domingo, 11 de janeiro de 2015

Jarra com cisnes – Aleluia-Aveiro


Jarra de faiança moldada de forma ovoide com decoração estilizada, tricolor, a creme, amarelo-torrado e preto, estampilhada com apontamentos à mão. Um conjunto, que se repete duas vezes num contínuo que envolve o bojo, de três cisnes brancos (cremes com apontamentos a castanho nas penas e bico), voa sobre mar estilizado às listas e nuvens pretas que se recortam num céu amarelo-torrado. No fundo da base, carimbo preto Aleluia-Aveiro, sobrepujando «Fabricado Portugal» inscrito num rectângulo e «E» (?) pintado à mão a preto. Carimbos a preto «Made in Portugal» e «Hand Painted». Pintado à mão, a preto, «17-I»
Data: c. 1935 - 45
Dimensões: Alt. 18 cm


Nesta composição, os cisnes voam num céu dourado de um entardecer ou de um alvorecer pejado de nuvens pesadas. Partem ou regressam ao local onde pernoitam em bando, por oposição à solidão do par de cisnes presente na jarra da Royal Copenhagen anteriormente postada, mas cuja filiação não deixa de ser evidente.


Não há qualquer simbolismo associado a esta composição graficamente estilizada, antes uma mera composição decorativa, de cores planas, apesar dos apontamentos das penas, que se integra numa estética Art Déco comum na produção da fábrica Aleluia-Aveiro. A jarra figura ilustrada na terceira página do Catálogo de loiças decorativas dos anos 40, que se reproduz, como sendo o modelo nº 17-I.


O cisne não faz parte da fauna lacustre associada à Ria de Aveiro. Em países do sul é utilizado como ave ornamental, dando exotismo e sofisticação a lagos de jardins em contexto urbano.

Outrora abundantes nos lagos de jardins lisboetas, os cisnes foram hoje infelizmente substituídos por patos-mudos de capoeira em quase todo o lado.

Ainda nos lembramos com saudade das diferentes espécies de cisnes brancos do hemisfério norte que, coabitando com cisnes negros australianos e cisnes de pescoço preto sul-americanos traziam refinamento aos jardins da Lisboa provinciana de então, da Avenida da Liberdade ao Campo Grande, da Estrela ao Campo Mártires da Pátria... Veículos de variedade e encantamento maravilhavam crianças e adultos. Pena que a agressividade da vida urbana seja argumento para o seu desaparecimento. É triste ver os abrigos preparados para essas aves ora ocupados pelos seus parentes menos nobres ora vazios. Como contar a estória do Patinho Feio e fazê-la compreender a uma criança que nunca viu um cisne a nadar majestosamente num lago?

sábado, 10 de janeiro de 2015

Jarra com cisnes da Royal Copenhagen - Dinamarca


Jarra de forma ao gosto Arte Nova, de porcelana moldada, com decoração policroma naturalista japonizante, em tons pastel, pintada à mão. Sobre uma paisagem costeira, com mar calmo e céu nublado, envolvendo a totalidade do bojo, voam dois cisnes brancos. No fundo da base, carimbo verde, com coroa, da "Royal Copenhagen”, sobre três ondas a azul pintadas à mão. Também a verde, pintados à mão, nºs 1973 (decor) e 1217 (forma/modelo) e, a azul, 168 (nº do pintor).
Data: 1912-1923 (Marca c. 1889 – 1923)
Dimensões: Alt. 25.25 cm


Estamos em crer que se trata de uma forma criada por Arnold Krog, em 1894, de quem já mostrámos outros modelos, dado ser idêntica à nº 108, de menores dimensões, concebida por este criador, e a cuja informação tivemos acesso.

O nº 168 informa-nos que se trata de uma peça pintada por H. Henrichsen, artista activo na fábrica Royal Copenhagen de 1912 a 1923.

Pegando num dos temas queridos e tão característicos dos romantismos nacionais nórdicos, que utilizam como motivos a flora, a fauna e as paisagens locais, a composição centra-se numa das faces da jarra. A paisagem retratada, ampla, solitária e melancólica, corresponde à melancolia do voo majestoso e solitário dos cisnes na amplidão do céu, ressoando ecos do Simbolismo.

