sábado, 19 de outubro de 2013

Pinguim art déco da Electro Cerâmica – Vila Nova de Gaia

Depois dos dois exemplares de pinguins que no post anterior ilustraram a produção de duas das principais indústrias cerâmicas portuguesas, a Fábrica de Loiça de Sacavém sobretudo para a faiança e a Vista Alegre para a porcelana, hoje trazemos um exemplar da simpática ave de outra conhecida fábrica nacional.
 

Trata-se de uma pequena escultura de porcelana moldada representando um pinguim, dentro de uma certa estilização art déco que privilegiou o arredondamento de formas como já acontecia com o de Sacavém. Sobre o vidrado branco-base, que ficou em reserva no ventre e interior das asas assim como nos olhos (estes complementados com pupilas igualmente a preto), recebeu pintura a preto que uniformemente cobre dorso, cabeça, incluindo o bico, e patas. No peito recebeu um toque ténue de amarelo. No fundo da base carimbo verde com EC sobrepostos. Inscrito na pasta, à mão, 524 (?).
Data: c. 1930-35
Dimensões: Alt. c. 10 cm


Pelo carimbo estamos em crer que se trata de uma criação da unidade da Electro-Cerâmica de Vila Nova de Gaia, e daí o datarmos na década de 1930.

domingo, 13 de outubro de 2013

Pinguim art déco - Sacavém

Hoje aproveitamos para dar notícia da constituição oficial da Associação dos Amigos da Loiça de Sacavém (AALS), registada, no dia 17 de Abril de 2013, na Conservatória do Registo Comercial de Lisboa, cuja formalização se arrastava desde 2007, por motivos burocráticos que não cumpre aqui esmiuçar. Foi também neste sentido divulgador que se reuniram ontem, pelas 15 horas, no auditório do Museu de Cerâmica de Sacavém, alguns dos elementos fundadores e outros apreciadores e curiosos da produção cerâmica da fábrica. Esperamos uma longa e frutuosa vida à novel associação que homenageamos hoje em fato de cerimónia.


Escultura art déco de faiança moldada em forma de pinguim estilizado, de cor branca com apontamentos a preto na cabeça, asas e patas aplicados sobre o vidrado. No fundo da base, carimbo verde Gilman & Ctª – Sacavém e Made in Portugal. Pintado à mão, a preto, 1 ou L.
Data: c. 1930-40
Dimensões: Alt. 18,3 cm


Mais ou menos estilizada, a escultura animalística integrou durante o período art déco o repertório de grande parte das fábricas de cerâmica tanto nacionais como estrangeiras. Sacavém e Vista Alegre talvez tenham sido das que maior variedade de modelos apresentaram entre nós, embora esse estudo esteja por fazer. Ambas as fábricas produziram modelos, se não na totalidade, pelo menos na sua grande maioria, importados, numa gramática liberta de cânones naturalistas. Uns mais cubizantes, outros mais caricaturais e humorísticos e próximos do universo da banda desenhada, dentro do espírito da época. 


No exemplo que ilustramos, a figura de pinguim apresenta uma interessante depuração da forma, moldada em arestas suavemente arredondadas, e na aplicação da cor preta, que nas representações deste tipo de ave normalmente cobre todo o dorso. Neste exemplar, dorso e asas são estilizados intencionalmente ao ponto de se assemelharem a uma capa sobre os ombros da figura, correspondendo o preto ao forro interior. Nas patas, a mesma cor sugere um pinguim calçado e de polainas. 


Veja-se o exemplar da mesma espécie editado pela Vista Alegre, marca nº 31 (1924-1947), que retirámos do sítio «Avaluart» com o qual apresenta algumas afinidades. Embora também estilizado, a aplicação do preto deu-lhe um toque mais naturalista.

Anos mais tarde, sobretudo na década de 1960, vai-se difundir uma variante de fraque e cartola que aterrou em quase todos os frigoríficos deste país.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Caixa art déco - GAL


Como por vezes acontece, os outros blogues à cerâmica dedicados inspiram-nos a seleccionar a peça a apresentar. Assim, a propósito do jarro postado por MAFLS, escolhemos uma peça desta fábrica marginal da produção portuguesa que foi a GAL.

