quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Jarra “Flores Art Déco” - Sacavém



Jarra de faiança moldada, em forma de balaústre, de cor branca com decoração de flores policromas e folhas verdes, delineadas a preto acentuando o desenho estilizado ao gosto art déco. Pé e bocal realçados a preto. Na base, carimbo verde Gilman & Cta - Sacavém
Data: c.1930
Dimensões: alt. 19 cm

No grafismo das flores, encontramos nesta jarra uma linguagem importada. A estilização das flores remete, em nossa opinião, claramente para a influência francesa do padrão Millefiori utilizado nas peças criadas no atelier de arte Primavera e produzidas pela Fábrica de Faiança de Longwy, de que aqui já apresentámos um exemplo, que também tinha pé e bocal realçados a preto. Contudo, se na peça de Sacavém, a qualidade dos esmaltes não está à altura da sua fonte de inspiração, de um ponto de vista meramente plástico, pela estridência da cor conjugada com o grafismo do desenho o efeito é surpreendentemente inovador e mesmo, pelo menos no contexto nacional, revolucionário.

A estilização das flores-círculo remete-nos para uma influência do orfismo dos Delaunay. São estes mesmos círculos órficos que em Portugal, sobretudo em Lisboa, vão ter impacto no desenho das serralharias artísticas aplicadas nas arquitecturas modernistas dos edifícios projectados pelo arquitecto Cassiano Branco e seus seguidores durante a década de 1930.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Jarra art déco Argenta “Golfinhos” - Gustavsberg




Jarra da linha Argenta, de grés com aplicação de prata sobre fundo esmaltado verde mate, evocando bronze com verdete à semelhança dos bronzes chineses. Ornamentação de golfinhos classicizantes, sendo um de maior dimensão. Na base, a prata, HAND DREJAD inscrito num rectângulo, ARGENTA, 978, II e, incisos na pasta, a marca Gustavsberg, com símbolo de âncora, e KÄGE inscrito num rectângulo, e 1.
Data: c. 1932
Dimensões: alt. 21 cm

Conhecíamo-la de fotografia da colecção do Metropolitan Museum de Nova Iorque, e nem acreditávamos estar perante um exemplar idêntico à venda num pequeno antiquário em Estocolmo. A peça era um ícone do déco sueco e estava ali à nossa espera. Entrámos, perguntámos o preço, e, afinal, tínhamos dinheiro para a comprar. A jarra, que então adquirimos, ocupa um lugar muito especial no leque das nossas afeições.

Pintor, designer gráfico e ceramista, Wilhelm Kåge (1889-1960), estudou na Escola de Belas Artes Valand, em Gotenburgo, e posteriormente em Estocolmo e Copenhaga.
Seguindo a recomendação da Sociedade Sueca de Design Industrial, de que os artistas deveriam ser integrados na indústria a fim de melhorar a qualidade artística dos objectos domésticos e, por esse meio, educar o gosto do consumidor, Kåge deixou uma prometedora carreira de designer gráfico e entrou para a fábrica de cerâmica de Gustavsberg, em 1917, como seu director artístico, cargo que ocupou até 1949. E mesmo depois desta data, substituído que foi por Gustav Lindberg, continuou, de maneira informal, a trabalhar nela até à sua morte.
A par das peças utilitárias, em faiança, acessíveis às classes trabalhadoras, caso do serviço de jantar Liljebala (Lírio Azul), de 1917, ou das linhas de loiça de ir ao forno e à mesa “Pyro”, de 1930, e “Practica”, de 1933, Kåge também fez peças mais exclusivas e mesmo peças únicas em escultura. Recebeu um Grand Prix na Exposição de Paris de 1925.
Em 1930, na Exposição de Estocolmo, Kåge introduziu a produção da muito dispendiosa linha “Argenta”, caracterizada pela aplicação de motivos maioritariamente clássicos e/ou marinhos de prata incrustados no grés colorido. Embora o verde seja a cor mais frequente, existe também noutras cores, caso do vermelho, do azul e do castanho: mas sempre um “must” em matéria de artesanato oneroso.
Já em 1926 havia mostrado protótipos desta linha em Estocolmo e, no ano seguinte, em Nova Iorque, só que as decorações apresentavam aplicação a ouro sobre as superfícies verde-escuras. A linha Argenta serviu a Kåge como um contraponto artístico à sua tarefa principal de criar loiça utilitária de um funcionalismo sem compromissos.
À sofisticação das formas aliou-se o refinamento do desenho, por vezes pleno de ironia, onde criaturas aquáticas - das diferentes espécies de peixes, aos golfinhos, tritões e sereias, sobretudo - evoluem num borbulhar de bolhas de ar delicadamente embutidas. Noutros casos, são apenas figuras femininas, ora languidamente reclinadas em mundanas e sofisticadas poses, ora dançando envoltas em véus. Ainda no figurativo, destaca-se a figura da serpente. Em paralelo surge um outro tipo de decoração, mais geométrica, com ornatos em zig-zag, talvez numa estilização de ondas, meandros quebrados, ou simples linhas, etc. Haveremos de mostrar aqui alguns exemplos.