Sobre um céu melancolicamente manchado de nuvens cinzentas, de um alvorecer ou anoitecer, destaca-se a mancha branca do par de cisnes voando. Na linha do horizonte, fechando um mar azul e plúmbeo, uma costa deserta e coberta de bosques.

Como tantos outros anatídeos nativos do norte da Europa, partes integrantes da paisagem e do quotidiano dos países escandinavos, o cisne é abundantemente representado na produção da fábrica.


sábado, 3 de janeiro de 2015

Taça-bilheteira anos 50 - Aleluia - Aveiro


Taça-bilheira trípode de faiança moldada, de forma irregular dentro das freeforms, tendencialmente triangular de cantos arredondados. Os pés são piramidais, de secção triangular, com uma das arestas boleadas. De cor preto-mate, recebeu decoração estampilhada na parte interior num tom de rosa-velho, ficando em reserva, a preto, uma sequência de linhas curvas, concêntricas, em cerca de metade da superfície. No lado oposto, as linhas curvas paralelas e transversais às primeiras foram pintadas à mão a laranja-forte. No fundo da base, carimbo branco Aleluia-Aveiro e Fabricado em Portugal inscrito num rectângulo. Pintado à mão, à ouro, «x-635–c».
Data: c. 1955
Dimensões: Comp. 24,5 cm x larg. 14 cm x alt. 6 cm



A sinuosidade da forma da taça, uma bilheteira, é reforçada pelo movimento do grafismo óptico das linhas fortemente contrastantes a preto e laranja. Trata-se do modelo 635 e da decoração c, ou seja, a terceira da série.


Quanto a nós remete para uma interpretação estilizada de certos modelos de cadeiras pré-colombianas, como por exemplo as da cultura taina, tribos de povos que habitavam as Antilhas aquando da chegada dos europeus. Quanto à decoração, evoca ancestrais grafismos lineares de raiz pré-histórica.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Taça art déco Primavera - Longwy - França


Taça de faiança moldada, esmaltada a azul-forte craquelé, em forma de calote, assente sobre pé cilíndrico, com decoração vegetalista estilizada art déco, segundo a técnica do “relevo contornado” ou corda-seca em tons de creme e castanho. O covo é preenchido por círculo creme com composição floral de cor creme-amarelado complementada por folhagem castanha. Quatro árvores, de ramagens pendentes, com frutos e flores, iguais duas a duas, ritmam a superfície exterior. Pé seccionado por linhas onduladas a castanho. Bordo e pé circundados por anel preto. No fundo da base, carimbo circular preto, com escudo e coroa, Primavera – Longwy – France.
Data: c. 1920-30
Dimensões: Ø 24 cm x alt. 11 cm



A taça, certamente uma fruteira, é de um azul-escuro mais carregado do que a fotografia nos mostra. O grafismo art déco, quase sempre vegetalista e/ou zoomórfico, da decoração das peças concebidas pelo atelier de arte Primavera e produzidas na Fábrica de Faiança de Longwy é facilmente reconhecível pelo tipo de estilização, por vezes geometrizada. Não sendo uma peça de um dos grandes decoradores, os únicos a assinarem peças, trata-se de uma estilização muito própria que encontramos em várias composições criadas por esse atelier dos grandes armazéns Printemps, em Paris.



domingo, 28 de dezembro de 2014

Jarra art déco com fetos – Thauraud - França


Jarra art déco de porcelana moldada, de forma bulbosa, esmaltada a azul-claro mosqueado com decoração de fetos em tons de azul mais escuro com a nervura central das folhas esverdeada. O esmalte é espesso formando relevo dando um efeito de camafeu. Bocal estreito subtilmente esverdeado. No fundo da base, carimbo azul «CTharaud» e carimbo verde «France-CT-Limoges». Inscritos na pasta, h (?) e j.
Data: 1930-45
Dimensões: Alt. 15,5cm x Ø diâm. máx. 19cm
  

Trata-se do modelo “Chardon" e os carimbos datam-na entre 1930 e 1945.