 
Trata-se de uma caixa, provavelmente uma biscoiteira, de faiança moldada, de forma abaulada, ovoide e subtilmente quadrilobada, assente sobre dois pés corridos lateralmente. A tampa acompanha o desenho da taça e tem pega trapezoidal. É de cor beije com decoração geométrica aerografada sobre o vidrado, idêntica à do referido jarro. Uma composição linear, em que duas faixas paralelas, desencontradas, são interligadas por faixa vertical a eixo. As faixas, bicromas, a verde e castanho avinhado, repetem-se junto aos bordos da taça e da tampa. Pés e pega são realçados a castanho. No fundo da base, escrito à mão a castanho, Gal 230/39.
Data: 1935-37
Dimensões: Comp. c. 20 cm x larg. c. 14 cm


Por paralelismo com o referido jarro estaremos perante a forma nº 230 correspondendo o nº 39 à decoração.

Como nos informa MAFLS a fábrica apenas subsistiu cerca de dois anos. Fundada a 27 de Junho de 1935, a empresa foi dissolvida a 20 de Dezembro de 1937, e localizava-se na Rua Alves Torgo, 279, em Lisboa.

Tal como temos vindo a ilustrar, a produção alemã da República de Weimar, de finais dos anos 20 e inícios da década seguinte, foi o motor impulsionador de uma nova estética que revolucionou formas e decorações. A sua influência teve larga divulgação internacional, vindo a ser copiadas ou adaptadas em vários países, de que os EUA e Portugal são exemplos.

Para além de outras fábricas nacionais sobre as quais já tivemos oportunidade de escrever, a GAL encontra-se entre as que mais sofreram essa influência, caso da peça mostrada por MAFLS, que poderá ser uma cópia de um modelo que ainda não detectámos, mas que será, pelo menos, baseada em um jarro concebido pela Carstens-Georgenthal, de c. 1931, que ilustramos, embora o bico remeta para uma peça da Carstens-Gräfenroda, da mesma datação, que haveremos de mostrar, e a tampa com pega de outra. O mesmo se passa com a caixa de hoje e de outras peças que haveremos de postar desta tão pouco conhecida fábrica. 


Daí a importância e o interesse de existirem blogues sobre cerâmica que contextualizem, na sua troca de informação, dados que possibilitem uma leitura outra da produção cerâmica da época, sobretudo nacional. É por isso que estamos cada vez mais convictos que sem conhecermos a produção cerâmica estrangeira, sobretudo alemã, francesa e inglesa, e mesmo a italiana para outro período, não poderemos entender a produção portuguesa.

domingo, 6 de outubro de 2013

Figura feminina - tipos populares portugueses - Secla


Na sequência da série de «tipos populares portugueses» criados por Fernando da Ponte e Sousa (1902-1990) para a SECLA durante a década de 50, publicados pelo blogue Cerâmica Modernista em Portugal (CMP), sobretudo a expressiva figura feminina «talvez uma vendedeira ou lavadeira» ou uma simples dona de casa, que ilustrou em 11 de Fevereiro de 2013, apresentamos uma versão desta com outras roupagens. Felizmente para nós a descrição formal da peça encontra-se aí feita, pelo que tivemos a vida facilitada.


A pequena escultura de faiança moldada, com decoração policroma pintada à mão, representa uma figura estilizada de mulher popular, gorda e maternal, em «pose empertigada, de mãos na cintura e barriga empinada», de regateira, cabelo preto com «carrapito no alto da cabeça, os seios fartos e pesados» que a blusa verde-alface cobre, a ampla saia comprida, com motivo floral, «coberta pelo avental» branco debruado a castanho-mel, sob a qual sobressaem os sapatos castanhos, reforçando a «expressividade satírica garantida pela habilidade do modelador [que compôs um] verdadeiro cartoon em três dimensões». No fundo da base, pintado à mão, a preto, PS 09, Secla Portugal, R.P.. Mantém, ainda, resto de uma etiqueta de papel.
Data: c. 1955
Dimensões: Alt. c. 11,5 cm


Do conjunto de tipos populares portugueses será, todavia, a que nos revela uma certa transversalidade do estereótipo de um determinado tipo de imagem feminina no imaginário ocidental. 