A linha Argenta teve tal sucesso, sobretudo nos Estados Unidos, que foi produzida até praticamente à morte do seu criador, embora os exemplares da década de 50 apresentem novas propostas tanto ao nível dos modelos como das decorações, maioritariamente de outros designers que não Kåge. Embora mantendo parte do repertório clássico, que adquire um grafismo mais anguloso e menos rico de detalhe, abundam as florinhas e outras decorações que, quanto a nós, são menos apelativas que a produção das duas décadas anteriores claramente art déco.

A atracção dos países nórdicos pelo classicismo deu-lhes a reputação de serem sóbrios, pelo que a história do design escandinavo nos princípios do século XX foi marcada por duas tendências dominantes: por um lado, a sobrevivência e adaptação das tradições dos estilos neoclássico e Biedermeier às necessidades e aos gostos contemporâneos, e por outro, a expansão do funcionalismo.
E se os ritmos “jazzy” e as cores espalhafatosas, que mais facilmente se associam ao estilo Art Déco, excitavam pouco a imaginação nórdica, outra versão do estilo havia, representado noutros pontos da Europa pelo neoclassicismo mediterrânico moderado e presente nas cerâmicas de René Buthaud ou nas telas de Henri Matisse, que estava mais conforme à sobriedade escandinava. Assim, por consequência, a Art Déco nórdica encontrou aí o seu lugar através de uma reformulação subtil desse mesmo classicismo, num emprego inventivo do ornamento e numa admiração sem limites pelo artesanato.
O humanismo e a reforma social estiveram no centro das preocupações nos países nórdicos. O design “socialmente correcto” e as suas consequências na produção de massa e a utilização das máquinas percebidas como libertadoras, foi uma das direcções escolhidas. A outra foi a individualidade, o artesanato tradicional, o prazer dos materiais, o luxo e a linguagem familiar da proporção humana clássica.
A tensão entre “austeridade” e “graça” foi “à la longue” resolvida pelo conceito de “beleza social”. Mas nas décadas de 20 e 30, os designers seguiram o caminho da graça e do luxo, fazendo o elogio da decoração, e é nisto que a Escandinávia contribuiu de maneira tão particular para a evolução do estilo Art Déco. De outras fábricas concorrentes, igualmente representantes da “swedish grace”, haveremos de dar notícia e exemplos.

Se quiserem saber mais aconselhamos a leitura do catálogo L’art déco dans le monde (2003) e do livro de Alastair Duncan, Art Deco Complete (2009) de onde parte destas informações foram retiradas.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Jarra colo de cisne Aleluia-Aveiro





Jarra de faiança moldada, pintada à mão, cuja torção da forma, que sugere um cisne muito estilizado, cria uma jarra dupla, com duas bocas, uma redonda, baixa, e outra quadrangular no topo de um alto e curvilíneo gargalo em pescoço de cisne. Duas cores e texturas distintas dividem ao meio esta jarra. A metade interna é de um uniforme cor-de-laranja estridente, pouco brilhante, que contrasta dramaticamente com o madrepérola do lado externo, muito liso e brilhante (lustrina) que é pintalgado por espessas gotas cor-de-laranja que conferem uma textura outra. O bocal superior é vidrado interiormente por madrepérola acinzentado, sendo o outro amarelo pálido, ambos igualmente brilhantes. Na base, carimbos dourados Aleluia-Aveiro e Fabricado Portugal, inscrito num rectângulo, e, pintado à mão, também a ouro, 752 B.
Data: c. 1955
Dimensões: alt. c. 33 cm x larg. c. 20 cm

O que mais nos agrada na produção cerâmica Aleluia-Aveiro de meados dos anos 50, para além da vertente escultórica das suas formas, como é o caso deste exemplar, é o optimismo que lhe está subjacente. Quer pelos modelos, quer pelas composições cromáticas, elas dão-nos uma dimensão lúdica, mesmo irreverente, o que, quanto a nós, constitui a sua mais-valia por contraponto às outras concorrentes, sobretudo em relação à SECLA, a que já aqui aludimos, mais “sérias”.