Na produção de Camille Tharaud (1878-1956), o motivo «fetos» é um dos que melhor ilustra a transparência e espessura dos seus esmaltes tão específicos. Conferem às peças uma ilusória profundidade visual e táctil. As folhas, ora plenamente abertas ou desenrolando-se em espiral, dispostas em camadas, são de um desenho solto e esquemático, mas simultaneamente realista. Recorda-nos uma feteira que alvorece envolta em neblina e nós, observadores, somos pequenos animais silvestres que despertam perante uma natureza esboçada.


sábado, 27 de dezembro de 2014

Boleira art déco com motivos vegetalistas bicromos - Lusitânia - Coimbra


Em 28 de Fevereiro de 2013 postámos uma caixa (boleira) art déco da unidade fabril de Coimbra da Fábrica Lusitânia do mesmo modelo que hoje apresentamos com outra decoração.
Sobre a cor uniforme esverdeado-pálido, mate, esta versão recebeu nas duas faces principais uma composição vegetalista estilizada, estampilhada e aerografada, a castanho e verde. Nas faces laterais e tampa outra composição de menor escala, igualmente vegetalista e com as mesmas cores. O bordo inferior da tampa é realçado frontalmente por ondeado a castanho. Tanto a pega como os pés são aerografados a verde. No fundo da base, carimbo verde Lusitânia FLCL – Coimbra – Portugal
Data: c. 1930-35
Dimensões: Comp. c. 22,2 cm x larg. c. 11,5 cm x alt. c. 16 cm



O grafismo dos motivos vegetalistas estilizados remete-nos para o eixo Áustria-Alemanha, com ressonâncias simplificadas do neo-rococó de Dagobert Peche (1887 – 1923) artista que muito vai influenciar a art déco germânica


sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Bilheteira art déco com figuras grotescas – Karlsruhe - Alemanha

Na sequência das peças de Karlsruhe que temos vindo a postar, hoje mostramos mais uma igualmente refinada bilheteira de Helmut Uhrig.


Bilheteira art déco, de faiança moldada, composta por taça circular, preto mate, com relevo espiralado no fundo, suportada por três pés antropomórficos. As figuras, grotescas, apresentam faces com olhos e bocas vazados, cor de laranja forte (uralite). No fundo da base de um dos pés, em relevo, carimbo da fábrica Karlsruhe, com coroa. Esgrafitado à mão, no fundo da taça, «3291/84» (número de modelo e decor). Selo da loja onde terá sido vendida: «J. F. Maercklin – Stuttgart» e, escrito à mão, «620/679».
Data: c. 1930
Dimensões: Ø c. 33,8 cm x alt. 9 cm
  


A taça, despojada e sóbria, apoia-se sobre três pés, representando figuras ajoujadas sob o seu peso. Se numa parece ser evidente a influência da Grécia Antiga, visto assemelhar-se a uma máscara de teatro da Antiguidade, já as outras tanto podem remeter para as criaturas disformes de capitéis e gárgulas medievais, como fazem lembrar a cerâmica pré-colombiana. Estas figuras são de grande qualidade escultórica.


domingo, 14 de dezembro de 2014

Caixa art déco aerografada modelo «Drossel» - Carstens Gräfenroda - Alemanha


Caixa de faiança moldada, de cor branca com decoração aerografada a castanho. Taça em forma de pirâmide invertida, de três lados ligeiramente convexos, cujo vértice assenta sobre pé circular saliente. Tampa triangular com pega de igual forma. No fundo da base, carimbo preto, em forma de escudo, com a inscrição «Carstens» e «C G» sobrepujado por «Gräfenroda». Carimbos igualmente a preto «Dec 24», «0» «6» e «34»
Data: 1931
Dimensões: Alt. 9 cm x larg 9,5 cm


Trata-se de uma caixa decorativa (zierdose), que tanto poderia ter a função de bomboneira como de açucareiro. Forma moderna bauhasiana em que a decoração estampilhada aerografada, muito linear, dá ritmo e profundidade às superfícies lisas.


No catálogo da firma Carstens Gräfenroda de Junho de 1931 aparece identificada como sendo o modelo «Drossel» e a decoração nº 24. Haveremos de postar mais algumas peças aí apresentadas.


segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Caixa com caracol nº 27-G – Aleluia – Aveiro


Mais um exemplar da caixa art déco modelo nº 27 com tampa com pega em forma de caracol, desta vez com a decoração «G», tal como aparece identificado no Catálogo de loiças decorativas das Fábricas Aleluia. Aveiro.



