domingo, 19 de agosto de 2012

Bases de candeeiro art déco com motivos folclóricos - Sacavém



Par de bases de candeeiro de cerâmica moldada e relevada, de cor creme, em forma de balaústre com friso policromo com motivos populares regionais. Na base, carimbo azul Gilman & Ctª – Sacavém Portugal. Em relevo na pasta nº 380.
Data: c. 1930 - 40
Dimensões: alt. 13,5 cm



Apresentamos fotografia antiga, proveniente do acervo do Centro de Documentação do Museu de Cerâmica de Sacavém (MCS-CDMJA), cuja colaboração agradecemos, onde surge com a designação de «jarra para candeeiro com figuras regionais»,. A peça aparece referenciada sob o nº 380 nas tabelas de preços de faianças decorativas, 1945-1966. Na tabela de 1945, consta a designação de «jarra candeeiro, formato regional». Tal como acontecia com a fotografia do peixe do “Pintor Reis” anteriormente postada, também no verso desta aparece a nota: «Enquiry from: Cape Town». As questões que então levantámos mantêm-se.


 Já aqui havíamos mostrado uma peça em que o folclore como leit-motiv para a arte moderna foi utilizado. Tratou-se da placa cerâmica com vendedor de peixe da Fábrica Lusitânia de Lisboa que hoje voltámos a repescar a propósito do tema e porque encontrámos um postal ilustrado que lhe terá servido de modelo.


O folclore é um dos elementos constitutivos da modernidade. Se vai ser fonte de inspiração para a geração do primeiro modernismo português (caso de Sousa Cardoso, Viana, Almada, …), em consonância com os demais movimentos artísticos europeus, graças às especificidades culturais e políticas do nosso país, eterniza-se até aos inícios da segunda metade do século XX.


Datado de 1923, um friso decorativo policromo, da autoria de Bernardo Marques, correndo as paredes junto à sanca de uma sala da casa de António Ferro e de Fernanda de Castro, na antiga Calçada dos Caetanos (desde 1963 Rua João Pereira da Rosa), trazia para um interior, que se pretendia actual, a temática estilizada de danças populares (ver foto). Os motivos populares já então eram vistos por Ferro como elementos de afirmação nacionalista. Para o futuro ideólogo da «Política do Espírito» do consulado salazarista, o folclore devia ser fonte inspiradora de modernidade para os artistas nacionais, que assim seriam «modernos sem deixar de ser portugueses». A cultura com António Ferro era simultaneamente um veículo de propaganda e um instrumento de controlo social. «(…) a sua principal preocupação não era a criação e difusão das ideias do regime, mas a criação de meios de ocupação dos "tempos livres" dos portugueses. Estes constituíam um tempo potencialmente perigoso para o poder se não fosse organizado. A contribuição mais significativa de António Ferro foi, (…), ter mostrado que as múltiplas manifestações culturais podiam ser organizadas de modo a predisporem os indivíduos para certas formas de comportamento e pensamento espontâneo. (…) A [sua] grande promoção cultural centrou-se contudo em volta da cultura popular, que tinha nas romarias, arraiais e feiras a (…) expressão mais genuína. (…) procurou criar uma grande encenação não apenas para os estrangeiros, mas sobretudo para consumo interno. Uma vasta equipa de artistas e intelectuais, (…) ao longo dos anos (…) foi pacientemente reelaborando as grandes manifestações populares em termos plásticos mais modernos, apresentando-as em seguida como expressões genuinamente populares. Fragmentos de memórias locais são pretexto para a criação de tradições centenárias. A confusão entre o falso e o autêntico era total. A promoção da cultura erudita junto do povo, foi neste contexto limitadíssima, pois a mesma correspondia a um desvio à integração do povo numa cultura popular que se lhe apresentava como exaltante.» (Para mais ver aqui)

O friso que encontrámos na casa de António Ferro, com a sua estética art déco de raiz folclórica, está na génese de todo um gosto estético que perdurou décadas na arte feita em Portugal, sobretudo nas chamadas artes decorativas.

