domingo, 7 de dezembro de 2014

Ampara-livros art déco “Elefante” - Sacavém


Par de ampara-livros art déco, de faiança moldada, em forma de elefante emergindo da floresta e jorrando água pela tromba, vidrado a cor-de-laranja forte (uralite). Lateralmente no soco, inscrito na pasta, Gilbert Sc [Sculpcit]. No fundo da base carimbo oval «Made in Portugal» a castanho (?). Inscrito na pasta «SACAVEM» «HI 52», num deles acrescido de «X».
Data: c. 1930 - 35
Dimensões: Alt. 15,4 cm x comp. 10 cm x larg. 7 cm


O animal, um jovem, jovial e um tanto irónico elefante indiano, emerge parcialmente do meio da folhagem estilizada de uma selva pantanosa que se intui, claramente divertido com a água que faz jorrar da tromba.


Trata-se de mais um ampara-livros de temática animalística do escultor inglês Donald Gilbert (1901-1961) produzido, à semelhança das demais esculturas que temos vindo a apresentar deste artista, para a Fábrica de Loiça de Sacavém (FLS). Não conhecemos nenhum dos seus modelos feitos nesta fábrica a ser produzido no Reino Unido. 

O facto de ser sobrinho de Herbert Gilbert (1878 -1962), que entrara como sócio da FLS em 1921 e que foi “o grande impulsionador (…) nos anos 30 e nos difíceis anos da Segunda Guerra Mundial” (v. MAFLS), estará na origem destas encomendas de grande qualidade plástica.


A cor monocroma laranja vivo foi aplicada a aerógrafo. Haveremos de postar outras variantes cromáticas. Entretanto podem ver uma versão em castanho também em MAFLS.

Tanto pelo tema como pela gramática estilizada, este ampara-livros remete-nos, estamos em crer, para o exótico que a Exposição Colonial de Paris de 1931 reforçou nas representações art déco produzidas nessa década.


domingo, 30 de novembro de 2014

Bilheteira com cães de fo – Karlsruhe - Alemanha


Taça art déco de faiança moldada (barro vermelho), com vidrado craquelé. A parte superior, em forma de calote esférica, de base branca com bordo preto de manganês, é circundada, no interior, por lista azul-claro seguida de amarelo-pálido, ambas aguadas, ficando o covo a branco. As mesmas cores encontram-se na base que repousa sobre três animais com olhos e bocas vazados, lembrando cães de fo (símios ou criaturas míticas ou grotescas) no mesmo tom de azul mais carregado com apontamentos a preto de manganês e reservas da matéria base, o barro vermelho, sob vidrado. No fundo do pé, inciso na pasta, carimbo da fábrica Karlsruhe, com coroa, e carimbo preto «3220» [modelo] «Germany». Também inciso na pasta «23».
Data: 1932 
Dimensões: Larg. 28,5 cm x alt. 12 cm


Trata-se de uma bilheteira do escultor e ceramista, Christian Heuser, nascido em 1897 em Aschaffenburg, produzida de 1932 a 1935.

Heuser estudou nas escolas de artes aplicadas de Partenkirchen e de Munique e na Academia de Artes Aplicadas desta cidade. Por volta de 1930 cooperou com a Manufactura de Cerâmica de Karlsruhe. Entre a sua diversificada produção destacam-se os trabalhos de cerâmica que fez para a principal estação de caminhos- de-ferro de Frankfurt am Main.


Tal como Matha Katzer ou Paul Speck, de quem já apresentámos peças, Heuser é bem um exemplo da tensão entre a teoria propugnada pela Bauhaus, em 1919, e os reajustamentos a que as necessidades da produção industrial obrigaram.
A produção em série de cerâmica utilitária da Bauhaus começou nesse mesmo ano com o ideal de um regresso ao artesanato. Tal como num atelier medieval, a arte era vista como extensão do engenho e resultado de uma união de esforços.
O atelier cerâmico da Bauhaus começou assim em Dornburg, com o objectivo declarado de um renascimento da antiga artesania. No entanto, em 1922, pôs-se em questão este desiderato e reconheceu-se que a indústria, com as novas técnicas poderia melhorar a produção e aumentar as vendas. A partir de então, e não esquecendo os seus princípios, vai reorientar-se no sentido de uma cooperação prática com a indústria.