Como no exemplar anteriormente postado, o caracol-pega pousa sobre círculo preto. Na decoração estampilhada a castanhos, aguada de cinzento e preto sobre o fundo creme com apontamento à mão, sobressai o friso que cinge a parte superior do bojo, seccionado por oito rectângulos separados por tracejado a preto. Quatro deles, de fundo aguado a cinzento, ostentam graficamente reproduzido o caracol tridimensional da pega, que intercalam com os restantes quatro, de fundo preto, decorados por quartos de flor com pétalas em tons de castanho e folhas, estilizados ao gosto art deco.
No fundo da base, pintado a preto, à mão, «Aleluia Aveiro» e «G».
Data: c. 1935 - 45
Dimensões: alt. 6 cm x larg.10 cm



domingo, 7 de dezembro de 2014

Ampara-livros art déco “Elefante” - Sacavém


Par de ampara-livros art déco, de faiança moldada, em forma de elefante emergindo da floresta e jorrando água pela tromba, vidrado a cor-de-laranja forte (uralite). Lateralmente no soco, inscrito na pasta, Gilbert Sc [Sculpcit]. No fundo da base carimbo oval «Made in Portugal» a castanho (?). Inscrito na pasta «SACAVEM» «HI 52», num deles acrescido de «X».
Data: c. 1930 - 35
Dimensões: Alt. 15,4 cm x comp. 10 cm x larg. 7 cm


O animal, um jovem, jovial e um tanto irónico elefante indiano, emerge parcialmente do meio da folhagem estilizada de uma selva pantanosa que se intui, claramente divertido com a água que faz jorrar da tromba.


Trata-se de mais um ampara-livros de temática animalística do escultor inglês Donald Gilbert (1901-1961) produzido, à semelhança das demais esculturas que temos vindo a apresentar deste artista, para a Fábrica de Loiça de Sacavém (FLS). Não conhecemos nenhum dos seus modelos feitos nesta fábrica a ser produzido no Reino Unido. 

O facto de ser sobrinho de Herbert Gilbert (1878 -1962), que entrara como sócio da FLS em 1921 e que foi “o grande impulsionador (…) nos anos 30 e nos difíceis anos da Segunda Guerra Mundial” (v. MAFLS), estará na origem destas encomendas de grande qualidade plástica.


A cor monocroma laranja vivo foi aplicada a aerógrafo. Haveremos de postar outras variantes cromáticas. Entretanto podem ver uma versão em castanho também em MAFLS.

Tanto pelo tema como pela gramática estilizada, este ampara-livros remete-nos, estamos em crer, para o exótico que a Exposição Colonial de Paris de 1931 reforçou nas representações art déco produzidas nessa década.


domingo, 30 de novembro de 2014

Bilheteira com cães de fo – Karlsruhe - Alemanha


Taça art déco de faiança moldada (barro vermelho), com vidrado craquelé. A parte superior, em forma de calote esférica, de base branca com bordo preto de manganês, é circundada, no interior, por lista azul-claro seguida de amarelo-pálido, ambas aguadas, ficando o covo a branco. As mesmas cores encontram-se na base que repousa sobre três animais com olhos e bocas vazados, lembrando cães de fo (símios ou criaturas míticas ou grotescas) no mesmo tom de azul mais carregado com apontamentos a preto de manganês e reservas da matéria base, o barro vermelho, sob vidrado. No fundo do pé, inciso na pasta, carimbo da fábrica Karlsruhe, com coroa, e carimbo preto «3220» [modelo] «Germany». Também inciso na pasta «23».
Data: 1932 
Dimensões: Larg. 28,5 cm x alt. 12 cm


Trata-se de uma bilheteira do escultor e ceramista, Christian Heuser, nascido em 1897 em Aschaffenburg, produzida de 1932 a 1935.

Heuser estudou nas escolas de artes aplicadas de Partenkirchen e de Munique e na Academia de Artes Aplicadas desta cidade. Por volta de 1930 cooperou com a Manufactura de Cerâmica de Karlsruhe. Entre a sua diversificada produção destacam-se os trabalhos de cerâmica que fez para a principal estação de caminhos- de-ferro de Frankfurt am Main.


