segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Serviço de café art déco “Angola” - S.P. Coimbra

Graças ao modelo «Angola» de Coimbra, tomámos contacto pela primeira vez com um dos blogues que seguimos com prazer. Trata-se do Arte, livros e velharias que completou 100 mil visitantes no dia 27 de Julho passado. A naturalidade, simpatia, elegância e sensibilidade da sua autora são motivos mais que suficientes para a popularidade alcançada. Assim, em jeito de celebração, convidamos hoje a autora a tomar um café connosco num serviço do mesmo modelo.



Serviço para café de porcelana moldada ao gosto art déco, composto por cafeteira, leiteira, açucareiro, chávenas e respectivos pires, cor beige com filetes a ouro pontuando bordos, asas e pegas. Modelo polifacetado, com dez faces côncavas nas superfícies laterais e igual número de faces convexas nas partes superiores e tampas As pegas, em botão, reproduzem em miniatura o desenho do corpo das peças. Asas apresentam-se recortadas em cinco curvas esquinadas. Na base de todas as peças, carimbo estampado a verde, «Coimbra SP Portugal», acrescido de 3 impresso e 8 (?) manual inscritos na pasta nas três peças principais: cafeteira, leiteira e açucareiro. Na cafeteira, a azul, pintado à mão, «Angola» e «FA5011».
Data: c. 1935-40
Dimensões: Várias


A forma deste modelo, que conjuga uma profusão de ângulos e linhas curvas, que tem por base uma planta decagonal, dá-lhe uma leitura dinâmica muito acentuada que se basta a si própria dispensando qualquer decoração. Quanto a nós, quando tal acontece, geralmente desvaloriza a forma, desvanecendo a limpidez do desenho. Mesmo quando a decoração é de grande qualidade plástica.





Mais uma vez encontramos uma filiação em modelos alemães. Veja-se o caso do pote polifacetado que reproduzimos, da fábrica de porcelana Arzberg, criada por Carl Schumann nos anos 20. As semelhanças são óbvias: lá estão as dez faces laterais côncavas e convexas na parte superior e tampa.

domingo, 5 de agosto de 2012

Jarra art déco de J. Ventrillon, Saint-Clément - França



Jarra de faiança moldada, piriforme com decoração vegetalista estilizada em relevo, assente sobre pé circular e com bocal estreito em anel, esmaltada a azul. Uma rede de caules, folhas e gavinhas, de onde desponta uma única flor, envolve o bojo da peça cujo fundo é estriado. Remates ondulados junto ao gargalo e ao fundo enquadram a composição. Na base, em relevo na pasta, “883 St Clément – France”.
Data: c. 1930
Dimensões: alt. 30,6 cm



Este modelo, criado por J. Ventrillon, foi produzido em faiança pela fábrica francesa de Saint-Clément, tendo edição de grés, pela “Mougin Nancy”, embora mais pequena, com 26,5 cm de altura (ver catálogo do leilão de 10 de Outubro de 2007, da Drouot, lote nº 141, cuja foto se reproduz).

Sabe-se que J. Ventrillon, corresponde a Gaston Ventrillon (1897-1982), dito o Jovem (le Jeune), um de três irmãos que criaram irmãos para o repertório do atelier Mougin. Apesar de haver, por vezes, dificuldades em identificar muitas das peças criadas pelos três, esta está devidamente identificada.
Gaston foi o mais turbulento dos três irmãos Ventrillon que trabalharam para as fábricas de cerâmica de Lunéville. Participou em diversas manifestações vanguardistas, pertenceu ao grupo dos «Cadets de Lorraine» e envolveu-se em experiências de arte colectiva tendo pintado também cenários para peças de vanguarda.
A prática de haver modelos de faiança produzidos para um grande público e de grés para uma elite já aqui foi aflorada a propósito de uma peça de outro artista de Lunéville: Geo Condé, em 26 de Maio de 2012.


 
A falta de conhecimento, de informação e de referências do público amador  português, entre os quais nos incluímos, levou-nos a adquirir, em 2000, numa conhecida casa leiloeira lisboeta o exemplar que hoje apresentamos. A peça, aliás, disputada com um antiquário da capital, ficou por um preço idêntico ao da homóloga Mougin vendida pela Drouot em 2007. Ou seja, por um preço muitíssimo superior aquilo que efectivamente vale. As produções deste género de faiança são relativamente baratas e vulgares no mercado francês, independentemente do sua valia artística. Embora hoje nos sintamos enganados, nem por isso deixamos de gostar menos dela.