Nicola Moufang, então director da Karlsruher (1921-1928) segue também neste sentido e, somente por questões económicas, vai promover a produção industrial de cerâmica utilitária. Tornava-se evidente que a criação artística teria que ser diferente da utilizada na olaria tradicional. Novos moldes adaptados a novas tecnologias tinham que ser concebidos indo ainda de encontro aos novos gostos estéticos tanto modernistas como art déco.


Os modelos criados vão receber uma publicidade adequada à época. Assim, nos folhetos promocionais da fábrica aparece um novo conceito: “Fröliche Sachlichkeit”, ou seja, “Objectividade feliz” sendo que objectividade era o novo design que se traduzia em formas práticas e sóbrias e na ulização de um número restrito de esmaltes. Feliz, pelo emprego de cores ténues.

O objectivo era, nas palavras dos publicitários, propor um “artesanato seminatural, sem naturalismos ultrapassados”. Como se vê, esta formulação mostra bem a tensão entre a tradição artesanal e a nova maneira simplificada de trabalhar.
A bilheteira que hoje apresentamos –“bilheteira com forma refinada”- na publicidade de então, é bem um exemplo do que anteriormente escrevemos.



domingo, 16 de novembro de 2014

Caixa com caracol nº 27-J – variante 2 - Aleluia - Aveiro


Caixa art déco de faiança moldada, redonda e achatada, com decoração manual estampilhada pintada à mão em tons de castanho e preto sobre fundo creme. A tampa tem pega em forma de caracol que pousa sobre círculo preto. Na parte superior do bojo, três grelhas intercalam com igual número de composições vegetalistas com flores estilizadas em espiral. A parte inferior do bojo, sem decoração, é apenas enquadrada por faixa franjada, na transição com a parte superior, e filete preto junto ao pé. No fundo da base, carimbo preto «Aleluia Aveiro» sobrepujando «Fabricado Portugal» inscrito num rectângulo. Pintado à mão, a preto, 27 – J.
Data: c. 1935 - 45
Dimensões: alt. 7 cm x larg.10 cm


Do modelo nº 27 mostrámos anteriormente uma versão com decoração a verde cuja letra correspondente não pudemos apurar, dada a página do Catálogo de loiças decorativas das Fábricas Aleluia. Aveiro, que temos digitalizado, estar truncada. Como a peça também não o menciona, só mesmo um auxílio dos leitores nos poderá fornecer esta referência. A peça de hoje não só ostenta todas as indicações como aparece devidamente identificada no referido catálogo como sendo a nº 27 – J (modelo e decoração) mal-grado a fotografia da mesma estar cortada…

Pelo contexto decorativo desta caixa, assim como de outras que haveremos de ilustrar, depreende-se, desfazendo a dúvida anteriormente levantada, que o caracol da pega pretende representar uma espécie de gastrópode terrestre, apesar da casca nada ter de realista, com o espiralado em simetria, como então referimos. Alertamos para a decoração da tampa deste exemplar, porque ou não lhe pertencia ou então estaremos perante uma variante (propositada ou fruto de acaso?) talvez mais tardia (precisamos saber em que data se começa a utilizar o carimbo que ostenta). Para mais, é um pouco mais alta, porque o caracol é maior, que as restantes variantes que possuímos. Voltaremos a este assunto.


A decoração da parte superior do contentor é particularmente interessante, dado manter uma tradição que aparece recorrentemente no azulejo setecentista, sobretudo a partir de c. 1740: a representação em trompe l’oeil de grades metálicas que, neste caso, dão uma leitura visualmente tripartida à peça. Grades de um jardim imaginário, entre elas observamos pares de flores graficamente estilizados dentro da gramática art déco.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Jarra com cristalizações verde – Alfred Renoleau - França

Hoje o blogue completa 3 anos de existência. Nem sempre temos sido constantes como gostaríamos, sobretudo neste último ano, mas vamos fazendo os possíveis para o manter sem descer excessivamente o nível.

Escolhemos para comemorar o aniversário uma jarra de que gostamos muito, não só visualmente, mas também pela matéria: o grés. Para além das texturas que tal cerâmica possibilita, agrada-nos o peso das peças, maciças e compactas. Um prazer para o tacto e para a visão.