Segundo Rui Afonso Santos, a primeira tentativa de introduzir vidros pintados com motivos folclóricos feita pelos artistas plásticos Sarah Afonso, Ofélia e Bernardo Marques, apresentados no II Salão de Outono organizado pela revista Contemporânea, faz-se em 1926. Contudo, sem sucesso. Já os jarros e copos de água desenhados e decorados por Jorge Barradas, a partir de 1929, para a CIP - Companhia Industrial Portuguesa, na Marinha Grande, teve tanto êxito que, no ano seguinte o mesmo artista vai conceber uma linha de jarras também com motivos do folclore nacional para decorar os quartos do Palace Hotel do Estoril que então abria portas. Os consumidores mantiveram-se fiéis a estes motivos e, ainda em 1941, Jorge Barradas desenhava vidros com a mesma temática. Veja-se o copo «Algarve».


Tal sucesso motivou um surto de objectos utilitários e decorativos de temática folclórica em diversos suportes, do vidro à cerâmica, do ferro forjado à ourivesaria, feitos por outros autores que, com maior ou menor criatividade, cimentaram um gosto que se manteve até, pelo menos, aos anos 60. Isto para não falar das artes gráficas onde a temática remontava à primeira geração modernista. Deixamos aqui alguns exemplos ilustrativos, sendo a maioria dos vidros da Marinha Grande (esta matéria daria um blogue interessante, mas não temos disponibilidade para o fazer).


Em relação a Piló [Manuel Júlio Piló Santos (1905-1988)], cuja série de desenhos criados em 1935 darão origem a uma colecção de postais, decorarão vidros fabricados pela CIP e porcelanas da Vista Alegre e mesmo pratas, a ele haveremos um dia de dispensar maior atenção.


sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Tinteiro “flor” da Aleluia-Aveiro



Peça de faiança moldada e relevada, policroma, composta por três partes: o recipiente exterior onde encaixa o tinteiro propiamente dito e tampa. Em forma de flor, com pétalas caneladas, em dois tons de amarelo com contornos e estames a castanho-escuro que se dobram sobre uma base lisa verde-escuro, e centro (tampa) laranja debruado a castanho. Na base, carimbo castanho Aleluia-Aveiro, Fabricado Portugal e, pintado à mão, 121 A.
Data: c. 1935 - 45
Dimensões: Ø 11 cm x alt. 5 cm




A forma de flor remete ainda para um gosto Arte Nova, embora uma certa estilização já aponte noutro sentido. Devido ao muito uso que teve, o interior da tampa e o bordo externo do corpo do tinteiro estão tingidos de azul.

Dada a fragilidade muito feminina da peça e o seu uso intenso, surpreende-nos que tenha chegado até hoje completa.

Encontra-se representado no Catálogo de loiças decorativas das Fábricas Aleluia. Aveiro, de inícios dos anos 40 com o Nº 121 – A

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Taça art déco Argenta com peixe - Gustavsberg

Como gostamos de saltar do objecto utilitário para o objecto sumptuário, hoje trazemos mais uma peça da linha Argenta criada por Wilhelm Kåge. O que não quer dizer que, em termos de mercado, o seu valor seja superior ao de certas caixas de faiança aerografada. Bem pelo contrário.


Taça de grés, com representação de um peixe e bolhas de ar em aplicação de prata sobre fundo esmaltado vermelho mosqueado. Bordo debruado por semi-círculos de prata embutida. A calote esférica assenta sobre pequeno pé com filete de prata. Na base, carimbo dourado com Gustavsberg, seguido do símbolo “Âncora”, Argenta 1094 IV e Made in Sweden.
Data: c. 1940
Dimensões: Ø 15 cm x alt. 5 cm

Apesar de mais raras, as peças da linha Argenta podem apresentar outras cores para além do verde mosqueado convencional como já dissemos. O vermelho parece que só é introduzido na produção dos anos 40. O efeito estético é magnífico, sendo esta taça um bom exemplo da elegância da chamada

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Taça art déco com motivo de pavões - Badonviller


Taça decorativa (talvez uma fruteira) de faiança fina, com motivo decorativo estampilhado de três aves (pavões) estilizadas ao gosto art déco, da fábrica de faiança Fenal, em Badonviller. Na base, carimbo a preto, F [de Fenal] envolvido por Badonviller – France, e 33.17. Carimbo castanho ==. Inscrito na pasta E [estrela] 25.
Data: c. 1920
Dimensões: Ø 28,5 cm x alt 5 cm

A decoração será de Géo Condé que, como já dissemos, trabalhou para as três fábricas propriedade da família Fenal, entre as quais se conta Badonviller.