Na verdade, a periferização do país fazia, e ainda faz, com que os objectos coleccionáveis do século XX, ou que estejam na moda, nacionais ou estrangeiros, sejam vendidos a preços exorbitantes. Como também já referimos, a globalização que as viagens, reais ou virtuais, possibilitam, permitiu uma maior difusão de conhecimentos, abriu novos campos de informação e facilitou a circulação de objectos até então menos acessíveis. No entanto, a relativa marginalização de largos sectores da sociedade portuguesa em relação a estes novos caminhos leva a que esta democratização continue limitada a um gheto de interessados mais ou menos “estrangeirados”, e se continue a ver em algumas casas especializadas artigos Arte Nova, Art Déco e de design vintage, muitas vezes de terceira ordem, vendidos a preços ridiculamente caros.


As peças portuguesas, devido à relativa escassez de produção, são habitualmente mais caras que as suas congéneres europeias. No entanto, isso não justifica os preços absurdos praticados por grande parte dos vendedores nacionais, que por falta de referências estão convencidos que têm tesouros na mão. Pena que assim seja, pois em vez de fidelizarem uma potencial clientela acabam por afastá-la, pelo que todos ficam a perder.

Como se vê, julgamos estar hoje mais atentos e informados. Ou talvez não…

sábado, 4 de agosto de 2012

Escultura art déco de mulher – Estatuária Artística de Coimbra


Peça escultórica art déco de faiança moldada e relevada, craquelé, de cor marfim, representando uma mulher nua, de pé, perna esquerda flectida sobre soco escalonado em dois planos, com manto drapeado sobre os ombros, envolvento a perna direita. Na base, pintado à mão, a preto, «Estatuaria Artistica de Coimbra» e «Portugal».
Data: c. 1943-45
Dimensões: Alt. 43 cm (base: comp. 17,2cm x larg. 9 cm)




Segundo MAFLS, a Estatuária Artística de Coimbra foi fundada em 1943. Perante esta baliza cronológica, estamos em crer que o modelo que apresentamos será da sua produção inicial, não só porque a marca nos aparece manuscrita mas também dadas as características vincadamente art déco da figura, sua cor e craquelé, (estas duas últimas muito semelhantes a certas produções da Fábrica de Loiça de Sacavém dos anos 30 e 40 como aqui já mostrámos e haveremos de continuar a ilustrar). A modulação um tanto rígida, diríamos mesmo quase masculinizada, desta figura de mulher, a posição e o próprio penteado remetem para as personagens guerreiras da arte assíria, e daí a termos baptizado como «guerreira». Como a parte posterior é praticamente plana, dá a sensação que o modelo que lhe serviu de inspiração foi uma escultura destinada a ser encostada a uma superfície mural ou mesmo um alto-relevo. Como já aqui tivemos oportunidade de referir, no post de 15 de Novembro de 2011, esta fábrica copiava modelos internacionais, alguns de escultores famosos.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Caixa triangular 2 - Carstens Uffrecht




Variante decorativa da caixa com tampa de metal cromado anteriormente apresentada da Carstens Uffrecht, igualmente atribuída a Grete Weiss. Este exemplar apresenta decoração geométrica estampilhada e aerografada, mate, em tons de laranja sobre fundo creme-amarelado que se repete nas três faces. Na base, sem marca, inscrito na pasta nº 620. da forma.
Data: c. 1929
Dimensões: alt 7,5 cm (10 cm c/tampa) x larg. máx 13 cm


Caixa triangular 1 - Carstens Uffrecht


Caixa de cerâmica moldada composta por uma taça triangular de faces curvas e base reentrante, com decoração geométrica estampilhada e aerografada, mate, em tons de amarelo e castanho sobre fundo creme, que se repete nas três faces, com tampa de metal cromado. Na base carimbo triangular da Carstens Uffrecht sobre Dek. 252 e, inscrito na pasta, nº 620 da forma.
Data: c. 1929
Dimensões: alt 7,5 cm (10 cm c/tampa) x larg. máx 13 cm



Esta caixa, possivelmente uma bomboneira, é da autoria de Grete Weiss, designer de que já aqui apresentámos uma jarra a ela atribuída. Grete Weiss e Martha Carstens são as principais designers responsáveis pelas produções da fábrica de cerâmica J. Uffrecht & Co., filial do Carstens Christian Kommandit-Gesellschaft, em Neuhaldensleben, pelo menos desde os finais dos anos 20 e até inícios de 30 do século XX.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Jarra com três asas – Aleluia-Aveiro


Jarra de faiança moldada e relevada cuja forma remete vagamente para a hídria grega (jarro para armazenar água de bojo arredondado com três asas, sendo duas horizontais nas laterais e uma asa vertical na parte posterior).


