falamos de faiança, porque em relação à produção em grés com os irmãos Mougin já estamos a um outro nível.

É certo que Lunéville teve sempre uma produção com criação própria muito diversificada e que em determinados períodos da sua história, caso dos finais do século XIX e inícios da centúria seguinte, produziu faiança de excepcional qualidade que dificilmente a sua congénere nacional igualará, apesar das excepções.

Nesta produção. e no trabalho deste artista em particular de cuja obra temos vindo a dar exemplos, estão reunidas um conjunto de características, conceitos e técnicas que muito nos agradam.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Paliteiro art déco da Electro Cerâmica – Vila Nova de Gaia


Paliteiro art déco de porcelana moldada em forma de prisma triangular com arestas chanfradas. Sobre a cor branca, em cada face lateral, contornada por filete azul, recebeu decoração de flores estilizadas policromas estampadas, em quincôncio, sendo a central uma papoila aberta. No fundo da base carimbo azul EC inscrito num quadrado, na oblíqua, envolvido por Empreza/Electro/Cerâmica/V.N.Gaia. Inscrito na pasta, à mão, V.
Data: c. 1930
Dimensões: comp. 9 cm x alt. c. 4,5 cm


Dos objectos utilitário de ir à mesa os paliteiros estão quase ausentes das nossas colecções de cerâmica. Poucos encontramos com as características estilísticas que nos interessam e os que aparecem geralmente tendem para ter motivos florais muito tradicionais e repetitivos. Neste caso, sendo um exemplar de características populares, não deixa de remeter para a contemporaneidade do seu tempo. Não podia ser de outra época. Para além da forma, talvez a mais comuns ainda hoje em uso em Portugal, junta-se a estilização floral do motivo, flores geometrizadas muito ao gosto art déco alemão, para variar…


domingo, 12 de julho de 2015

Jarra art déco quadrilobada listrada com escorridos – Lusitânia – Lisboa


Jarra de cerâmica moldada, trilobada e lotiforme, decorada a aerógrafo, creme a parte superior e a cor-de-laranja a parte inferior incluindo o pé oval saliente. Uma lista a manganês separa as duas cores. Bocal igualmente a manganês. De permeio duas linhas a manganês e uma a amarelo cintam a parte superior do bojo. No fundo da base, carimbo estampado, verde, da unidade de Lisboa: escudo coroado Lusitânia, com Cruz de Cristo enquadrada pelas iniciais C F C L [Companhia das Fábricas de Cerâmica Lusitânia] sobrepujando Portugal.
Data: c. 1930
Dimensões: alt. 23 cm x larg. máx. 19 cm


Já aqui tivemos oportunidade de postar outras jarras deste mesmo modelo, nas três dimensões que conhecemos. A de maiores dimensões (29 cm) da Lusitânia-Lisboa, em 7 Fevereiro de 2015, e a mais pequena (15,5 cm) da unidade de Coimbra, em 8 de Fevereiro de 2015, apresentavam o mesmo tipo de decoração com escorridos aplicados a aerógrafo. A de tamanho médio (23 cm), também de Coimbra, em 7 Janeiro 2013, com uma variante decorativa vegetalista.

A jarra de hoje é da dimensão desta última, mas da unidade de Lisboa, e retoma a técnica pictórica das duas primeiras, de influência alemã, sobretudo da fábrica Carstens-Uffrecht, como então escrevemos. Os escorridos estão presentes, ainda que mais elaborados e controlados, desenhando faixas e linhas paralelas que se moldam à forma.