Claro que em muitas das peças da Aleluia-Aveiro são reconhecíveis as fontes de inspiração externas do design internacional coetâneo, e uma delas é, sem dúvida, a produção italiana do pós-guerra, de que os exemplares que Nino Strada (1904-1968) criou, entre 1950 e 1955, para a Societa Anonima Maioliche Deruta, dão testemunho, como muito bem se salientou no blogue CMP (ver: http://ceramicamodernistaemportugal.blogspot.com/2011/12/pratos-de-parede-e-jarra-raul-da.html). Mas, como sempre soube fazer, a Aleluia-Aveiro interpretou-as e criou algo inconfundível e único.
Ao horror nuclear do pós-guerra contrapunha-se um desejo de evasão, um optimismo generalizado e a promessa de uma nova era de paz e prosperidade. A conquista do espaço anunciava-se promissora, e 50 anos depois haveríamos de habitar a Lua e Marte. A ficção científica na literatura, no cinema e na banda desenhada, criava uma antevisão do futuro onde, e apesar de algumas propostas mais catastrofistas, era o progresso civilizacional que se destacava (adivinhava) no horizonte. Também a arquitectura e as artes decorativas seguiam, pelo menos em parte, o mesmo percurso criador, e mesmo num país que vivia os ”anos de chumbo” de uma ditadura feroz, havia um espaço de liberdade criativa, embora reduzido e destinado a uma pequena elite sedenta de novidade e de seguir as tendências internacionais. E nem o fantasma da Guerra Fria fez esfriar o entusiasmo que haveria de explodir com todas as barreiras na segunda metade da década seguinte.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Jarra flores relevadas art déco Paul Milet - Sèvres




Jarra de faiança moldada e relevada, vidrada a azul-turquesa, lembrando o azul egípcio, muito brilhante, de corpo ovóide e gargalo largo, composto por oito panos abaulados, quatro lisos e quatro com decoração relevada de flores estilizadas, de dois tipos, intercaladas, dentro da gramática art déco. Gargalo alto, nervurado no alinhamento dos panos lisos do bojo. Na base, carimbo MP Sèvres dentro de um círculo pontilhado
Data: c. 1925
Dimensões: alt 32 cm

A Manufacture MILET (1866-1971), empresa familiar que, durante três gerações, foi a mais importante manufactura privada de cerâmicas da cidade de Sèvres, criada por Félix-Optat Milet (1838-1911), antigo modelador e decorador da Manufactura Nacional de Sèvres. O filho único de Optat, Jean-Paul, conhecido por Paul Milet (1870-1950) formou-se no laboratório de Sèvres, onde se tornou um bom químico. Tomando a seu cargo, progressivamente, a manufactura familiar, participou em vários Salons des Artistes Français, tendo obtido a medalha de ouro para as suas faianças na Exposição Universal de Paris em 1900.
Após a I Guerra Mundial abandona a produção de porcelana, e rapidamente, se vira para a criação de formas no gosto art déco em objectos de faiança, em estreita colaboração com o filho Henri, engenheiro cerâmico, que será nomeado director da fábrica em 1931. As peças antes de 1930 recebem o carimbo MP – Sèvres, passando a PM-Sévres depois dessa data.
As suas jarras, taças, etc, são produzidas em pequenas séries com cores uniformes ou misturadas que são, principalmente o azul-turquesa, de que o exemplar que apresentamos é ilustrativo, o vermelho e o verde. Muitas vezes recebem criativas montagens de bronze.
A fábrica encerra após a reforma de Henri Milet, em 1971

Fruteira de Hansi Staël - SECLA




Fruteira de faiança moldada, redonda com os bordos encurvados, pintada à mão. Parte interior, de cor branca, com pintura expressionista de frutos policromos. Exterior uniformemente verde celadon. Na base, pintado à mão, SECLA Portugal Hand painted 52 (?) Staël. Carimbo inscrito na pasta, no rebordo da base, SECLA Portugal 2 e, esgrafitado no vidrado, 2.
Data: 1952 (?)
Dimensões: c. 26,3 cm x c. 19 cm

Na sequência do post anterior, voltamos à fábrica SECLA – Caldas da Rainha com uma peça da húngara Hansi Staël (1913-1961). Nascida em Budapeste radica-se em Portugal depois da II Guerra Mundial, em 1946.