Tal como Matha Katzer ou Paul Speck, de quem já apresentámos peças, Heuser é bem um exemplo da tensão entre a teoria propugnada pela Bauhaus, em 1919, e os reajustamentos a que as necessidades da produção industrial obrigaram.
A produção em série de cerâmica utilitária da Bauhaus começou nesse mesmo ano com o ideal de um regresso ao artesanato. Tal como num atelier medieval, a arte era vista como extensão do engenho e resultado de uma união de esforços.
O atelier cerâmico da Bauhaus começou assim em Dornburg, com o objectivo declarado de um renascimento da antiga artesania. No entanto, em 1922, pôs-se em questão este desiderato e reconheceu-se que a indústria, com as novas técnicas poderia melhorar a produção e aumentar as vendas. A partir de então, e não esquecendo os seus princípios, vai reorientar-se no sentido de uma cooperação prática com a indústria.

Nicola Moufang, então director da Karlsruher (1921-1928) segue também neste sentido e, somente por questões económicas, vai promover a produção industrial de cerâmica utilitária. Tornava-se evidente que a criação artística teria que ser diferente da utilizada na olaria tradicional. Novos moldes adaptados a novas tecnologias tinham que ser concebidos indo ainda de encontro aos novos gostos estéticos tanto modernistas como art déco.


Os modelos criados vão receber uma publicidade adequada à época. Assim, nos folhetos promocionais da fábrica aparece um novo conceito: “Fröliche Sachlichkeit”, ou seja, “Objectividade feliz” sendo que objectividade era o novo design que se traduzia em formas práticas e sóbrias e na ulização de um número restrito de esmaltes. Feliz, pelo emprego de cores ténues.

O objectivo era, nas palavras dos publicitários, propor um “artesanato seminatural, sem naturalismos ultrapassados”. Como se vê, esta formulação mostra bem a tensão entre a tradição artesanal e a nova maneira simplificada de trabalhar.
A bilheteira que hoje apresentamos –“bilheteira com forma refinada”- na publicidade de então, é bem um exemplo do que anteriormente escrevemos.



domingo, 16 de novembro de 2014

Caixa com caracol nº 27-J – variante 2 - Aleluia - Aveiro


Caixa art déco de faiança moldada, redonda e achatada, com decoração manual estampilhada pintada à mão em tons de castanho e preto sobre fundo creme. A tampa tem pega em forma de caracol que pousa sobre círculo preto. Na parte superior do bojo, três grelhas intercalam com igual número de composições vegetalistas com flores estilizadas em espiral. A parte inferior do bojo, sem decoração, é apenas enquadrada por faixa franjada, na transição com a parte superior, e filete preto junto ao pé. No fundo da base, carimbo preto «Aleluia Aveiro» sobrepujando «Fabricado Portugal» inscrito num rectângulo. Pintado à mão, a preto, 27 – J.
Data: c. 1935 - 45
Dimensões: alt. 7 cm x larg.10 cm


Do modelo nº 27 mostrámos anteriormente uma versão com decoração a verde cuja letra correspondente não pudemos apurar, dada a página do Catálogo de loiças decorativas das Fábricas Aleluia. Aveiro, que temos digitalizado, estar truncada. Como a peça também não o menciona, só mesmo um auxílio dos leitores nos poderá fornecer esta referência. A peça de hoje não só ostenta todas as indicações como aparece devidamente identificada no referido catálogo como sendo a nº 27 – J (modelo e decoração) mal-grado a fotografia da mesma estar cortada…

Pelo contexto decorativo desta caixa, assim como de outras que haveremos de ilustrar, depreende-se, desfazendo a dúvida anteriormente levantada, que o caracol da pega pretende representar uma espécie de gastrópode terrestre, apesar da casca nada ter de realista, com o espiralado em simetria, como então referimos. Alertamos para a decoração da tampa deste exemplar, porque ou não lhe pertencia ou então estaremos perante uma variante (propositada ou fruto de acaso?) talvez mais tardia (precisamos saber em que data se começa a utilizar o carimbo que ostenta). Para mais, é um pouco mais alta, porque o caracol é maior, que as restantes variantes que possuímos. Voltaremos a este assunto.


A decoração da parte superior do contentor é particularmente interessante, dado manter uma tradição que aparece recorrentemente no azulejo setecentista, sobretudo a partir de c. 1740: a representação em trompe l’oeil de grades metálicas que, neste caso, dão uma leitura visualmente tripartida à peça. Grades de um jardim imaginário, entre elas observamos pares de flores graficamente estilizados dentro da gramática art déco.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Jarra com cristalizações verde – Alfred Renoleau - França

Hoje o blogue completa 3 anos de existência. Nem sempre temos sido constantes como gostaríamos, sobretudo neste último ano, mas vamos fazendo os possíveis para o manter sem descer excessivamente o nível.