Jarra de grés, modelada (?) em forma de balaústre, quase inteiramente coberta de cristalizações, predominantemente a verde-claro, parcialmente aureoladas a castanho-escuro na área onde sobressai, em reserva, a cor verde-olivina mosqueada de fundo. Bocal e interior beige acinzentado brilhante e liso. No fundo da base, inscrito na pasta, à mão, ARenoleau e A [Alfred Renoleau - Angoulême].
Data: c. 1910
Dimensões: Alt. 25,5cm


Alfred Renoleau (1854-1930) nasceu em Mansle na Charente, filho de um barbeiro-cabeleireiro e, tal como era tradição na época, estava destinado a suceder-lhe no negócio.

Contrariando a vontade dos pais foi sobretudo como autodidata que aprendeu, desde cedo, a arte de ceramista.

Tal como tantos outros da sua época, imbuídos de espírito romântico (pensemos em Rafael Bordalo Pinheiro, por exemplo), apaixonou-se pela arte de Bernard Palissy (c. 1510-c.1590), vindo a ser um dos mais conhecidos ceramistas do século XIX influenciados pelo artista francês do Renascimento. Em paralelo produzia também faiança tradicional decorativa e utilitária.

A sua mestria nas peças à maneira de Palissy foi plenamente reconhecida em Londres onde expõe em 1888. Este sucesso vai despertar o interesse de uma grande empresa - Grandes Tuileries de Roumazières - que o contrata como ceramista-modelador. O contrato vai durar dois anos, de 1888 a 1890.

A empresa, aliás como toda a França, queria celebrar condignamente o centenário da Revolução Francesa no prosseguimento da renovação nacional a fim de preparar a “vingança” contra o Império Alemão e recuperar a Alsácia-Lorena ocupada. Contrata assim o “artista-modelador” para participar na Exposição Universal de Paris de 1889 com tal sucesso que ganha uma medalha de ouro. Renoleau é também premiado com uma medalha de bronze a título individual pelas suas peças à maneira de Palissy que produziu até ao fim do século XIX quando os gostos mudaram.

Em 1891 muda-se para Angoulême para onde vai trabalhar como artista cerâmico, e no ano seguinte é contratado como professor de modelagem da École départementale d’Apprentissage.

Três anos depois, em1895, funda a Faïencerie d’Art d’Angoulême, que vai dirigir até à sua morte em 1930. A empresa continuará sob a direcção do seu sobrinho e, de algum modo, chegará até hoje, visto os seus descendentes continuarem a criar e a trabalhar a cerâmica.

Todavia, não é o tipo da produção descrita que nos motiva. A abertura do Japão ao mundo nos anos de 1860, vem renovar no Ocidente o gosto pelo grés. O fascínio pelas peças japonesas de formas depuradas em que a ornamentação se reduzia aos sumptuosos esmaltes que cobriam as superfícies levou os artistas, sobretudo europeus, a tentarem desvendar os seus segredos.

Fascinado pelo que viu na exposição de 1878, que já referimos em post anterior, Jean Carriès criou magníficas peças de grés e rodeou-se de discípulos que continuaram a sua obra. Sèvres irá aperfeiçoar a técnica dos esmaltes cerâmicos durante a administração de Alexandre Sandier (de 1897 a 1916) ao obter o desenvolvimento de cristalizações na superfície do esmalte.


A tudo isto não ficou indiferente Renoleau. Em 1902 vendeu uma casa que possuía e com o dinheiro obtido construiu um forno apropriado para dar aplicação prática às suas experiências na cozedura de peças de grés. Podia, enfim, a par do negócio da sua empresa cerâmica, criar objectos de grande modernidade e qualidade artística. Os seus greses de formas depuradas vão cobrir-se de escorridos ou de cristalizações que rivalizam com os dos maiores artistas da época. A jarra de hoje mostra bem o talento do artista, como sempre se considerou, dado rejeitar ser tratado como artesão e considerar a cerâmica como arte maior à maneira do Oriente.

domingo, 2 de novembro de 2014

Caixa verde com caracol - Aleluia - Aveiro


Caixa de faiança moldada, redonda e achatada, com decoração estampilhada, pintada à mão, em tons de verdes secos sobre fundo branco. A tampa, com pintura de círculos concêntricos em cambiantes de verde-claro intercalando com branco, que se repetem na parte inferior da caixa, tem pega em forma de caracol sobre círculo verde mais escuro. O bojo é cintado por um friso com uma composição estilizada de búzios que intercalam com algas e bolhas de ar. No fundo da base, pintado à mão, a verde, Aleluia Aveiro e, inscrito na pasta, o número 27.
Data: c. 1935 - 45
Dimensões: alt. 7 cm x larg.10 cm
  


Trata-se do modelo nº 27. Infelizmente a imagem e respectiva legenda estão truncadas no Catálogo de loiças decorativas das Fábricas Aleluia. Aveiro, de inícios da década de 40, pelo que não nos é possível saber qual a letra que acompanha o número de forma (modelo) correspondente à decoração.