Sempre que possível adquirimos mais de um exemplar da mesma forma com decorações diferentes. Isso permite-nos apreender as virtualidades decorativas que uma forma adquire ao transformar-se num objecto distinto. É um modo de sistematização que nos agrada enquanto colecionadores de cerâmica. Na ausência de um design português para este período conseguimos, deste modo, vislumbrar o que à cópia importada se acrescenta, ou não, de “nacional”.

sábado, 11 de julho de 2015

Jarro com faixas cortadas para cacau da Carstens Gräfenroda - Alemanha


Mais uma chocolateira art déco, da mesma forma «Leine», da alemã Carstens Gräfenroda que anteriormente postámos. Apresenta a mesma paleta quase monocromática, em dois tons de castanho e partes em reserva, mas com outra decoração, a nº 757. Esta concentra-se apenas no bojo esférico onde três faixas paralelas horizontais, a castanho-mel, são seccionadas em quatro partes por faixas verticais a castanho-chocolate. Todas as faixas aerografadas têm um dos lados em esfumado, pelo que o corte da estampilha será apenas rigoroso num dos sentidos. A restante superfície externa é castanho-chocolate. No fundo da base, carimbo preto, em forma de escudo, com a inscrição «Carstens» e «C G» sobrepujado por «Gräfenroda». Carimbos, igualmente a preto, «D. 757», «41» (?) e algo mais ilegível. Inscrito na pasta: «2».
Data: c. 1930
Dimensões: Alt. 20 cm (s/tampa) x Ø c. 14 cm


A decoração proporciona um efeito óptico completamente distinto relativamente ao jarro anterior, quase desconstruindo visualmente a forma. São estas virtudes da pintura a aerógrafo, delineada pelo recurso a estampilhas, uma técnica aparentemente tão simples, que tanto nos fascina e agrada na produção cerâmica deste período e que, por exemplo, a Fábrica de Loiça de Sacavém, à semelhança de outras congéneres europeias, tão bem soube apropriar-se.


quinta-feira, 9 de julho de 2015

Jarro listrado para cacau da Carstens Gräfenroda - Alemanha


Jarro art déco para cacau de faiança moldada, de bojo esférico, assente sobre pé circular, e colo alto cilíndrico. O bico, embutido no colo, parte do bojo em direcção ao bocal que é coberto por tampa de metal cromado. Toda a superfície recebeu pintura aerografada em dois tons de castanho, formando uma sobreposição de faixas horizontais, de diferentes espessuras, parcialmente em esfumado, que intercalam com a cor beije da reserva. Asa e bico são uniformemente castanho-chocolate. No fundo da base, carimbo preto, em forma de escudo, com a inscrição «Carstens» e «C G» sobrepujado por «Gräfenroda». Carimbos, igualmente a preto, «Dec 667», «Foreign» «24» e «34»
Data: c. 1930
Dimensões: Alt. 20 cm (s/tampa) x diâm. c. 14 cm


Trata-se da forma «Leine» com a decoração nº 667, e tem uma capacidade para cerca de litro e meio.

O despojamento e a funcionalidade da Bauhaus, presente na forma e na decoração minimalista, incluem este tipo de peças funcionais numa art déco vanguardista, muito característica dos objectos de uso quotidiano na República de Weimar.

Podem ver uma chocolateira idêntica no V&A (Victoria and Albert Museum) cuja ficha de inventário informa que, provavelmente, terá sido desenhado por Rausch, um aluno de Artur Hennig, e fabricado pela Christian Carstens, Kommandit-Gesellschaft Feinsteingutfabrik, Gräfenroda, em c. de 1930. Esta forma, com esta decoração em particular, parece ter feito sucesso no Reino Unido. A nossa peça foi comprada em Edimburgo, na Escócia, por exemplo, e o carimbo «Foreign» indica que se tratou de uma produção para exportação.


Porém, o mais interessante foi o que tivemos possibilidade de constatar nesta passada terça-feira, de manhã, 7 de Julho, na Feira da Ladra. Há muito tempo que não fazíamos em dia de semana esta voltinha simpática no meio do caos à procura das tão nossas apreciadas velharias.

Não foi um dia particularmente encorajador dado pouco termos visto que nos entusiasmasse verdadeiramente. Mais, constatámos que os preços continuam especulativos em excesso face aos tempos de crise em que vivemos.

Todavia, uma surpresa aguardava-nos. Não que nos interessasse adquiri-la, mas antes pelas questões que levantava. No meio do “lixo” surgiu-nos um jarro igual a este à venda e, por curiosidade, quisemos confirmar a germanidade da marca. A curiosidade instalou-se, pois a peça tinha apenas um único carimbo que informava «Made in England». Ora este modelo e decoração são indubitavelmente alemães, por isso das duas uma, ou a Carstens produzia uma parte da sua produção, sem marca, para ser vendida «in England» ou alguma fábrica inglesa a copiava. Mas não será certamente esta última versão porque pasta, cores, decoração e vidrados são inequivocamente iguais às de origem.