O acaso, como sempre acontece quando se vai à Feira da Ladra, fez-nos encontrar, há muitos anos, esta peça, da fundadora do Estúdio SECLA.
Como ceramista, Staël assumiu a chefia da secção de pintura da SECLA em 1950, e direcção artística a partir de 1954, colaboração que perdurou até 1957, data em que saiu por motivos de doença. Staël renovou a produção corrente da fábrica, pelas inovações estéticas que aí introduziu, onde estão patentes quer as influências vanguardistas da Europa Central desenvolvidas entre as duas guerras mundiais, quer o neo-realismo nacional, quer o revisitar da cerâmica tradicional portuguesa.
Viria a morrer em Londres em 1961.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Jarrão “Moliceiros” Aleluia-Aveiro




Jarrão de faiança moldada, em forma de balaústre, com decoração policroma pintada à mão, com friso central naturalista representando 4 moliceiros, iguais dois a dois, intercalados, enquadrado por estreitos e coloridos frisos com ornatos de ondas, e por frisos largos que consistem na estilização de vagas espumosas e silhuetas de caranguejos, a preto, num japonismo revisto pela Arte Nova. Dois frisos coloridos com ornatos de meios-círculos enquadram pé e bocal. Na base carimbo redondo sobre rectângulo Aleluia – Aveiro. Made in Portugal Hand Painted. Inscrito no centro do carimbo, pintado à mão a preto, B. Por baixo, também pintado à mão a preto, 132 D
Data: c. 1935-45
Dimensões: alt. 48 cm


Esta peça, em termos estéticos, foge um pouco à gramática art déco e a outros cânones estéticos que procuramos nas peças Aleluia-Aveiro produzidas nas décadas de 30 e 40 do século XX. Foi-nos oferecida por familiares com muito carinho que a encontraram numa feira de velharias. Contudo, é exemplar no contexto cultural e mental em que foi criada, pelo que, a propósito dela, aproveitamos para divagar um pouco, em reflexões pessoais sem grandes preocupações, sobre as peças que hoje constituem a nossa colecção dedicada a esta fábrica, num período que vai de c. 1930 a c. 1960. Abrangemos, pois, 40 anos de produção Aleluia.

Com origens que remontam a 1905, quando depois de um período de crise em que vivia a Fábrica da Fonte Nova, João Aleluia, Feliciano Aleluia e outros constituíram uma nova sociedade para produção de produtos cerâmicos, com instalações no Largo dos Santos Mártires. João Aleluia torna-se no seu principal responsável e, em 1917, por falta de espaço, as instalações mudam-se para o Canal da Fonte Nova. Com seus filhos, Gervásio e Carlos, a fábrica ganha importância nos mercados interno e externo, e, a partir de 1922, passa a denominar-se Fábrica Aleluia.
A fábrica transformou-se numa autêntica escola de ceramistas e pintores a nível regional, cuja qualidade era reconhecida em exposições nacionais e estrangeiras. (ver: http://aveirana.doc.ua.pt/pereiracampos.htm)
Saliente-se, todavia, que a Aleluia-Aveiro apresenta, desde cedo, uma produção com uma identidade própria, mesmo quando baseada em modelos e/ou motivos estrangeiros, como já tivemos oportunidade de referir.
As suas peças são inconfundíveis a nível nacional e internacional, mesmo quando os motivos e as formas são tardias (caso das peças anos 30 cuja decoração, quer pela temática, quer pela forma, quer pelo grafismo curvilíneo dos desenhos ou o jogo da sua repetição, nos remetem para um universo mais Arte Nova, portanto, mais próximos de 1900, que Art Déco ou Modernista.
Partindo, por vezes, de referenciais cretenses e micénicos, como a utilização de certas figuras animais, caso do polvo, ou de elementos neo-gregos ou neo-renascentistas, ou elementos mais naturalistas, de temática folclorizante, ou mesmo apesar de certas afinidades com alguma da produção da fábrica francesa Ciboure, a Aleluia-Aveiro criou uma identidade própria, expressiva, através de uma paleta de cores específica e de um repertório temático rico de detalhe, apostando em motivos ligados à sua localização geográfica, ora marinha, ora ribeirinha e lacustre, e às actividades marítimas locais. Daí o nome da fábrica Aleluia ser indissociável do nome da terra onde se localiza: Aveiro.