Poderemos questionar se o caracol da pega pretende representar uma espécie marinha ou terrestre. Note-se que a casca nada tem de realista, pois o espiralado é-nos dado em simetria. Porém, o que importa é que, uma vez mais, é a presença do mar e a sua vida que se apossa da peça, complementada pela geometria das linhas circulares.


 A linearidade do grafismo, o ziguezagueado dado pela repetição dos elemento ornamentais estilizados, assim como as cores planas, apesar de alguma organicidade curvilínea presente ainda nos elementos vegetais remeterem para resquícios Arte Nova, integram este género de objecto no contexto da produção do Art Déco local.

Curioso é que esta permanência do desenho das algas se vai manter no contexto da produção dos anos 50-60.


sábado, 1 de novembro de 2014

Jarra craquelé de Martha Katzer e Gerda Conitz - Karlsruhe - Alemanha


Jarra de faiança (barro vermelho) modelada (?), de forma esférica achatada, esmaltada e craquelé. O esmalte de meio-brilho, de cor verde-turquesa, é manchado irregularmente a cinza, cor que igualmente faz sobressair o craquelé. No fundo da base, em relevo na pasta, a marca da Karlsruhe.
Data: c. 1930-32
Dimensões: Alt. c. 9 cm



Sobre Martha Katzer (1897- 1946) previamente discorremos, a propósito de uma caixa de faiança aerografada desta mesma fábrica, em 21 de Agosto de 2013.
O trabalho conjunto que vai desenvolver de 1929 a 1932 com Gerda Conitz (1901 - ?) leva-a num outro sentido igualmente experimentalista mas mais rarefeito e requintado dirigido a um grupo restrito de consumidores de elite. As faianças nobres (ditas «Edelmajolika») resultantes desta dupla, pouco abundantes, são de grande refinamento. Enquanto a Martha Katzer cabe a concepção das formas atemporais de inspiração extremo-oriental, a Gerda Conitz cumpre a decoração das superfícies, concebendo requintados esmaltes craquelé.


A colaboração termina quando, em 1932, Gerda Conitz vai trabalhar como assistente técnica de Georg Schmider para a União das Fábricas de Cerâmica de Zell em Harmersbach. De 1936 a 1946 vai dirigir o atelier cerâmico das WMF.

Este tipo de formas espelha bem a apetência que os ceramistas ocidentais tinham pelas formas despojadas e desornamentadas da cerâmica da China e, sobretudo, do Japão, que vinha desde o último quartel do século XIX, sobretudo depois da Exposição Universal de Paris de 1878. O fascínio pelo Extremo Oriente perdurou e contaminou não só o Art Déco, como os demais movimentos modernos.

A jarra de hoje é bem exemplar das contaminações entre as várias tendências da época. Poderemos defini-la como art déco pelo refinamento sumptuoso das formas e matérias assim como pela união entre a criação artística e a artesania, características estas últimas também bauhausianas.

Peça idêntica, que se ilustra, figurou na exposição «Frölich, sachlich, edel: Martha Katzer - Keramik aus der Majolika-Manufaktur Karlsruhe 1922 – 1942», no Badisches Landesmuseum Karlsruhe, em 2001.



sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Serviço de café art déco – Formato Estoril - Sacavém

Na ausência de um design industrial nacional que satisfizesse as necessidades do mercado e que acompanhasse a evolução do gosto (e, de alguma maneira, das mentalidades) no clima de renovação formal do período Art Déco, a partir de finais dos anos 20, mas mais evidente na década seguinte, a importação de modelos estrangeiros foi a solução encontrada pelas fábricas portuguesas. Ao nível da loiça utilitária já apresentámos exemplos deste princípio utilizado em várias unidades fabris, caso da Porcelana de Coimbra, com modelos sobretudo alemães, e da Fábrica de Loiça de Sacavém com reprodução de modelos ingleses, caso que mais uma vez ilustramos. Todavia, neste formato concreto, a situação é um pouco mais complexa e curiosa.