Não é a primeira vez que apresentamos exemplos ingleses que são cópias de formas alemãs. Veja-se post de 7 de Junho de 2014. De uma maneira geral, os ingleses copiam intensamente modelos e decorações continentais, sobretudo alemães, checos e franceses, antes de evoluírem, tardiamente nos anos 30, por caminhos que lhes são mais próprios.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Jarra da HAEL, Marwitz - Alemanha


Jarra de cerâmica moldada, em forma de campânula ou sino invertido com base saliente, de cor branco-marfim com decoração abstracta e geométrica aerografada, a preto (?) sobre verde, composta por traços e três círculos esfumados sobre os quais foram traçados manualmente diferentes composições: duas quadriculadas, uma delas de traços arqueados, e uma pintalgada lembrando um H. No fundo da base, carimbo azul com letras HAEL sobrepostas - da Haël Werkstätten für künstlerische Keramik Marwitz - e 123b144 (forma 123b, decor 144).
Data: c. 1930
Dimensões: Alt. 15 cm x Ø. máx. 11 cm


Mais uma peça dentro do espírito da Bauhaus concebida por Margarete Heymann-Loebenstein (mais tarde Heymann-Marks), sobre quem já tivemos oportunidade de escrever em 3 de Abril de 2013 a propósito do seu célebre serviço de café. Desta vez uma jarra com uma das mais emblemáticas decorações construtivistas a aerógrafo, da época, composta por círculos e segmentos de recta, também produzida no Atelier Artístico de Haël, em Marwitz, perto de Berlim.


domingo, 5 de julho de 2015

Jarra art déco com guarnição de metal - Paul Milet - Sèvres


Jarra de faiança moldada de forma esférica abatida, de cor azul-turquesa exteriormente manchado com escorridos, simulando crisocola, a azul-ultramarino e a amarelo, como palhetas de ouro, dando cambiantes esverdeados. Uma guarnição de metal dourado (bronze?) art déco encaixa, circundando o bocal, com elementos geometrizados a duas alturas que pendem, intercalados, sobre o bojo. No fundo da base, carimbo a preto, MP-Sèvres dentro de um círculo pontilhado. Selo de época, a encarnado e castanho, da «Flinois & Roussel Joailliers - Amiens».
Data: c. 1925

Dimensões: Alt. 9 cm x Ø 14 cm


A peça, adquirida em Amiens, foi vendida na «Flinois & Roussel Joailliers» dessa cidade nos anos 20, como nos indicia o selo e a marca de Paul Milet utilizada antes de 1930. Muitas peças de cerâmica e vidro podiam ser vendidas em joalharias desde que associadas a guarnições de metal, sobretudo precioso, como o ouro ou a prata, mas também o bronze. O tom dourado da guarnição metálica associado à cor mineral do objecto cerâmico dá, de facto, um toque de refinamento muito especial a estas peças.


A simulação cromática da crisocola, ou de outros minerais associados ao cobre, foi muito recorrente na produção de Paul Milet, provavelmente pelos óxidos de minério utilizados nos vidrados. Já aqui mostrámos outras peças, e iremos continuar a ilustrar, que apresentam esta característica.


domingo, 14 de junho de 2015

Importações e desencontros: leiteira modelo «Estoril» versus Keith Murray - Sacavém


Ainda a propósito do modelo de serviço de café produzido por Sacavém concebido por Keith Murray postado ontem, cumpre-nos tecer algumas considerações sobre o mesmo, até para dar maior destaque a um caso que nos intriga e que parece ter sido recorrente na produção industrial portuguesa. Ao nível da cerâmica pelo menos.



