domingo, 5 de julho de 2015

Jarra art déco com guarnição de metal - Paul Milet - Sèvres


Jarra de faiança moldada de forma esférica abatida, de cor azul-turquesa exteriormente manchado com escorridos, simulando crisocola, a azul-ultramarino e a amarelo, como palhetas de ouro, dando cambiantes esverdeados. Uma guarnição de metal dourado (bronze?) art déco encaixa, circundando o bocal, com elementos geometrizados a duas alturas que pendem, intercalados, sobre o bojo. No fundo da base, carimbo a preto, MP-Sèvres dentro de um círculo pontilhado. Selo de época, a encarnado e castanho, da «Flinois & Roussel Joailliers - Amiens».
Data: c. 1925

Dimensões: Alt. 9 cm x Ø 14 cm


A peça, adquirida em Amiens, foi vendida na «Flinois & Roussel Joailliers» dessa cidade nos anos 20, como nos indicia o selo e a marca de Paul Milet utilizada antes de 1930. Muitas peças de cerâmica e vidro podiam ser vendidas em joalharias desde que associadas a guarnições de metal, sobretudo precioso, como o ouro ou a prata, mas também o bronze. O tom dourado da guarnição metálica associado à cor mineral do objecto cerâmico dá, de facto, um toque de refinamento muito especial a estas peças.


A simulação cromática da crisocola, ou de outros minerais associados ao cobre, foi muito recorrente na produção de Paul Milet, provavelmente pelos óxidos de minério utilizados nos vidrados. Já aqui mostrámos outras peças, e iremos continuar a ilustrar, que apresentam esta característica.


domingo, 14 de junho de 2015

Importações e desencontros: leiteira modelo «Estoril» versus Keith Murray - Sacavém


Ainda a propósito do modelo de serviço de café produzido por Sacavém concebido por Keith Murray postado ontem, cumpre-nos tecer algumas considerações sobre o mesmo, até para dar maior destaque a um caso que nos intriga e que parece ter sido recorrente na produção industrial portuguesa. Ao nível da cerâmica pelo menos.



É que a pequena leiteira do modelo «Estoril» da Fábrica de Loiça de Sacavém que hoje postamos, também de importação inglesa como já tivemos ocasião de escrever, acompanhava o serviço de Keith Murray como se fizesse parte do mesmo. Porque nos pareceu uma incongruência fizemos propositadamente a separação entre as peças postadas ontem e esta, com 7 cm de altura e datável de c. 1935.


Misturar cafeteira e chávenas concebidas por Keith Murray para Wedgwood, de c. 1934, com a leiteira (e sabe-se lá qual seria a forma do açucareiro) modelo Moderne, da firma inglesa Carlton Ware, de c. 1935, terá sido devido às leis do acaso que, por afinidades de cor e sentido de oportunidade de vendedores de velharias, acabassem por reunir peças de modelos diferentes formando conjunto? Ou terá sido uma opção deliberada, uma estratégia de mercado por parte de empresas nacionais, caso de Sacavém? Por questões de preço? Não seria caso único nem a única fábrica a fazê-lo. Também já aqui levantámos suspeitas sobre um serviço da Vista Alegre, por exemplo.


Acompanhar a evolução do design moderno internacional durante a década de 30 num país pouco culto e que não tinha designers próprios, poderá ter dado azo a equívocos de produção. Ou por economia de meios ou por desentendimento funcional e estético das formas. A satisfação de um mercado composto por uma clientela pouco esclarecida poderá ter levado à mistura, consciente ou não, de modelos de várias linguagens. Que era usual importar modelos estrangeiros de proveniências distintas para satisfazer fábricas nacionais é um facto. No clima de renovação formal do período Art Déco ocorrido no Portugal de finais dos anos 20 e, sobretudo, na década seguinte, assim se satisfazia as necessidades de um mercado pouco exigente e se acompanhava a evolução internacional do gosto e das mentalidades

sábado, 13 de junho de 2015

Keith Murray made in Sacavém


Serviço de café (parte) composto por cafeteira, duas chávenas e respectivos pires, de faiança moldada, monocroma cor-de-rosa. As formas lisas são cintadas a meio por um anel estriado. A tampa é escalonada com pega em botão. As asas são quebradas de gosto neoclassicizante. No fundo da base da cafeteira carimbos verde «Gilman & Ctª – Sacavém» e «Portugal». Em um dos pires, carimbos verde «Gilman & Ctª – Sacavém» e «Portugal». complementados pelos carimbos «T» e «E» também a verde «Sacavém» «52LO». e, inscrito na pasta. Em outro pires carimbos verde «Gilman & Ctª – Sacavém» e «Made in Portugal» complementados pelo carimbo «M» e, inscrito na pasta, «Sacavém» e «52KO». As chávenas não apresentam qualquer marca.
Data: c. 1935
Dimensões: Alt. 20,5cm (Cafeteira)