Escolhemos para comemorar o aniversário uma jarra de que gostamos muito, não só visualmente, mas também pela matéria: o grés. Para além das texturas que tal cerâmica possibilita, agrada-nos o peso das peças, maciças e compactas. Um prazer para o tacto e para a visão.


Jarra de grés, modelada (?) em forma de balaústre, quase inteiramente coberta de cristalizações, predominantemente a verde-claro, parcialmente aureoladas a castanho-escuro na área onde sobressai, em reserva, a cor verde-olivina mosqueada de fundo. Bocal e interior beige acinzentado brilhante e liso. No fundo da base, inscrito na pasta, à mão, ARenoleau e A [Alfred Renoleau - Angoulême].
Data: c. 1910
Dimensões: Alt. 25,5cm


Alfred Renoleau (1854-1930) nasceu em Mansle na Charente, filho de um barbeiro-cabeleireiro e, tal como era tradição na época, estava destinado a suceder-lhe no negócio.

Contrariando a vontade dos pais foi sobretudo como autodidata que aprendeu, desde cedo, a arte de ceramista.

Tal como tantos outros da sua época, imbuídos de espírito romântico (pensemos em Rafael Bordalo Pinheiro, por exemplo), apaixonou-se pela arte de Bernard Palissy (c. 1510-c.1590), vindo a ser um dos mais conhecidos ceramistas do século XIX influenciados pelo artista francês do Renascimento. Em paralelo produzia também faiança tradicional decorativa e utilitária.

A sua mestria nas peças à maneira de Palissy foi plenamente reconhecida em Londres onde expõe em 1888. Este sucesso vai despertar o interesse de uma grande empresa - Grandes Tuileries de Roumazières - que o contrata como ceramista-modelador. O contrato vai durar dois anos, de 1888 a 1890.

A empresa, aliás como toda a França, queria celebrar condignamente o centenário da Revolução Francesa no prosseguimento da renovação nacional a fim de preparar a “vingança” contra o Império Alemão e recuperar a Alsácia-Lorena ocupada. Contrata assim o “artista-modelador” para participar na Exposição Universal de Paris de 1889 com tal sucesso que ganha uma medalha de ouro. Renoleau é também premiado com uma medalha de bronze a título individual pelas suas peças à maneira de Palissy que produziu até ao fim do século XIX quando os gostos mudaram.

Em 1891 muda-se para Angoulême para onde vai trabalhar como artista cerâmico, e no ano seguinte é contratado como professor de modelagem da École départementale d’Apprentissage.

Três anos depois, em1895, funda a Faïencerie d’Art d’Angoulême, que vai dirigir até à sua morte em 1930. A empresa continuará sob a direcção do seu sobrinho e, de algum modo, chegará até hoje, visto os seus descendentes continuarem a criar e a trabalhar a cerâmica.

Todavia, não é o tipo da produção descrita que nos motiva. A abertura do Japão ao mundo nos anos de 1860, vem renovar no Ocidente o gosto pelo grés. O fascínio pelas peças japonesas de formas depuradas em que a ornamentação se reduzia aos sumptuosos esmaltes que cobriam as superfícies levou os artistas, sobretudo europeus, a tentarem desvendar os seus segredos.

Fascinado pelo que viu na exposição de 1878, que já referimos em post anterior, Jean Carriès criou magníficas peças de grés e rodeou-se de discípulos que continuaram a sua obra. Sèvres irá aperfeiçoar a técnica dos esmaltes cerâmicos durante a administração de Alexandre Sandier (de 1897 a 1916) ao obter o desenvolvimento de cristalizações na superfície do esmalte.


A tudo isto não ficou indiferente Renoleau. Em 1902 vendeu uma casa que possuía e com o dinheiro obtido construiu um forno apropriado para dar aplicação prática às suas experiências na cozedura de peças de grés. Podia, enfim, a par do negócio da sua empresa cerâmica, criar objectos de grande modernidade e qualidade artística. Os seus greses de formas depuradas vão cobrir-se de escorridos ou de cristalizações que rivalizam com os dos maiores artistas da época. A jarra de hoje mostra bem o talento do artista, como sempre se considerou, dado rejeitar ser tratado como artesão e considerar a cerâmica como arte maior à maneira do Oriente.