A peça, como diz CMP e nós concordamos plenamente, é claramente decalcada do «universo da banda desenhada, tanto nacional como internacional» embora em nossa opinião com particular ênfase na personagem maternal de «Os Sobrinhos do Capitão» cuja lembrança perpassa também nas nossas memórias de infância (o pai de um de nós possuía tudo quanto era Cavaleiro Andante, Mundo de Aventuras, O Falcão, etc.), enquanto apreciadores, que ainda somos, de banda desenhada. Havia mesmo quem sonhasse com as empadas cobiçadas arrefecendo, fumegantes, à porta ou à janela… De tal modo familiar às nossas lembranças de meninos, que tantas mulheres vimos que se lhe assemelhavam, que foi logo por nós baptizada de “Narcisa”.


Para mais informações sobre Fernando da Ponte e Sousa e sua obra consultar, então, o referido blogue. Apenas acrescentamos que esta peça regressou a “casa” depois de, sabe-se lá quantos anos, viver nos Estados Unidos da América onde foi comprada por nós via net.

sábado, 5 de outubro de 2013

Jarra modelo nº 148 - Aleluia - Aveiro


Jarra de faiança moldada, periforme, com decoração pintada à mão. O bojo pronunciado é decorado com faixas torcidas, a cor-de-tijolo e preto intercaladas, com composições vegetalistas espiraladas à maneira dos grotescos renascentistas, separadas por listas brancas. Estrangula num anel relevado branco, de onde parte o gargalo lotiforme cor-de-tijolo. O branco do interior morre no bocal curvo. No fundo da base, carimbos pretos, um circular sobre rectângulo, com «Aleluia-Aveiro», outro, «Made in Portugal hand painted». Pintado à mão, a preto, x, dentro do carimbo circular, e 148 X. No frete, também à mão, outro X.
Data: c. 1940 - 50
Dimensões: alt. 29 cm
 

A forma, que remete para a de algumas peças chinesas, é a nº 148 e a decoração será a X. No Catálogo de loiças decorativas de inícios dos anos 40 aparece a forma nº 148 com outras decorações (A e B) e decoração idêntica surge associada a uma jarra de modelo completamente distinto sob o nº 15 – G (forma e decor). 



Dada a numeração alfanumérica elevada e o não figurar no referido catálogo, poderá indiciar uma forma e decoração da produção de 1935-45 mas já de feitura posterior, possivelmente da segunda metade dos anos 40. Todavia não o podemos afirmar.


De qualquer maneira a decoração aproxima-se também da de uma jarra da Vista Alegre, com marca de 1924 a 1947, que ilustramos, exposta no museu da fábrica e que um amigo nos fez chegar. Tal como já havíamos referido, a proximidade geográfica entre os dois centros de produção cerâmica levava à circulação de técnicos e operários e daí as semelhanças formais e decorativas que se encontram em muitas peças de ambas as proveniências. Continuaremos a mostrar exemplos desta contaminação.


A jarra de hoje tem uma história curiosa, pois chegou às nossas mãos de forma particularmente diferente. Em encontro casual, e dado tratar-se de um conhecido colecionador, conversámos sobre os interesses comuns. Trocámos contactos. Passado uns tempos telefonou-nos dizendo que estava interessado em desfazer-se de um pequeno conjunto de peças. De vez em quando há necessidade de fazer opções, mais que não seja por uma razão tão prosaica como a falta de espaço – também nós já o fizemos com objectos que em determinado momento das nossa vidas fizeram sentido mas que passados uns anos já não era possível manter. Outros há que mesmo já sem fazer qualquer sentido nas colecções os mantemos por razões mais afectivas que racionais.

Ora esta partilha, por troca ou por venda, entre coleccionadores é uma forma excelente de adquirir exemplares que não se possuem. No caso, acabámos por ficar com uma peça de grande qualidade técnica.