Trata-se de um modelo desenhado pelo célebre arquitecto e designer Keith Murray (1892-1981) para a firma inglesa Wedgwood cerca de 1934 e que a Fábrica de Loiça de Sacavém viria também a produzir pouco depois.


Keith Murray nasceu em Auckland, Nova Zelândia, e chegou à Grã-Bretanha em 1906 onde viveria grande parte da sua vida.

Após participar na I Grande Guerra, onde serviu na Royal Flying Corps, estudou arquitectura na Architectural Association School of Architecture, em Londres, onde se licenciou em 1921.

Não tendo encontrado grandes possibilidades de trabalho enquanto arquitecto na década de 20, durante um curto período trabalhou como ilustrador, e acabou por encontrar trabalho enquanto designer.

Em 1925 havia visitado a Exposição Internacional de Artes Decorativas e Industriais Modernas, de Paris, onde descobriu o design do vidro escandinavo e de outras vanguardas continentais europeias.

Influenciada pela Exposição de Artes Industriais Suecas (Exhibition of Swedish Industrial Art), em Londres, de 1931, a empresa Stevens & Williams, em Brierley Hill, produtores de vidros de qualidade, contratou Murray, a tempo parcial, em 1932, para conceber modelos para a sua firma, colecções que viriam a público nesse mesmo ano.

A partir de 1933, também a tempo parcial, passou a trabalhar na fábrica Josiah Wedgwood and Sons, Ltd., concebendo modelos para cerâmica - jarras e serviços de mesa. O desenho claro e a simplicidade funcional destas suas peças combinavam os objectivos do Movimento Moderno com o classicismo setecentista inglês. As formas geométricas, depuradas, maciças, monumentais sintetizam o modernismo e a art déco britânicos dos anos 30. Simultaneamente desenha peças de prata para a firma Mappin & Webb.


Em 1936 estabelece um atelier de arquitectura com C. S. White e faz os projectos da nova fábrica Wedgwood em Barlaston (1938-40).

Depois da II Guerra Mundial voltou à arquitectura enquanto sócio da empresa Murray, Ward & Partners, que funda, em 1945, com o seu colega neozelandês Basil Ward. Abandona o design industrial em 1948, mantendo-se ligado à arquitectura até se reformar em 1967.

Regressa à Nova Zelândia, em data que não conseguimos apurar, onde morre em Auckland.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Boleira art déco com motivos vegetalistas monocromos - Lusitânia - Coimbra


Esta forma pela terceira vez marca presença aqui no blogue: a primeira, em 28 de Fevereiro de 2013, tinha outra decoração, e a segunda, em 27 Dezembro do ano seguinte, tinha a mesma decoração da que agora se mostra em versão monocromática a azul. O grafismo dos motivos vegetalistas estilizados apresenta, em nossa opinião, ressonâncias simplificadas do neo-rococó de Dagobert Peche, como então escrevemos.



A caixa (boleira) art déco de faiança moldada de hoje tem uma cor uniforme azul-pálido, mate, sobre a qual recebeu decoração estampilhagem aplicada a aerógrafo no mesmo tom de azul mais carregado, cor que realça igualmente, em esfumado, os pés e a pega. No fundo da base, carimbo azul Lusitânia – Coimbra.
Data: c. 1930-35
Dimensões: Comp. c. 22,2 cm x larg. c. 11,5 cm x alt. c. 16 cm


quarta-feira, 27 de maio de 2015

Ainda a propósito do serviço de café art déco verde da Vista Alegre

O modelo da Vista Alegre anteriormente apresentado é, evidentemente, importado. Como nenhum dos nossos seguidores nos disse nada, decidimos desvendar o mistério…


Trata-se da forma «Regent» desenhada por Eric Slater para a inglesa Shelley Potteries e aí produzida a partir de 1932.