Badonviller remonta a 1828, quando Nicolas Fenal se torna proprietário de uma olaria fundada em 1719, em Pexonne (Meurthe-et-Moselle). Após a sua morte, em 1857, sucedem-lhe seus filhos e sobrinhos que criam a marca Fenal Frères (FF). Um dos sobrinhos, Théophile Fenal, decide abrir a sua própria fábrica em Badonviller, tornando-se, assim, concorrente da outra unidade fabril em Pexonne.

Edouard. Em 1921 a família Fenal compra as fábricas de Lunéville e de Saint-Clément, qBadonviller a ser dirigida por seu filho Bernard. Para mais detalhes ver aqui.

Por oposição à jarra Rosenthal anteriormente postada, apresentamos agora uma taça de faiança onde claramente nos apercebemos de como a junção das mesmas técnicas económicas da estampilha e do aerógrafo são aplicadas em França com um espírito decorativo completamente diferente. Aqui a estampilha define com toda a exactidão os contornos do desenho, delimitando claramente as cores que são vivas, lisas e espessas, não dando lugar às gradações cromáticas permitidas pelo sfumato da pintura a aerógrafo tão usado pelos alemães. A França pouco cede à tentação do desenho mais vanguardista, apostando sobretudo na estilização de motivos facilmente reconhecíveis, sobretudo de animais e de flores, estilizados e, muitas vezes, geometrizados.

Curiosamente, em Portugal assiste-se a uma certa oscilação entre estas duas tendências, como teremos oportunidade de ir ilustrando.

Jarra art déco com decoração abstracta aerografada da Rosenthal - Alemanha


Peça de porcelana moldada, branca, em forma de campânula geometrizada e invertida, com caneluras separadas por arestas vivas. Sobre o fundo branco, ostenta uma decoração abstracta, parcialmente geométrica, ora curvilínea ora angulosa, aerografada a azul, amarelo, e cinzento. Na base, carimbo verde Rosenthal – Bavaria sobrepujado de duas rosas cruzadas e coroa, e carimbo encarnado R coroado.
Data: 1929
Dimensões: alt. 17 cm


Nos finais dos anos 20, a faiança apresentava-se como o produto moderno por excelência, proporcionando propostas mais vanguardistas e acessíveis que a porcelana, que se mantinha, em grande parte, presa a fórmulas de gosto antiquado.

A admirável homogeneidade do estilo criado durante a República de Weimar, aplicado à cerâmica, com a produção intensiva de objectos de uso utilitário e decorativo com decoração estampilhada e aerografada (que aqui haveremos de ilustrar com alguns exemplares), identificado como produção de massa acessível a todas as camadas sociais – e daí chamada «comunista» pelos partidários de uma estética mais conservadora, que irá levar à tentativa da sua aniquilação a partir de 1933 -, teve de ter repercussões na indústria da porcelana, que, assim, passou, também ela a aplicar as mesmas técnicas e fórmulas decorativas na sua produção. Aliás, a nova estética alastrou como um incêndio, a toda a sociedade alemã no seu conjunto, logo extravasando também as fronteiras geográficas.

E se a Fábrica de Porcelana Rosenthal não foi das mais permeáveis à nova estética, também ela não deixou de produzir objectos cujas propostas ornamentais resultam da aplicação da estampilha e do aerógrafo segundo os critérios decorativos da vanguarda. É o caso da presente jarra, cuja forma, perfeitamente art déco, recebeu uma decoração que entronca nesse mesmo estilo, graças ao desencontro e repetição dos padrões dados pelas estampilhas, claramente definidas de um lado e da gradação tonal que se esfuma na cor de fundo no lado oposto.


terça-feira, 14 de agosto de 2012

Prato de cozinha art déco com flores - Sacavém


Prato de cozinha de faiança moldada, formato circular com aba larga e lisa. Decoração central estampilhada, aplicada a pincel, e policroma sobre fundo branco, formada por ramalhete de flores, bagas e folhas, em azul, castanho-mel e verde, estilizadas ao gosto art déco. Aba com barra aerografada, cor-de-rosa que se esfuma na direcção do centro. Na base, carimbos verde Gilman & Ctª – Sacavém e 2.
Data: c. 1930
Dimensões: Ø 39 cm x alt. 6,5 cm


Um outro exemplar com esta decoração, de dimensão e cores distintas, pode ser apreciado em MAFLS.

Trata-se da decoração nº 301 do catálogo de desenhos da Fábrica de Loiça de Sacavém, que aqui reproduzimos, numa paleta de cores diferentes, existente no Centro de Documentação do respectivo Museu (MCS-CDMJA), cujos créditos e colaboração agradecemos. Este motivo terá deixado de ser produzido em 1933, dada a indicação escrita no desenho de «retirado» pelo «aviso 1-5-33».