É, em nossa opinião, a mais genuinamente portuguesa das produções cerâmicas nacionais da época, no sentido de dar uma leitura outra, nacionalizando estéticas e motivos que chegavam de fora.
Talvez a isso não seja alheia uma certa frescura ingénua dos seus artistas, sem formação de escola, mas decoradores por tradição familiar e transmissão de mestres para discípulos, sobretudo até aos anos de 1940. Haverá excepções, certamente, como em todos os casos.
Ao repertório tardio Arte Nova de umas quantas composições decorativas, a Aleluia-Aveiro, soube introduzir uma gramática identitária perfeitamente reconhecível e inconfundível, quer pela paleta de tons escuros, uma certa tendência para a bicromia (ou quase) em determinada produção dos anos de 1930-40 que, em paralelo com outras mais vivas, fazia a diferença.


O universo imagético de que se rodeou, ligado às actividades marítimas locais, revelou-se a sua maior qualidade, e se o Japonismo revisto pela Arte Nova é reconhecível nuns tantos motivos, caso das ondas e caranguejos, outros há em que indo buscar modelos à Idade Média, caso das jarras bojudas com 3 asas, quer à Antiguidade Clássica ou à sua revisão renascentista, como certas jarras em forma de ânfora ou outras, ou mesmo nas formas mais convencionais, como as de balaústre ou globulares. Teremos oportunidade de mostrar várias peças ilustrativas, onde são reconhecíveis os traços que as inspiraram mas cuja genuinidade local está bem patente.
O reino animal e vegetal ligado ao universo marinho costeiro ou lacustre: o búzio, ou outro tipo de conchas, o caranguejo e outros crustáceos, o polvo, as estrelas-do-mar, os cavalos-marinhos, as algas bodelhas, o sargaço, o pato-real, a cegonha, o nenúfar, o caracol …
Muitos adquirirão novas qualidades plásticas na produção de c. 1945-55, com as suas formas a moldarem o relevo das próprias peças e não apenas pintadas.

Mas, na década seguinte será outra loiça, parafraseando a célebre campanha publicitária da sua mais conhecida concorrente na faiança nacional.
As peças, sempre pintadas à mão, seguem a técnica tradicional da bicozedura, em que à pintura sobre vidro cru, aplicada sobre a chacota cozida, se segue uma cozedura fina.
Quer pelo design das formas, quer pelo rico colorido e composições decorativas, a produção, a partir de meados dos anos 50, da Aleluia-Aveiro é, a nosso ver, das mais consistentes a nível nacional, dando-lhe um cunho, mais uma vez, personalizado, ultrapassando mesmo, em certos aspectos, a SECLA, cuja concorrência obrigara à mudança de rumo das suas criações.


De facto, a SECLA - Sociedade de Exportação e Cerâmica, Lda, que havia sido registada em Dezembro de 1946, começando a laborar a 1 de Janeiro do ano seguinte, criou o Estúdio SECLA, que resultou de um projecto de renovação da cerâmica de autor e de reunião de artistas plásticos, desenvolvendo-se a partir de 1950 e até aos inícios da década de 70. Esta proposta veio concretizar o desafio lançado no Salão Nacional de Artes Decorativas, de 1949, para os industriais recorrerem a artistas plásticos no sentido de uma renovação das suas produções cerâmicas. A reacção de outras grandes fábricas portuguesas não tardou, renovando formas e decorações. A par da Aleluia-Aveiro será a Fábrica de Loiça de Sacavém outra das mais bem sucedidas neste esforço de modernização, acompanhando, assim, o design contemporâneo internacional

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Tête-à-tête da Empresa Electro-Cerâmica de Vila Nova de Gaia




Dentro da gramática art déco, tête-à-tête para chá, composto por tabuleiro, bule, açucareiro, leiteira e duas chávenas com respectivos pires. Peças de porcelana moldada, de cor branca com pequenas flores estilizadas a azul e laranja, realçadas com filetes e laranja e rebordos por lista cinza-claro. Na base, carimbo cinzento (excepto numa chávena que é igual mas em azul): EC inscrito num quadrado na oblíqua envolvido por Empreza/Electro/Cerâmica/VNGaia
Data: c. 1930
Dimensões: tabuleiro: 30 cm x 23 cm (restantes peças várias dimensões)