Serviço de café art déco, da vertente modernista, de faiança moldada, composto por cafeteira, leiteira, açucareiro e chávenas com respectivos pires. A chávena de café apresenta bojo ovoide truncado com base e asa lateral ondulada, de perfil rectangular fechado. Corpo branco é decorado por três filetes horizontais a azul-escuro e laranja, desencontrados, e unidos por dois filetes oblíquos mais finos a azul-escuro. O bordo da asa e a base são destacados por filete duplo a azul-escuro e laranja. Pires circular, branco circundado por filete duplo azul-escuro e laranja. Cafeteira, leiteira e açucareiro apresentam forma e decoração idênticas, embora a primeira tenha tampa com pega tricolor, branco, laranja e remate a azul, e asa vazada, e o último apresente duas asas. Trata-se do modelo Estoril, com motivo decorativo nº 933. No fundo da base, excepto chávena, carimbo verde «Gilman & Ctª / Sacavém / Portugal». Pintado à mão, a azul, «Y ou T», excepto na leiteira, e que é a única marca presente nas chávenas. Na cafeteira, inscrito na pasta, «P». No pires, inscrito na pasta, «52LO» Sacavém e, a verde, «T». Açucareiro apresenta ainda «2» a verde.
Data: c. 1935
Dimensões: Várias



O conjunto não se encontra em condições perfeitas - algumas peças estão manchadas pelo uso por café, outras apresentam pequenas falhas na pintura aplicada sobre vidrado, etc. – mas colecionar tem também um pouco a ver com o acaso e compra-se o que se nos oferece no mercado numa dada ocasião, desde que a preços razoáveis e não especulativos.




Trata-se da decoração nº 933 «para serviços de café formato Estoril em barro marfim», de acordo com o catálogo de desenhos da Fábrica de Loiça de Sacavém, existente no Centro de Documentação do respectivo Museu (MCS-CDMJA), a quem mais uma vez agradecemos. A ficha respectiva informa-nos ainda que se aplica este motivo geométrico nas combinações de cores: azul e preto; verde e preto; amarelo e preto; ouro e preto; amarelo e castanho; ouro e azul e encarnado e preto.


O modelo que está na génese do formato Estoril foi editado por Robj, em França, c. 1930 (a produção Robj encerra em 1931), em versão serviço de chá, embora fabricado no Luxemburgo onde a Villeroy & Boch tinha uma fábrica que forneceu vários modelos a este editor. Não conseguimos apurar nome ou nacionalidade do designer que o concebeu, não tendo de ser forçosamente francês.

Possivelmente chega a Portugal, à Vista Alegre, enquanto serviço de chá, por via francesa, e a Sacavém apenas na forma de serviço de café, por via do modelo Moderne, dos anos 30 (c. 1935), da firma inglesa Carlton Ware, forma 1246, que reproduz o modelo de Robj, em versões de açucareiro com e sem tampa. A decoração do serviço de Sacavém provém também da Carlton Ware onde recebeu o nome Rayure. Trata-se de um bom exemplo da circulação internacional do design moderno de formas que se tornaram mais populares no período de Entre-Guerras.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Base bolos Colditz AG – Alemanha

Voltamos hoje às bases de bolos com decorações a aerógrafo alemãs, pois a nossa colecção é abundante neste tipo de objectos e poucos temos aqui partilhado.


Placa circular de faiança moldada de rebordo ligeiramente levantado. Sobre a cor branca de base recebeu decoração policroma abstracta de motivos geométricos estampilhados e aerografados em esfumado. A composição é tripartida por segmentos de recta, formando ângulos, a amarelo, que enquadram um conjunto de círculos e cruzes de diferentes tamanhos, a rosa-avermelhado e azul. Rebordo a amarelo igualmente a esfumado. Assenta sobre anel. No fundo da base, carimbo preto 4748 (Decor).
Data: c. 1933
Dimensões: Ø 30 cm


O nome «Colditz» aparece associado a três fábricas da Saxónia. Uma, fundada em 1828, começou por se denominar Keramik Werke Strehla, G.m.b.H., passando a designar-se, em 1927, Steingutfabrik Colditz AG, Abteilung Strehla, na cidade de Strehla an der Elbe, junto ao rio do mesmo nome. As outras duas localizam-se na cidade de Colditz: a Thomsberger & Hermann Steingutfabrik AG, fundada em 1804, e a Steingutfabrik Colditz AG.