Como se pode ver na fotografia (lamentamos a má qualidade da imagem, mas ao ocupar duas páginas não é fácil reproduzi-la), o açucareiro e a manteigueira da versão portuguesa nada têm a ver com o modelo original.

Na obra de onde retirámos a fotografia é referido que as asas têm sido comparadas a metade de um par de tesouras. Não podemos estar mais de acordo. Refere ainda que o modelo foi buscar inspiração a peças do século XIX, o que não deixa de ser interessante ao olharmos para a manteigueira da versão da Vista Alegre de claro gosto oitocentista.

sábado, 23 de maio de 2015

Serviço de café art déco de cor verde – Vista Alegre


Serviço de café, art déco, para 6 pessoas, de porcelana moldada, de base branca com pintura exterior a verde, aplicada a aerógrafo, e com apontamentos manuais a ouro nos bordos e nas asas e pegas, em reserva a branco, tal como os interiores. Composto por cafeteira, açucareiro, leiteira, manteigueira e chávenas com respectivos pires, as pegas das tampas são circulares, repetindo-se nas pegas laterais acrescidas de um reforço, lembrando uma vírgula. Excepção são as asas do açucareiro, em forma de espátula estriada, e a pega da manteigueira. No fundo da base, carimbo verde V.A. Portugal (marca nº 31 - 1924-1947).
Data: c.1930
Dimensões: Variáveis



Em nossa opinião trata-se de um conjunto pouco coerente, apesar de moderno na sua gramática art déco, que parece ter resultado da colagem de elementos retirados de vários modelos, muito provavelmente importados. Se a cafeteira, a leiteira e as chávenas, apresentam as mesmas características formais, já as asas do açucareiro subvertem essa coerência. Quanto à manteigueira, embora tenha sido adquirida como parte do todo, ou não fazia parte deste serviço, ou então a sua forma, sobretudo a pega, e mesmo a decoração, com as suas listas brancas debruadas com filete a ouro, são uma incongruência, demasiado agarradas a modelos oitocentistas. 

Em Portugal recebeu a designação de formato «Liverpool». Surge ainda ilustrado no catálogo de serviços «Porcelanas Portuguesas Vista Alegre. Fábrica de Porcelana da Vista Alegre, Lda», posterior a 1947





sexta-feira, 1 de maio de 2015

Chávena de serviço de café art déco “marmoreada” – Formato Estoril - Sacavém


Em 10 de Outubro de 2014 debruçámo-nos sobre o modelo que a Fábrica de Loiça de Sacavém baptizou como «formato Estoril» decorado com o motivo nº 933, composição geométrica linear produzida em sete combinações cromáticas diferentes. Teremos oportunidade de mostrar mais algumas.

Todavia, hoje trazemos uma decoração menos comum em que a peça – dispomos apenas de uma chávena com respectivo pires – é marmoreada.


Sobre a cor rosada pálida de base foi aplicada a estampilha e aerógrafo uma decoração marmoreada a castanho-avermelhado. Esta preenche o bojo ovoide da chávena e covo e aba do pires. A asa lateral ondulada e pé da chávena são uniformemente preenchidos a castanho-avermelhado e o bordo da aba do pires recebeu, em espelho, como pegas onduladas, apontamento trilobado a cheio na mesma cor. No fundo da base do pires, carimbo verde «Gilman & Ctª / Sacavém / Portugal».. Inscrito na pasta, «52 B» «4-40» e algo mais, ilegível. No fundo da base da chávena apenas carimbo verde com «L».
Data: c. 1935
Dimensões: Pires: Ø 10,8 cm x alt. 1,5 cm;
Chávena: alt. 6 cm x larg. c/ asa 7,5 cm


Lembramos que na génese deste formato está um modelo de serviço de chá editado por Robj, em França, c. 1930, fabricado pela Villeroy & Boch – Luxemburgo, e reproduzido em Portugal pela Vista Alegre. Porém, é a versão deste modelo, em serviço de café, forma 1246, da inglesa Carlton Ware que Sacavém vai produzir. 