Em 1914 foi criada a firma Mourão & Companhia Limitada, com sede e fábrica na Fonte das Regadas, no Candal, em Vila Nova de Gaia, que se dedicava ao fabrico de acessórios eléctricos de porcelana, uma sociedade por quotas, cuja alteração do capital social haveria de dar origem à Empresa Electro-Ceramica Limitada no ano seguinte. Em 1919 transformar-se-ia na Empresa Electro-Cerâmica, SARL.
Por volta de 1930, a empresa começou também a produzir louça utilitária e decorativa. Em 1936 faz uma parceria com a Fábrica de Porcelana da Vista Alegre, adquirindo, cada uma delas, 50% do capital da Sociedade de Porcelanas de Coimbra (SP-Coimbra).
À beira da falência, a Electro-Cerâmica é adquirida, em 1945, pelo Grupo Vista Alegre, que procedeu à sua reestruturação económica, estabelecendo aqui a produção «da pequena aparelhagem eléctrica, dos isoladores, das tubagens em plástico VD para instalações eléctricas interiores e das tubagens em tubo Bergmann para instalações eléctricas exteriores, isto é, tudo o que se relacionava com electricidade» Assim, a Fábrica de Porcelana da Vista Alegre e a SP-Coimbra cencentraram a produção de porcelana de mesa e decorativa a nível nacional. (Ver:
As peças produzidas, pelo menos até 1940, inclusive, ostentam o carimbo com as letras EC sobrepostas, inscritas num quadrado na oblíqua, com a designação Empreza/Electro/Cerâmica/VNGaia distribuídas pelos quatro lados. Posteriormente, e até 1945, o carimbo simplifica-se reduzindo-se ao EC inscrito no quadrado sobrepujando o nome Candal. Estamos, pois, perante um curto período de cerca de quinze anos de produção de porcelana utilitária e decorativa.


Compreende-se os receios da Vista Alegre perante a qualidade da produção desta fábrica, tal como da SP-Coimbra, cuja concorrência é eliminada.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Jarra de asas com enrolamentos - Sacavém



Trata-se de uma peça de faiança moldada, de forma ovalóide, uniformemente aerografada a cor-de-laranja forte, com duas asas laterais estriadas terminando com enrolamento, de onde pende uma gota. Assenta sobre pé saliente em forma de dois aros sobrepostos e escalonados. A cor desta peça, muito frequente nas produções da Fábrica de Loiça de Sacavém nos anos 1930-40, é uma das cores recorrentes do estilo art déco. Na base, carimbo verde, pouco legível, Gilman & Cta, Sacavém e Made in Portugal. Em relevo, nº 289.
Data: c.1930-40
Dimensões: alt. 23cm x comp.30 cm x larg. 16 cm


A fábrica americana Lenox, produziu um modelo similar (ver foto), c. 1940, embora menos depurado que a versão portuguesa.

Duas esculturas de porcelana de Léon Leyritz - França

A estilização do Neo-barroco e do Neo-rococó são exemplo de uma das vertentes do estilo Art Déco no Ocidente. Veja-se a peça Hutschenreuther já apresentada e as duas peças de porcelana moldada do escultor francês Léon Leyritz de hoje.




 Na sua graça e fragilidade neo-rococó, a figura de dama setecentista, com vestido rosa forte, sobre crinolina, que lhe deixa os ombros nus, e mantilha de renda, a preto, segura nas mãos, junto ao peito, um bouquet de rosas da mesma cor do vestido com folhagem a verde. Carnações à cor da pele, rosto pintado e cabeleira branca. Atrás, ao fundo do vestido, inscrito na pasta e realçado a preto, L. Leyritz. Na base, a azul, as iniciais ER, com o E invertido colado ao R.
Data: c. 1920-25
Dimensões: Alt. c. 29,50 cm




Grupo escultórico carnavalesco, numa cena de sedução e erotismo, não muito frequente na produção francesa, entre dois mascarados. Neste exemplar é evidente a opção de não finito no tratamento da modelação por parte do escultor. Uma “Colombina”, de seios nus, finge-se indiferente a um Pierrot que ajoelha a seus pés e lhe beija a orla do vestido, deixando por terra um bouquet de rosas malva e folhagem verde. Na mão direita, no verso da escultura, segura uma guitarra. “Colombina”, como cortesã setecentista, toda de branco, usa uma máscara a preto e um leque de penas na mão direita. Pierrot, de gorro com máscara e sapatos pretos. As carnações em ambas as personagens são à cor da pele. Hastes do leque, sola do sapato de Pierrot e guitarra a amarelo, tendo a última realces a preto. Na base, junto à perna de Pierrot, inscrito na pasta, L.LEYRITZ.
Data: c. 1920-25
Dimensões: alt 20,3 cm x comp. 24,8 cm x larg. 7,2 cm