De todas mostraremos futuramente peças, mas iniciamos hoje com uma base para bolos da última. A Fábrica de Faiança Colditz AG foi fundada em 1907, e dirigida até 1935 por Otto Zehe. A fábrica foi expropriada em 1948 e foi-lhe dado novo destino. A ela haveremos de voltar com maior notícia.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Cinzeiro 534/A – Aleluia - Aveiro


Cinzeiro de forma tendencialmente poliédrica, com cinco faces de ângulos arredondados dentro da organicidade das freeforms. Na face aberta projecta-se uma gola onde se inscreve o suporte para o cigarro. O interior é aerografado, em esfumado, a castanho-escuro, com o canal para o cigarro pintado à mão da mesma cor embora mais carregada. Exteriormente a superfície foi estampilhada à mão a verde, deixando em reserva bandas sinuosas brancas que foram polvilhadas de pontos a amarelo-torrado. No fundo da base, carimbo preto «Aleluia Aveiro», com «c» pintado à mão, no interior (marca do pintor), sobrepujando «Fabricado Portugal» inscrito num rectângulo. Pintado à mão, a preto, 534/A (modelo e decor).
Data: c. 1955-60
Dimensões: Alt. 9 cm x comp. 11 cm


Cores e decoração remetem a presente peça para a mesma série da taça que postámos em 3 de Novembro de 2013. Embora sem motivos marinhos precisos, o movimento da peça, quer pelo arredondado que a forma de sólido geométrico recebeu, lembrando um seixo rolado, quer pelo sinuoso da decoração, como algas ondulantes, sugere um universo aquático.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Prato de suspensão art déco com chinês vendedor de peixe - K et G Lunéville - França



Prato de suspensão circular e lenticular de faiança moldada. Sobre a cor branca recebeu decoração policroma estampilhada e areografada estilizada ao gosto art déco. Um vendedor de peixe ou pescador oriental, de chapéu largo e vestes longas, em movimento para a direita, mas com a face, onde se destacam os bigodes descaídos, voltada no sentido oposto, transporta, em equilíbrio sobre os ombros, uma vara de onde pendem peixes. Braços ao longo do corpo segurando um grande peixe em cada mão. A vara, à qual estão atados os peixes, opõe-se à curva superior do prato, enquanto que os pés, calçados com tamancos encurvados, e parte inferior do vestuário, curvam para formar uma linha paralela ao bordo inferior. A composição é contida por moldura circular formada por filete e fita segmentados a preto e castanho-mel. Este prato é um exemplo raro em que a assinatura do artista Géo Condé (1891-1980), no caso o seu monograma «GC», se integra na decoração, como se um dos padrões geométricos tivesse fugido da decoração do traje. No fundo da base, carimbos a verde, «K e G / Lunéville / FRANCE» e algo ilegível. Inscrito na pasta, o que parece ser umas lunetas e «B».
Data: c. 1930
Diâm: 32,2 cm


A personagem resultará de uma interpretação livre de uma estampa do Extremo-Oriente. A composição gráfica da figura, minuciosamente elaborada, implicou a utilização de quatro estampilhas distintas. Apesar de limitada a quatro cores (azul, amarelo, castanho-mel e preto) parece ostentar uma policromia mais diversificada. Tal impressão visual resulta do recorte pormenorizado e também da justaposição repetida das cores.

Parte da presente descrição baseia-se no conteúdo que acompanhava a peça exposta na exposição que o Musée de L’École de Nancy dedicou a Geo Condé (1891-1980), de 18 de Novembro de 1992 a 28 de Fevereiro de 1993.

domingo, 5 de outubro de 2014

Jarra art déco azul mosqueada com montagem de bronze – Paul Milet-Sèvres



Jarra art déco de faiança moldada em forma de balaústre, com decoração azul mosqueada, de tom mais profundo na base aclarando em direcção ao bocal. Guarnição de bronze cinzelado e martelado, de motivos geométricos, envolve a base, formando pé, e o bocal, de onde pende, com vazados, até à parte mais larga do bojo. No fundo da base, pintado à mão a preto-esverdeado, duplo L entrelaçado em espelho, enquadrando flor-de-lis, e sobrepujando «Sèvres».
Data: c. 1920-25
Dimensões: Alt. 37 cm


O tipo de vidrado e a montagem de bronze indicam-nos que se tratará de uma peça da Manufacture MILET (1866-1971) que nos finais dos anos 10 e inícios da década de 20 terá utilizado para marcar parte da sua produção um símbolo que remete para a marca que a Manufactura Nacional de Sèvres utilizava no século XVIII.
 