É que a pequena leiteira do modelo «Estoril» da Fábrica de Loiça de Sacavém que hoje postamos, também de importação inglesa como já tivemos ocasião de escrever, acompanhava o serviço de Keith Murray como se fizesse parte do mesmo. Porque nos pareceu uma incongruência fizemos propositadamente a separação entre as peças postadas ontem e esta, com 7 cm de altura e datável de c. 1935.


Misturar cafeteira e chávenas concebidas por Keith Murray para Wedgwood, de c. 1934, com a leiteira (e sabe-se lá qual seria a forma do açucareiro) modelo Moderne, da firma inglesa Carlton Ware, de c. 1935, terá sido devido às leis do acaso que, por afinidades de cor e sentido de oportunidade de vendedores de velharias, acabassem por reunir peças de modelos diferentes formando conjunto? Ou terá sido uma opção deliberada, uma estratégia de mercado por parte de empresas nacionais, caso de Sacavém? Por questões de preço? Não seria caso único nem a única fábrica a fazê-lo. Também já aqui levantámos suspeitas sobre um serviço da Vista Alegre, por exemplo.


Acompanhar a evolução do design moderno internacional durante a década de 30 num país pouco culto e que não tinha designers próprios, poderá ter dado azo a equívocos de produção. Ou por economia de meios ou por desentendimento funcional e estético das formas. A satisfação de um mercado composto por uma clientela pouco esclarecida poderá ter levado à mistura, consciente ou não, de modelos de várias linguagens. Que era usual importar modelos estrangeiros de proveniências distintas para satisfazer fábricas nacionais é um facto. No clima de renovação formal do período Art Déco ocorrido no Portugal de finais dos anos 20 e, sobretudo, na década seguinte, assim se satisfazia as necessidades de um mercado pouco exigente e se acompanhava a evolução internacional do gosto e das mentalidades

sábado, 13 de junho de 2015

Keith Murray made in Sacavém


Serviço de café (parte) composto por cafeteira, duas chávenas e respectivos pires, de faiança moldada, monocroma cor-de-rosa. As formas lisas são cintadas a meio por um anel estriado. A tampa é escalonada com pega em botão. As asas são quebradas de gosto neoclassicizante. No fundo da base da cafeteira carimbos verde «Gilman & Ctª – Sacavém» e «Portugal». Em um dos pires, carimbos verde «Gilman & Ctª – Sacavém» e «Portugal». complementados pelos carimbos «T» e «E» também a verde «Sacavém» «52LO». e, inscrito na pasta. Em outro pires carimbos verde «Gilman & Ctª – Sacavém» e «Made in Portugal» complementados pelo carimbo «M» e, inscrito na pasta, «Sacavém» e «52KO». As chávenas não apresentam qualquer marca.
Data: c. 1935
Dimensões: Alt. 20,5cm (Cafeteira)


Trata-se de um modelo desenhado pelo célebre arquitecto e designer Keith Murray (1892-1981) para a firma inglesa Wedgwood cerca de 1934 e que a Fábrica de Loiça de Sacavém viria também a produzir pouco depois.


Keith Murray nasceu em Auckland, Nova Zelândia, e chegou à Grã-Bretanha em 1906 onde viveria grande parte da sua vida.

Após participar na I Grande Guerra, onde serviu na Royal Flying Corps, estudou arquitectura na Architectural Association School of Architecture, em Londres, onde se licenciou em 1921.

Não tendo encontrado grandes possibilidades de trabalho enquanto arquitecto na década de 20, durante um curto período trabalhou como ilustrador, e acabou por encontrar trabalho enquanto designer.

Em 1925 havia visitado a Exposição Internacional de Artes Decorativas e Industriais Modernas, de Paris, onde descobriu o design do vidro escandinavo e de outras vanguardas continentais europeias.

Influenciada pela Exposição de Artes Industriais Suecas (Exhibition of Swedish Industrial Art), em Londres, de 1931, a empresa Stevens & Williams, em Brierley Hill, produtores de vidros de qualidade, contratou Murray, a tempo parcial, em 1932, para conceber modelos para a sua firma, colecções que viriam a público nesse mesmo ano.