O bojo é piriforme e assenta sobre pé troncocónico preto. O gargalo esguio, preto, é rematado por bocal em anel saliente a branco que realça o interior a amarelo gema de ovo. O bojo apresenta decoração de seis panos lanceolados, delineados por linhas pretas, intercalados em sentidos opostos. Os três pendentes ostentam igual número de asas redondas na horizontal, a preto, destacando-se numa superfície branca que recebeu ao centro trapézio a laranja relevado. Sob elas, uma composição a amarelo nacarado listrada na vertical por linhas pretas afunila em direcção ao pé num triângulo a branco e preto.

Nos três panos ascendentes, as partes superior e inferior são a cinzento nacarado listradas na horizontal por linhas pretas. De permeio, uma superfície branca onde, ao centro, igualmente se destaca um trapézio a laranja relevado. Todas as linhas pretas são incisas.

Na base, carimbo castanho «Aleluia Aveiro» com um triângulo pintado à mão, a ouro, sobrepujando carimbo da mesma cor «Fabricado Portugal» inscrito num rectângulo, e, escrito à mão, a ouro, 797-A. No frete, a preto, a letra N.
Data: c. 1955
Dimensões: Alt. c. 28 cm


sexta-feira, 27 de julho de 2012

Serviço de chá art déco alusivo aos Jogos Olímpicos de 1936 – Vista Alegre

Em jeito de evocação do ideal olímpico de paz e coexistência entre os povos que hoje, mais uma vez, se celebra, apresentamos um serviço de chá da Vista Alegre, testemunho da comemoração de uma olimpíada que, infelizmente, simbolizou a adulteração total dos referidos ideais. Que os Jogos Olímpicos de 2012, em Londres, sejam uma festa da Humanidade.




As chávenas deste modelo já foram apresentadas com outra decoração em 1 de Abril de 2012, juntamente com outro serviço.


Serviço art déco de linhas modernistas de porcelana branca com decoração alusiva aos Jogos Olímpicos de 1936, composto por bule, leiteira, açucareiro e chávenas com respectivos pires. O símbolo olímpico, a cinco cores é complementado pelas cores da bandeira nacional (embora o encarnado tenha aqui um tom mais alaranjado) representado por duas argolas, apenas ausentes nas chávenas e pires. Na base de todas as peças, carimbo verde V. A. Portugal (Marca 31: 1924-1947). Na leiteira, pintado à mão a laranja, PA204, e, inscrito na pasta, 25. Inscrito na pasta, à mão, no bule, 1 = 4; na chávena, 4 e t (?); no pires, 7.
Data: 1936
Dimensões: Várias



Modelo lançado pela Vista Alegre por volta de 1935, a decoração deste nosso exemplar é seguramente do ano seguinte, dadas as referências óbvias aos Jogos Olímpicos de 1936 na Alemanha.









Vagamente inspirado no modelo Conical – Odilon, criado pela inglesa Clarice Cliff, em 1929, da linha Bizarre, a versão portuguesa apresenta bastantes diferenças na forma das peças em relação à sua, eventual, fonte de inspiração. Não há dúvidas que a forma da leiteira e a base, em cruz grega, do açucareiro, remetem para o modelo inglês, tal como as pegas das tampas. Mas estas são as únicas semelhanças pois em relação às demais formas só encontramos diferenças: o açucareiro na versão inglesa é perfeitamente cónico e não em calote esférica como o modelo VA, forma que se repete nas chávenas de asa cúbica; no bule inverte-se o sentido troncocónico do corpo da peça e também a asa e o bico não acompanham o modelo inglês. E mesmo a leiteira da versão portuguesa apresenta uma subtil curvatura junto à base que contraria a forma troncocónica do original. Demasiadas diferenças para uma filiação directa que alguns pretendem ver.