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Miniatura de cria de pássaro art déco – Vista Alegre


Peça de porcelana moldada e relevada em forma de cria de pássaro, estilizado ao gosto art déco, com bico aberto pedindo comida, de dimensões diminutas, policroma (parece-nos que a aerógrafo com apontamentos à mão): corpo amarelo, bico e pernas laranja, soco e olhos a preto com apontamento a branco nos últimos. Na base, pouco legível, carimbo VA, marca nº 31 (1924-1947)
Data: 1932
Dimensões: alt. 4,5 cm





Apesar de aparecer nomeado como «escultura de pinto» no catálogo do VII Leilão Vista Alegre, não se trata, pelas características físicas de uma cria de galinha, mas sim de uma cria de passeriforme. Aliás, no catálogo do IV Leilão aparece nomeado correctamente como «passarinho». Não deixa de ser estranho este engano, dado que tem havido um esforço salutar, por parte dos organizadores dos leilões e respectivos catálogos em dar mais e melhor informação aos colecionadores. É já todo um abismo que separa as primeiras edições das mais recentes.

Este modelo de passarinho, criado em 1932, para além da geometrização cubizante das formas, remete-nos para o universo infantil da banda desenhada. É o que se pode chamar uma peça simpática.

domingo, 12 de agosto de 2012

Caixa para chá art déco com flores - Gustavsberg


Caixa (frasco) de faiança moldada e relevada, dentro da gramática art déco, de forma cúbica, com pé ligeiramente reentrante, cujas faces laterais receberam pés floridos em alto-relevo apostos às superfícies lisas, e tampa circular convexa com igual elemento relevado. A peça, craquelé, é esmaltada de cor celadon. Da autoria de Wilhelm Kåge encontra-se assinada e datada na base, onde encontramos, pintados à mão, a azul, a âncora, símbolo da fábrica, rodeada por Gustavsberg, 1925 e Kåge.
Data: 1925
Dimensões: alt. 16 cm




À época muita da cerâmica de design moderno, sobretudo nos países escandinavos, era realçada por peanhas à maneira chinesa, como se pode observar na fotografia de peça idêntica à nossa apresentada na monografia de Nils Palmgren, de 1953, dedicada a Wilhelm Kåge (1889 -1960). Aliás, esta peça é de clara inspiração chinesa, tendência que se acentua depois de 1925 em muita da produção do artista.

A fábrica Gustavsberg apresentou na Exposição de Paris de 1925, a taça com flores relevadas (ver foto) com que Kåge ganhou um Grand Prix e que foi adquirida, então, pelo Museu Metropolitano de Arte de Nova Iorque.


sábado, 11 de agosto de 2012

Caixa art déco Villeroy & Boch - Wallerfangen


Caixa de cerâmica moldada e relevada, de forma piramidal truncada, escalonada e invertida, com quatro faces regulares trapezoidais. Cor de fundo branco-marfim com decoração policromada geométrica, estampilhada e areografada. Lado mais estreito assenta sobre soco rectangular saliente de cor castanha. Cada degrau é realçado a castanho, e sobre eles repousam semi-círculos concêntricos intercalados, a verde e amarelo e a castanho e verde, que, de baixo para cima, forma conjuntos de dois, de três e de quatro. Segmentos de linhas nas três cores, e em diferentes tamanhos, sendo a castanha mais presente, cortam transversal e obliquamente a lateral das faces mais largas. A tampa, rectangular e de cor marfim, é moldurada a meio por duas listas a verde e amarelo, em cujo centro se eleva uma pega, de forma trapezoidal irregular, castanha. Na base, carimbos preto da Villeroy & Boch-Wallerfangen Madin in Saar-Basin e 2789X. Inscrito na pasta 489.
Data: c. 1929
Dimensões: Alt. 13 cm x comp. 12 cm x larg. 8 cm




Trata-se da forma 489 e da decoração 2789. O carimbo nela aposto foi utilizado por esta fábrica do grupo Villeroy & Boch desde 1876, que acrescido de «Made in Saar-Basin» corresponde ao período entre 1919 e 1931. A filial de Wallerfangen, fundada em 1791 por Nicolas Villeroy, encerrou nesse ano de 1931.