Reconhecido escultor, sobretudo nas décadas de 20 e 30 do século XX, Léon Albert Marie de Leyritz (1888-1976), para além da pedra e do bronze, foi também ceramista, tendo praticado igualmente pintura a fresco. Nas suas múltiplas facetas de artista, foi, ainda, cenógrafo e figurinista.
Participou, desde 1905 nos diversos Salons de Paris, expondo, a partir de 1922, também no Salão dos Independentes. Ganhou várias medalhas e prémios entre 1912 e 1931.
Participou com trabalhos seus na Exposition Internationale des Arts Décoratifs et Industriels Modernes, Paris, 1925, cuja abreviatura, nos anos 60, haveria de nomear o estilo Art Déco que neste evento conheceu o seu apogeu. Foram dele a escultura que integrava a decoração do interior de um escritório do pavilhão «Studium Louvre», dos Grands Magasins du Louvre, e as esculturas de pedra que decoraram o exterior do pavilhão de «La Maîtrise», atelier de arte das «Galeries Lafayette», criado em 1922 e dirigido por Maurice Dufrêne, cuja fotografia apresentamos. Este atelier teve uma importante actividade, participando em todos os Salons e na maior parte das exposições, abrindo portas à divulgação de vários artistas, entre os quais Aymé de quem aqui também haveremos de mostrar uma peça.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Escultura “Doninha” - Coimbra SP




Escultura miniatural de porcelana moldada e relevada em forma de doninha estilizada ao gosto art déco. Decoração a cinza, aerografada, com complementos a negro, pintados à mão. Na base carimbo: S.P., com inscrição à mão: E. 9
Data: c. 1940
Dimensões: comp. 8 cm x alt. 3 cm x larg. 2 cm

Podemos encontrar paralelismo no exemplar de arminho, de maiores dimensões (22 cm), produzido pela Faïencerie d’Art de Sainte-Radegonde-enTouraine, como se pode ver na pág. 6 do seu catálogo, de c. 1930.



A Sociedade de Porcelanas de Coimbra (Coimbra S. P.), terá sido fundada poucos anos antes de 1924, data do seu alvará de criação, e, numa primeira fase, usou uma marca circular com apenas Coimbra - Portugal envolvendo as figuras do brasão da cidade de Coimbra. Quando, em 1936, foi adquirida, em partes iguais pela Fábrica de Porcelana da Vista Alegre e pela Empresa Electro-Cerâmica, já utilizava a marca Coimbra S. P que manteve na sua produção depois dessa data. Encerrou em 2005.
 (ver: http://artelivrosevelharias.blogspot.com/2011/11/servico-de-cha-arte-deco-art-deco.html)

Jarra “Chinês” da Olaria Algave (LA)?




Jarra antropomórfica, de faiança moldada, craquelé, de cor marfim, representando um oriental de joelhos com cesto às costas, produzida pela fábrica Olaria Do Algarve(AL) (?). Na base, carimbo circular preto com as letras AL sobrepostas, ao centro, enquadradas por Algarve (?) e Portugal.
Data: c. 1940-50 (?)
Dimensões: alt. c. 35 cm

A única observação objectiva que poderemos fazer sobre esta peça, é que a qualidade plástica da escultura e da técnica do craquelé são notáveis. Quanto ao resto nada sabemos. Desconhecemos a sua datação em absoluto e apenas pelas suas características formais, da estilização da figura ao gosto art déco, e a utilização da técnica do craquelé, a poderíamos datar de c. 1930. Contudo, já aqui falámos do exemplar tardio da Cerâmica S. Bernardo, de Alcobaça, em que uma peça francesa criada em 1926 foi editada em território nacional quase 60 anos depois. Neste caso, poderá ser, igualmente, um modelo importado, mas tudo continua em aberto. Em tempos, informaram-nos de que formaria par com uma mulher. Esperemos que algum seguidor deste blogue nos traga mais pistas.