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Jarra art déco com asas – Vista Alegre


Jarra art déco de porcelana moldada de bojo esférico achatado e colo alto e estreito com duas asas. Sobre a porcelana vidrada branca, em reserva junto ao bocal e em parte da decoração, foi aplicado, a aerógrafo, um fundo laranja-forte, que recebeu uma composição raiada a negro e cachos de flores estilizadas, formadas por círculos concêntricos que cingem a zona de estrangulamento pendendo sobre o bojo. Bocal com pinceladas irregulares, descendentes, a ouro, sobre branco. No fundo da base carimbo verde V.A. Portugal. Pintado à mão, a preto, «26» e inscrito na pasta, também à mão, 14-51 (?).
Data: c. 1930 - Marca nº 31 (1924-1947)
Dimensões: Alt. 12 cm x Ø 12 cm




Trata-se de um modelo da fábrica de porcelana da Vista Alegre, de 1921, próximo de formas estrangeiras ainda Arte Nova, com uma decoração de flores circulares concêntricas que remetem para os círculos órficos de Robert e Sónia Delaunay, de cores fortes e contrastantes, patente em pinturas como «A Portuguesa» ou «Mercado do Minho», e igualmente presentes em obras de Eduardo Viana e mesmo de Amadeo de Sousa-Cardoso.


Flores próximas desta tipologia, embora numa paleta cromática menos carregada, aparecem-nos em outras peças da Vista Alegre, caso da jarra ilustrada em 28 de Março de 2013, que como tivemos mais tarde oportunidade de referir encontram o seu referencial em obras de E. Margerie, editadas por P. Bastard (ver jarra postada em 20 Agosto do mesmo ano). Muito provavelmente estaremos, uma vez mais, perante uma decoração, se não importada, pelo menos inspirada em motivos internacionais, sobretudo franceses.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Escultura “Carpa” - Aleluia - Aveiro



Peça de faiança moldada, em forma de peixe (carpa) saltando das águas que lhe servem de pé, de cor creme com aguadas a castanho e azul, cores que acentuam as áreas relevadas. No fundo da base, pintado à mão, a azul, «885» «Aleluia».
Data: c. 1945 - 55 [ver comentário de CMP]
Dimensões: Alt. 15,5cm x Comp. 14 cm x larg. 9,5 cm



Forma claramente inspirada nas célebres «carpas de Tóquio», motivo frequente em muitos dos tecidos, gravuras, bronzes, cerâmicas japoneses que começaram a chegar à Europa a partir do último quartel do século XIX.


O tema das carpas, na sua agitação frenética, saltando e nadando contra a corrente, agradou a muitos artistas ocidentais. O japonismo de então, que tanto influenciou a Arte Nova europeia e de que a «Maison Bing» foi a grande divulgadora, vai prolongar-se no tempo, adaptando-se a novas estéticas.

Mostramos alguns exemplos desta permanência e evolução, da Arte Nova da jarra de vidro de François-Eugène Rousseau, passando pela cerâmica de Alfred Renoleau ou, a já ao gosto art déco, de E. Gazan e, finalmente, esta versão barroquizante da Aleluia-Aveiro.




domingo, 12 de abril de 2015

Jarra art déco gomada helicoidal - Rambervillers Cythère – França


Jarra de grés flammé, de forma tendencialmente esférica, relevada em 16 “gomos” dispostos helicoidalmente. Sobre a cor azul escorridos esverdeados e acastanhados, irisada e com lustre. No fundo da base, inscritos na pasta, carimbos «Cythère» e, em cartela lanceolada, «Unis France», assim como «5»(?) e «U»(?) (marcas do artista?).
Data: c. 1930 (marca 1920 a 1931)
Dimensões: Alt. 19 cm x Ø c. 21 cm


No inventário de 1931, posto em catálogo no mesmo ano, informa-nos que se trata do modelo 660, referenciado na página 3, com uma altura de 215 mm.

Esta jarra integra-se dentro da mesma linha da peça que postámos em 13 de novembro de 2013, igualmente de esmalte azul de reflexos metálicos à base de óxido de cobalto, dentro da linha renovada art déco da Société de Rambervillers.