Exemplo maior, tanto ao nível da forma como da decoração, das tendências contemporâneas mais vanguardistas que a indústria alemã desenvolveu na segunda metade dos anos 20, onde o orfismo e o cubismo se mesclam com a Bauhaus criando um design simultaneamente artístico e utilitário, uma simples caixa, possivelmente uma bomboneira, acessível às massas trabalhadoras.


sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Prato de cozinha art déco com motivo de folhas de videira - Sacavém



Prato de cozinha de faiança moldada, formato circular com aba larga e lisa. Decoração central estampilhada e arerografada, aplicada sobre o vidrado, com duas folhas de videira estilizadas e de cores lisas, uma a roxo parcialmente sobreposta a outra azul acinzentado, cercadas por pontilhado disperso e gavinhas da cor da última, sobre fundo branco, Aba com barra aerografada a roxo que se esfuma em direcção ao centro. Na base, carimbo verde Gilman & Ctª – Sacavém – Portugal, X e, inscrito na pasta, 4FN Sacavém.
Data: c. 1930
Dimensões: Diâm. 39 cm x alt. 5,4 cm


As nossas colecções de cerâmica apostam, sobretudo, na produção e criação industrial da primeira metade do século XX. De uma forma mais sistemática (não tanto quanto gostaríamos, porque nem sempre é possível, por diversos factores que, por vezes, nos ultrapassam) de fábricas nacionais, com destaque para Sacavém, Vista Alegre e Aleluia-Aveiro, mas também para alguma produção de diversas fábricas europeias, sobretudo alemãs e francesas. E se umas peças foram concebidas por designers então já reconhecidos, ou que hoje são valorizados, outras são produções anónimas que divulgaram junto do grande público as tendências, mais ou menos modernas, mais ou menos vanguardistas, que os tempos iam introduzindo e de que a Art Déco congregou e sintetizou de maneira mais facilmente apelativa.

Hoje apresentamos mais um desses objectos banais de uso quotidiano, cuja qualidade está para lá do mero valor artístico ou económico. Um vulgar prato de cozinha constituía-se como veículo introdutor de uma modernidade que assim entrava pela cozinha e era servida à mesa mais popular. Este prato de cozinha apresenta o maior tamanho produzido pela FLS (ver MAFLS).

Trata-se da decoração nº 602 do catálogo de desenhos da Fábrica de Loiça de Sacavém, que aqui reproduzimos, embora em outra variante cromática, existente no Centro de Documentação do respectivo Museu (MCS-CDMJA), cujos créditos e colaboração agradecemos.


Já aqui dissemos que a técnica da estampilha aliada ao aerógrafo veio facilitar, a baixo custo, a produção de objectos esteticamente apelativos, seguindo as tendências do momento. E se foi a Alemanha que melhor soube explorar essa modernidade da forma mais arrojada que estas técnicas permitiam, vão ser técnicos alemães que nos finais dos anos 20 e inícios da década seguinte rumam a Portugal e se instalam na Fábrica de Loiça de Sacavém onde as vão aplicar. Temos vindo a mostrar alguns exemplos, até mais vanguardistas que o modelo de hoje, mas todos reveladores de uma mudança que paulatinamente ia alterando o olhar, pouco cultivado, da grande maioria da população portuguesa.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Escultura decorativa art déco “Jovem com bola” da Puls - Checoslováquia


Figura feminina de porcelana moldada e policromada, de jovem mulher de pé, sobre soco, em pose, com mão direita na cintura e perna direita flectida. No braço esquerdo segura uma bola dourada, da mesma cor dos sapatos rasos. Veste traje desportivo, composto por calções tufados cor-de-lilás, da mesma cor da gola e gravata da blusa listrada em tons de verde. Calções apresentam um ligeiro grafismo avermelhado cuja cor é retomada na decoração geométrica da gravata. Sobre os ombros, echarpe cor-de-laranja com motivos lineares de ramagens e folhas, em cinzento, de onde despontam grandes flores abertas bem delineadas a preto, com as pétalas a apresentarem dois tons de laranja, o do fundo e outro mais carregado, ao gosto art déco. As carnações remetem para o tom rosado da pele, com olhos azuis, lábios vermelhos e cabelos castanhos cortados à moda dos anos 20. O soco, troncocónico, mantém o pé circular, sendo facetado em quatro lados, com realces a ouro. Nele aparece inscrito, na face posterior, a assinatura do autor: J. Meier. Na base, carimbo estampado a verde Puls – Bohemia, sobrepujado por coroa.
Data: c. 1925
Dimensões: alt. c. 33 cm


J. Meier, artista de quem pouco sabemos, trabalhou para várias fábricas, entre as quais as checas Puls e Pirkenhammer - desta última já apresentámos outra escultura da sua autoria, o centro de mesa que postámos em 20 de Dezembro de 2011, cuja figura feminina tem idêntico corte de cabelo, muito anos 20. Terá trabalhado ainda, pelo menos, para as fábricas Hohenstein e Goldscheider.