Já aqui postámos peças com o carimbo circular pontilhado envolvendo MP Sèvres utilizado pela empresa antes de 1930, com as iniciais de Paul Milet (1870-1950), na ordem inversa.

sábado, 27 de setembro de 2014

Uma identificação resolvida


Graças à gentileza de CMP e de mais uma leitora (JO) do blogue, a quem expressamos os nossos agradecimentos, resolveu-se o mistério da fábrica das duas peças ilustradas: a jarra «chinês» e a caixa zoomófica postadas, respectivamente, a 3 de Dezembro de 2011e a 23 de Junho de 2012.

O carimbo da fábrica, porque pouco legível, foi inicialmente identificado como sendo «OAL – Alcobaça» e depois, por paralelo com outro idêntico, mais legível, que CMP nos fez entretanto chegar, como «AL ou LA- Algarve». Pelo menos a referência geográfica da localização ficava definida. Faltava, então, saber a sua designação e algo mais se possível.

Trata-se da marca Lastra - Faianças Decorativas do Algarve, Lda, localizada em Lagos. Dedicava-se ao fabrico de artigos de uso doméstico de faiança, porcelana e grés fino e terá encerrado, por falência, nos anos 90 do século XX.

Se alguém nos conseguir apurar a data de fundação, sempre poderíamos melhor balizar uma possível cronologia para as peças em questão. A jarra «chinês», craquélé de fortes referências Art Déco, é possível que esteja associado ao revivalismo que o estilo conheceu na década de 80, com fábricas mais antigas a reeditar modelos dos anos 30, caso de Sacavém, ou cópias de modelos estrangeiros, como a base de candeeiro da Cerâmica S. Bernardo – Alcobaça que postámos a 21 de Novembro de 2011.

sábado, 30 de agosto de 2014

Caixa oitavada art déco com motivo de flores semicirculares - Aleluia - Aveiro


Caixa art déco de faiança moldada e relevada, de cor creme, estampilhada e pintada á mão com motivos geométricos e florais em tons de castanho. Oitavada, as faces menores, côncavas, são decoradas por meias flores estilizadas formadas por semicírculos concêntricos castanho-mel, complementadas por finas hastes curvilíneas e folhas. Nas faces mais largas, a castanho-escuro, sobressaem “contrafortes” embutidos que elevam a caixa e formam os quatro pés, decorados por duas fiadas de rectângulos a castanho-escuro, desalinhadas e unidas a eixo que se destacam sobre a cor creme. No topo da tampa, ao centro, eleva-se uma estrutura cruciforme escalonada em que assenta a pega tronco-piramidal. Espelhos a castanho-escuro e topos a castanho-mel. No fundo da base, dois carimbos a preto «Fábrica Aleluia – Aveiro» e «Fabricado em Portugal» inscrito em rectângulos. Pintado à mão « e, inscrito na pasta, «25».
Data: c. 1930 - 35
Dimensões: Alt. 9 cm x lado 10,6 cm


Trata-se do modelo nº 25 com a decoração E. Não aparece referida no Catálogo de loiças decorativas de inícios da década de 40, onde só encontramos a peça nº 25-A, a primeira da série, que teremos oportunidade de mostrar em breve.


A qualidade do seu design, com um elaborado jogo de volumes, quase que arquitectónico, remete-nos para uma possível filiação estrangeira que ainda não descobrimos. Porém, e como sempre, a Aleluia-Aveiro soube “nacionalizar” as influências externas e a partir delas criar algo de original. A solução dos pés, por exemplo, é particularmente comum em móveis coetâneos que então por cá se fizeram (a título de ilustração veja-se a peça de mobiliário abaixo que, embora redonda e vazada, cumpre o que atrás se referiu). Em ambos os casos, encontramos ecos de um gosto que a arquitectura modernista portuguesa veiculou. Aliás, esta contaminação entre as diferentes artes é uma constante, como temos referido.