São peças curiosas estas da Cythère. As suas superfícies têm o aspecto de desperdícios industriais derramados sobre água. Como quando entramos numa oficina de carros e à tona dos líquidos que alastram pelo chão só vemos os reflexos de brilhos oleosos e irisações várias do derrame de gasolina ou gasóleo. São a cristalização poética e bela da poluição industrial, de uma ideia de progresso que se veio a revelar catastrófica para o ambiente. Felizmente aqui inócua e reduzida a um mero objecto estético.


domingo, 5 de abril de 2015

Jarra esférica da série “Solbjerg” – Aluminia (Dinamarca)


Mais uma peça da série “Solbjerg”, criada por Nils Thorsson, na década de 1930, para a Aluminia, do grupo Royal Copenhagen. Tal com já escrevemos (ver post de 28 de Novembro de 2011), a modernidade e o sucesso do design da série levaram a que a mesma fosse mantida em produção de 1935 a 1969. A jarra de hoje, embora art déco no estilo e data de concepção, é da fornada de 1961, dado apresentar um «u» sob o r de Denmark.


Jarra esférica de faiança moldada com decoração incisa, de motivos geométricos estilizados que remetem para uma representação vegetalista, ao gosto art déco dinamarquês, recoberta uniformemente com esmalte translúcido, cinzento-creme acetinado, conhecido por vellum, como se de uma velatura se tratasse, realçando e adoçando o traço subjacente. Interior castanho-escuro. Toda a superfície é suavemente craquelé. No fundo da base carimbo castanho com A, triplamente traçado (de Aluminia), Denmark, e «u» sob o r. Carimbo a azul 1567 (Decor), número que aparece igualmente inscrito na pasta.
Data: c. 1935
Dimensões: Alt. c. 11 cm x Ø c. 12 cm


sexta-feira, 3 de abril de 2015

Escultura art déco «Adagio» – Hutschenreuther - Alemanha


Escultura art déco de porcelana moldada, de cor branca com apontamentos a ouro na base. Representa um homem, sentado sobre um cepo de árvore, que toca violino e uma mulher igualmente sentada, a um nível inferior, no solo. O conjunto assenta sobre uma base oval escalonada em três níveis com realces a ouro. Atrás da figura masculina, inscrito na pasta, C. Werner. No fundo da base, carimbo verde com leão «Hutschenreuther, Selb Bavaria, Abteilung für Kunst»
Data: c. 1927 (carimbo 1920-1938)
Dimensões: Alt. 21 x comp. 23 x larg. 14,5 cm


Trata-se do modelo nº 0906/1 do catálogo de 1927, pág. 33, da fábrica alemã Hutschenreuther, da autoria de Carl Werner, intitulada «Adagio».

Versão art déco de uma cena galante setecentista, com ecos das porcelanas de Meissen de então, a peça escultórica é de uma fragilidade extrema. Elegantes e mundanas, as personagens parecem envergar trajes de cena. A teatralidade da representação é realçada pela depuração e pelo amaneiramento das formas, estilizadas e tendencialmente geometrizadas, a que as mãos, de enfática modelação, acrescem ainda maior intensidade ao movimento barroco de toda a composição. Diríamos estar perante uma peça que é um meio-termo entre duas expressões escultóricas e estéticas do Art Déco germânico dos anos 20: o neo-barroco extremado de Paul Scheurich (1883–1945), para Meissen e KPM, e a estilização moderna de Gerhard Schliepstein (1886-1963), para Rosenthal.

O ritmo lento da música, já que se trata de um adágio, acentua a delicadeza desta cena intimista, em que à concentração do músico correspondem os gestos graciosos da mulher que provavelmente canta.


Carl Werner (1895-?) nasceu em Rudolstadt, na Turíngia. Trabalhou sob a orientação de seu pai, entre 1910-1914, na fábrica de porcelana de Aeltesten Volkstedter. Depois da Primeira Guerra Mundial estudou na Kunst-Hochschule de Weimar. De 1922 a 1960 trabalhou como escultor e director técnico do departamento de arte da fábrica de porcelana Lorenz Hutschenreuther.

Especialista no movimento e na expressividade do corpo humano, o seu talento, enquanto escultor, muito contribuiu para o reconhecimento internacional da produção artística da fábrica.


Comprámo-la há alguns anos em Berlim, na Suarezstrasse, artéria onde se concentram antiquários de vários géneros. E não hesitámos entre uma versão monocroma branca, que encontrámos numa das lojas, e esta, com subtis apontamentos a ouro, que descobrimos noutro estabelecimento próximo.

Transportá-la para Portugal é que se revelou complicado dada a fragilidade da peça. Mas são estes pequenos episódios que tornam as férias ainda mais interessantes.