A partir de 1933, também a tempo parcial, passou a trabalhar na fábrica Josiah Wedgwood and Sons, Ltd., concebendo modelos para cerâmica - jarras e serviços de mesa. O desenho claro e a simplicidade funcional destas suas peças combinavam os objectivos do Movimento Moderno com o classicismo setecentista inglês. As formas geométricas, depuradas, maciças, monumentais sintetizam o modernismo e a art déco britânicos dos anos 30. Simultaneamente desenha peças de prata para a firma Mappin & Webb.


Em 1936 estabelece um atelier de arquitectura com C. S. White e faz os projectos da nova fábrica Wedgwood em Barlaston (1938-40).

Depois da II Guerra Mundial voltou à arquitectura enquanto sócio da empresa Murray, Ward & Partners, que funda, em 1945, com o seu colega neozelandês Basil Ward. Abandona o design industrial em 1948, mantendo-se ligado à arquitectura até se reformar em 1967.

Regressa à Nova Zelândia, em data que não conseguimos apurar, onde morre em Auckland.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Boleira art déco com motivos vegetalistas monocromos - Lusitânia - Coimbra


Esta forma pela terceira vez marca presença aqui no blogue: a primeira, em 28 de Fevereiro de 2013, tinha outra decoração, e a segunda, em 27 Dezembro do ano seguinte, tinha a mesma decoração da que agora se mostra em versão monocromática a azul. O grafismo dos motivos vegetalistas estilizados apresenta, em nossa opinião, ressonâncias simplificadas do neo-rococó de Dagobert Peche, como então escrevemos.



A caixa (boleira) art déco de faiança moldada de hoje tem uma cor uniforme azul-pálido, mate, sobre a qual recebeu decoração estampilhagem aplicada a aerógrafo no mesmo tom de azul mais carregado, cor que realça igualmente, em esfumado, os pés e a pega. No fundo da base, carimbo azul Lusitânia – Coimbra.
Data: c. 1930-35
Dimensões: Comp. c. 22,2 cm x larg. c. 11,5 cm x alt. c. 16 cm


quarta-feira, 27 de maio de 2015

Ainda a propósito do serviço de café art déco verde da Vista Alegre

O modelo da Vista Alegre anteriormente apresentado é, evidentemente, importado. Como nenhum dos nossos seguidores nos disse nada, decidimos desvendar o mistério…


Trata-se da forma «Regent» desenhada por Eric Slater para a inglesa Shelley Potteries e aí produzida a partir de 1932.

Como se pode ver na fotografia (lamentamos a má qualidade da imagem, mas ao ocupar duas páginas não é fácil reproduzi-la), o açucareiro e a manteigueira da versão portuguesa nada têm a ver com o modelo original.

Na obra de onde retirámos a fotografia é referido que as asas têm sido comparadas a metade de um par de tesouras. Não podemos estar mais de acordo. Refere ainda que o modelo foi buscar inspiração a peças do século XIX, o que não deixa de ser interessante ao olharmos para a manteigueira da versão da Vista Alegre de claro gosto oitocentista.

sábado, 23 de maio de 2015

Serviço de café art déco de cor verde – Vista Alegre


Serviço de café, art déco, para 6 pessoas, de porcelana moldada, de base branca com pintura exterior a verde, aplicada a aerógrafo, e com apontamentos manuais a ouro nos bordos e nas asas e pegas, em reserva a branco, tal como os interiores. Composto por cafeteira, açucareiro, leiteira, manteigueira e chávenas com respectivos pires, as pegas das tampas são circulares, repetindo-se nas pegas laterais acrescidas de um reforço, lembrando uma vírgula. Excepção são as asas do açucareiro, em forma de espátula estriada, e a pega da manteigueira. No fundo da base, carimbo verde V.A. Portugal (marca nº 31 - 1924-1947).
Data: c.1930
Dimensões: Variáveis



Em nossa opinião trata-se de um conjunto pouco coerente, apesar de moderno na sua gramática art déco, que parece ter resultado da colagem de elementos retirados de vários modelos, muito provavelmente importados. Se a cafeteira, a leiteira e as chávenas, apresentam as mesmas características formais, já as asas do açucareiro subvertem essa coerência. Quanto à manteigueira, embora tenha sido adquirida como parte do todo, ou não fazia parte deste serviço, ou então a sua forma, sobretudo a pega, e mesmo a decoração, com as suas listas brancas debruadas com filete a ouro, são uma incongruência, demasiado agarradas a modelos oitocentistas. 