Inicialmente pensávamos que fosse da Olaria de Alcobaça (OAL) fundada em 1927, por Silvino Ferreira da Bernarda, António Vieira Natividade e Joaquim Vieira Natividade. Sabe-se que, em 1948, substituiu o barro tradicional por pó de pedra (pasta branca), em que a pintura assenta sobre a chacota cozida, posteriormente vidrada. Ora será esta a técnica que encontramos na peça de hoje. Em 1984 dá-se o encerramento da fábrica. Todavia, segundo informação posterior à publicação deste post, será de uma fábrica algarvia da qual tudo desconhecemos.

 A produção de peças de faiança craquelé não parece ter tido expressão em Portugal. Técnica, utilizada na China desde o século XII, foi aperfeiçoada em França, a partir da segunda metade do século XIX, adquirindo grande importância no período art déco.
Trata-se de uma técnica, que implica a aplicação do vidrado em estado líquido, com pincel ou por pulverização. São exemplos desta última, a peça AL e a de Lemanceau anteriormente mostrada. Da primeira será exemplo a jarra Longwy também já comentada.
Os vidrados craquelé podem ser considerados como um defeito de fabrico, devido a uma má combinação entre a pasta e o vidrado.
A técnica joga com a diferença entre os coeficientes de dilatação ou de contracção dos materiais, de modo a obter o efeito estético pretendido. Assim, jogando com as proporções de óxidos alcalinos - matérias com elevado coeficiente de dilatação – obtém-se mais ou menos rachaduras. A temperatura de cozedura é também fundamental para influenciar a finura destas.
Existem diferentes processos para acentuar o craquelé, dando-lhes cor, que pode variar consoante o pigmento utilizado, do negro da tinta-da-china, ao vermelho e aos castanhos obtidos pela terra-de-Siena. Para tal, basta esfregar com tinta ou mergulhar o objecto em água colorida, ou, simplesmente, segundo a técnica mais tradicional, enterrá-lo em terra. Em seguida a peça é passada por água limpa. Estas operações devem ser realizadas no dia seguinte à saída do forno.

Escultura “Veados”, Saint-Clément - França




Escultura, de grande dimensão, representando um veado e uma corça, estilizados ao gosto art déco, de faiança branca, craquelé. Trata-se de uma obra de Charles Lemanceau (1905-1980), criado para a fábrica francesa Saint-Clément. Marcado em relevo lateralmente na base “Lemanceau”. Carimbo a pretoSt Clément made in France” no interior.
Data: 1929
Dimensões: Alt 30 x comp 44,8 x larg 12 cm

Este grupo escultórico foi vendido pelos grandes armazéns parisienses Bon Marché a partir de 1929. Trata-se da peça nº 1 do catálogo editado pela Saint-Clément em 1930.
Lemanceau foi o mais prolífico dos escultores animalistas, tendo produzido cerca de cem modelos, um sexto da totalidade dos animais em craquelé conhecidos. A estilização que faz dos animais não lhes retira a naturalidade da pose.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Elefante - Mascote Comemorativa da Primeira Exposição Colonial Portuguesa – Vista Alegre




Escultura de porcelana moldada, vidrada a branco, de elefante com tromba levantada, sobre base paralelepipédica, estilizado ao gosto art déco. Nas quatro faces desta, a azul, inscrição: Mascote Comemorativa / Primeira / Exposição Colonial / Portuguesa.
Na base, marca nº 31: carimbo VA (1924-1947), a preto, sobre carimbo azul: Casa Marinha Grande – 9 Rua Sampaio Bruno – Porto.
Data: 1934
Dimensões: alt. 14 cm

Provavelmente, esta peça, mandada fazer expressamente para a Casa Marinha Grande, no Porto, seria uma gentileza oferecida aos clientes do estabelecimento durante o período em que terá decorrido a Exposição.

Trata-se, de facto, da mascote da 1ª Exposição Colonial, realizada no Porto, em 1934. Este elemento escultórico, da autoria de Armando Correia, de grandes dimensões, encimava, no lado nascente, um corpo cúbico da falsa fachada art déco aposta na frente do antigo Palácio de Cristal. «O elefante símbolo da estabilidade, e que habita as regiões da África e da Ásia, parece pois adequado como símbolo dos territórios portugueses nesses continentes.» (Ver: http://doportoenaoso.blogspot.com/2010/10/os-planos-para-o-porto-dos-almadas-aos.html)