A fábrica Puls - Pfeiffer & Löwenstein, tem origens que remontam a 1879, quando Ludwig Lowenstein funda uma fábrica de porcelana, em Ostrov, na Boémia (na antiga Schlackenwerth do Império Austro-Húngaro, hoje parte da República Checa). Em 1900, era gerida por Josef Pfeiffer Jr passando a designar-se Pfeiffer & Löwenstein, designação que mantém até 1938, ano em que os nazis confiscaram as acções renomeando-a de fábrica de porcelana Schlackenwerth Josef Pfeiffer. Eram seus proprietários, em 1944, Luise & Wilhelm Pfeiffer e George von Hoffmann. Em 1949 acabou por ser encerrada.


A escultura documenta um estilo de vestuário contemporâneo que retrata a liberdade adquirida pelas mulheres após a I Guerra Mundial. Conquistaram um novo papel na sociedade de então, depois de terem substituído os homens em diversas profissões durante o conflito. Ganharam o direito à libertação do corpo, agora sem as constrições impostas pelo vestuário puritano oitocentista, e à funcionalidade do traje, numa transformação tão profunda como profunda foi a revolução social, política e mental resultante do cataclismo que todos viveram. Vencidos e vencedores. Para esquecer o passado próximo instalou-se um frenesi de viver, em que a mulher vai ser elemento fundamental. Democratiza-se o desporto, a participação política e o direito ao voto (em alguns países), o acesso a novas profissões, e a moda deixa de estar condicionada pelo espartilho, liberta os braços e as pernas, e o cabelo é cortado curto. Com Coco Chanel ganhou o direito a vestir calças. A mulher podia assim, viver os loucos Anos 20 em paridade com o homem, sobretudo nas elites, numa revolução de mentalidades sem precedentes que ia penetrando nas outras classes sociais. Em muito, graças ao cinema e às ideologias revolucionárias. Todo este ambiente de euforia e mudança começa a desabar com a tragédia da «quinta-feira negra» de 1929.

No caso da presente escultura, ela e muitas congéneres suas, funcionavam como figurinos. Outras também como modelos. Ambas destinavam-se às classes mais abastadas, decorando ambientes burgueses modernos. Enquanto modelos retratavam figuras de atrizes, dançarinas, escritoras, símbolos palpáveis da nova mulher emancipada.

O desporto ao divulgar-se na sociedade, impunha-se como actividade elegante, para a qual era preciso criar uma nova estética, de que esta peça é exemplo. Nela observa-se, ainda, o corte de cabelo e a gravata como aproximação ao look masculino, enquanto símbolos da sua libertação.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Serviço de chá art déco “Angola” - S.P. Coimbra



Mais uma vez o modelo «Angola» agora em versão serviço para chá, composto por bule, açucareiro, prato para bolos, chávenas e respectivos pires (falta a leiteira), cuja porcelana branca recebeu decoração geométrica a azul e ouro. Na base de todas as peças, carimbo estampado a verde, «Coimbra SP Portugal». No bule acresce, pintado à mão, a verde, «Angola» e «LB6033» e os números 2, impresso, e 3, manual, inscritos na pasta. O número 2 impresso está também presente no açucareiro e no pires, aparecendo ainda no primeiro, inscrito na pasta manualmente, o número 11.
Data: c. 1935 - 40
Dimensões: Várias





Sobre a forma veja-se o que escrevemos no post anterior. Quanto à decoração o modelo apresenta, em variante cromática a azul, a mesma «LB6033» que aparece no serviço modelo «Belga», que publicámos em 11 de Junho, e no modelo «Cúbico», que apresentámos em 8 de Janeiro passados. Sobre ela também já discorremos.
 
Apesar de considerarmos que este modelo por si só apresenta elementos formais suficientemente apelativos, como referimos anteriormente, esta decoração enfatiza as suas características art déco, embora de certo modo dilua a plasticidade inerente às formas. Todavia, gostamos muito da combinação (na verdade, gostamos particularmente desta decoração em qualquer dos modelos que conhecemos).