Em Portugal recebeu a designação de formato «Liverpool». Surge ainda ilustrado no catálogo de serviços «Porcelanas Portuguesas Vista Alegre. Fábrica de Porcelana da Vista Alegre, Lda», posterior a 1947





sexta-feira, 1 de maio de 2015

Chávena de serviço de café art déco “marmoreada” – Formato Estoril - Sacavém


Em 10 de Outubro de 2014 debruçámo-nos sobre o modelo que a Fábrica de Loiça de Sacavém baptizou como «formato Estoril» decorado com o motivo nº 933, composição geométrica linear produzida em sete combinações cromáticas diferentes. Teremos oportunidade de mostrar mais algumas.

Todavia, hoje trazemos uma decoração menos comum em que a peça – dispomos apenas de uma chávena com respectivo pires – é marmoreada.


Sobre a cor rosada pálida de base foi aplicada a estampilha e aerógrafo uma decoração marmoreada a castanho-avermelhado. Esta preenche o bojo ovoide da chávena e covo e aba do pires. A asa lateral ondulada e pé da chávena são uniformemente preenchidos a castanho-avermelhado e o bordo da aba do pires recebeu, em espelho, como pegas onduladas, apontamento trilobado a cheio na mesma cor. No fundo da base do pires, carimbo verde «Gilman & Ctª / Sacavém / Portugal».. Inscrito na pasta, «52 B» «4-40» e algo mais, ilegível. No fundo da base da chávena apenas carimbo verde com «L».
Data: c. 1935
Dimensões: Pires: Ø 10,8 cm x alt. 1,5 cm;
Chávena: alt. 6 cm x larg. c/ asa 7,5 cm


Lembramos que na génese deste formato está um modelo de serviço de chá editado por Robj, em França, c. 1930, fabricado pela Villeroy & Boch – Luxemburgo, e reproduzido em Portugal pela Vista Alegre. Porém, é a versão deste modelo, em serviço de café, forma 1246, da inglesa Carlton Ware que Sacavém vai produzir. 

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Jarra art déco com asas – Vista Alegre


Jarra art déco de porcelana moldada de bojo esférico achatado e colo alto e estreito com duas asas. Sobre a porcelana vidrada branca, em reserva junto ao bocal e em parte da decoração, foi aplicado, a aerógrafo, um fundo laranja-forte, que recebeu uma composição raiada a negro e cachos de flores estilizadas, formadas por círculos concêntricos que cingem a zona de estrangulamento pendendo sobre o bojo. Bocal com pinceladas irregulares, descendentes, a ouro, sobre branco. No fundo da base carimbo verde V.A. Portugal. Pintado à mão, a preto, «26» e inscrito na pasta, também à mão, 14-51 (?).
Data: c. 1930 - Marca nº 31 (1924-1947)
Dimensões: Alt. 12 cm x Ø 12 cm




Trata-se de um modelo da fábrica de porcelana da Vista Alegre, de 1921, próximo de formas estrangeiras ainda Arte Nova, com uma decoração de flores circulares concêntricas que remetem para os círculos órficos de Robert e Sónia Delaunay, de cores fortes e contrastantes, patente em pinturas como «A Portuguesa» ou «Mercado do Minho», e igualmente presentes em obras de Eduardo Viana e mesmo de Amadeo de Sousa-Cardoso.


Flores próximas desta tipologia, embora numa paleta cromática menos carregada, aparecem-nos em outras peças da Vista Alegre, caso da jarra ilustrada em 28 de Março de 2013, que como tivemos mais tarde oportunidade de referir encontram o seu referencial em obras de E. Margerie, editadas por P. Bastard (ver jarra postada em 20 Agosto do mesmo ano). Muito provavelmente estaremos, uma vez mais, perante uma decoração, se não importada, pelo menos inspirada em motivos internacionais, sobretudo franceses.