Uma coisa parece certa, a decoração será de inspiração alemã, caso das duas argolas que aqui apresentam as cores da bandeira portuguesa, mas que noutros exemplos deste modelo de serviço da VA estão em consonância com os exemplos que aqui ilustramos, da fábrica alemã Schmelzer & Gericke em Althaldensleben, mais ou menos da mesma data.



Este serviço terá sido editado apenas para comemoração dos Jogos Olímpicos ou terá tido também funções de representação na comitiva oficial portuguesa ao evento que pretendia ser a celebração triunfal dos êxitos do nazismo e do novo papel da Alemanha no concerto das nações?


Não nos esqueçamos que a década de 30 foi a época por excelência do triunfo dos fascismos nos quais o regime de Salazar se enquadrava.


Utilizando massivamente todos os meios possíveis de propaganda, o regime nazi de Hitler aproveitou os Jogos Olímpicos de 1936, em Berlim, como elemento potenciador do prestígio da nova Alemanha.

Criou o mais moderno complexo desportivo feito até então, limpou a cidade de toda a propaganda anti-semita, insinuou a ideia de que o regime era tolerante e pacífico, na crença de que a superioridade ariana haveria de ser demonstrada pelo número de medalhas ganhas. Quase que numa premonição do que haveria de acontecer nove anos depois, foram os estrangeiros, nomeadamente a “raça inferior” dos negros norte-americanos que arrebataram as medalhas de atletismo, a mais importante das modalidades olímpicas, derrotando a Alemanha. E o herói destes jogos que pretendiam ser a exaltação da raça ariana, foi Jesse Owens, um afro-americano (para utilizarmos a linguagem politicamente correcta).


É neste enquadramento que a produção de porcelana alemã, que aqui se ilustra, teve o seu papel enquanto veículo de exaltação do regime em ano de grandes celebrações desportivas e de triste memória.


terça-feira, 24 de julho de 2012

Jarra art déco Argenta “Sereia” - Gustavsberg


Mais uma jarra art déco de grés da linha Argenta concebida por Wilhelm Kåge (1889 -1960), um dos nossos designers preferidos, para a fábrica sueca Gustavsberg, com decoração de sereia com duas caudas, de prata embutida. Na base, a prata, Gustavsberg seguido do símbolo “Âncora”, 978 III, e SJ. Inciso na pasta a marca Gustavsberg com respectivo símbolo “Âncora” e KAGE inscrito num rectângulo com N a prata.
Data: c. 1940
Dimensões: Alt. c. 26 cm x diâm. 18,5 cm


As iniciais SJ correspondem ao artista decorador Sven Jonson, e a presença do N na base parece indicar que se trata de uma peça produzida em 1944.

sábado, 21 de julho de 2012

Caixa art déco com escorridos - Lusitânia Lisboa


Caixa de faiança moldada, de forma hexalobada, com taça assente sobre pé circular a preto ligeiramente reentrante. A superfície recebeu uma cor de fundo de espesso azul-claro sobre a qual foi pintada uma grelha a preto, ficando zonas em reserva, sinuosamente recortadas, preenchidas a laranja forte, que produzem escorrências controladas. Na tampa, a pega a preto, reproduz em miniatura a forma da caixa. Na base, carimbo estampado, verde, da unidade de Lisboa: escudo coroado Lusitânia, com Cruz de Cristo enquadrada pelas iniciais C F C L [Companhia das Fábricas de Cerâmica Lusitânia] sobrepujando Portugal.
Data: c. 1930
Dimensões: Alt. 11 cm x larg. 18 cm




Mais uma vez estamos perante uma peça que tanto ao nível da forma como da decoração, aplicada a aerógrafo formando escorridos, é de influência da Europa central. Neste caso, e como já vai sendo habitual, encontrámos paralelismo em peças alemãs que aqui reproduzimos, uma delas marcada como sendo da fábrica Staffel.

Tirando partido dos escorridos de forma estudada mas simultaneamente aleatória esta técnica de decoração foi muito utilizada na Alemanha e países vizinhos. Os efeitos obtidos pelas escorrências dão origem a decorações abstractizantes todas com pequenas variações entre si apesar de partirem da mesma matriz decorativa. O cuidado posto na colocação dos esmaltes leva a que muitas vezes as peças pareçam exactamente iguais.

Há cores que são comuns, fruto do gosto da época, como é o caso deste laranja estridente que vamos encontrando tanto em fábricas nacionais - já aqui mostrámos várias de Sacavém - como alemãs e dos países que formaram a coração do império austro-húngaro.