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quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Jarras da Fábrica do Outeiro - Águeda


Da cerâmica produzida na região de Aveiro, para além das sobejamente conhecidas Aleluia e Vista Alegre, temos duas jarras, que hoje postamos, da Fábrica do Outeiro, em Águeda, fábrica da qual nada sabemos.

Na verdade pouco nos diz o tipo de faiança que aí foi feito e, de uma maneira geral, nem temos particular interesse na sua produção. Não fora a forma destas peças nos ter chamado a atenção por outras razões.


A maior, adquirimo-la em Maio de 1999 na feira de velharias e antiguidades que, então, se realizava, no Forum Picoas. A mais pequena, comprada em 2005 num bazar de Natal. O modelo entrava dentro da gramática formal que nos ocupa.


Jarras de faiança moldada, trilobadas em forma de leque, com decoração, pintada à mão, de flores e folhas. No fundo da base, pintado à mão, a preto, na de maiores dimensões: «Outeiro» «Águeda» e «276»; na outra, «Outeiro» «Águeda» «Portugal» e «396»
Data: Entre 1940-60 (?)
Dimensões: Grande: Alt. 17 cm x comp. 28 cm x larg. 14,5 cm (máximos)
                    Pequena: Alt. 10,5 cm x comp. 17 cm x larg. 8 cm (máximos)


Esta forma art déco será cópia de um modelo da fábrica alemã Carstens-Uffrecht concebido por volta de 1930. Estamos em crer que os exemplares nacionais datarão da década de 40 ou mesmo de 50. Pode ser que entretanto encontremos novas datações. Imaginem a surpresa se fossem anteriores…


Partindo do princípio que estamos perante uma cópia, não deixa de ser interessante constatar que o espírito da peça alemã remete para uma produção de massa vanguardista dentro da estética art déco modernista, por oposição à produção portuguesa de gosto mais popular. Reflexo de duas realidades socias e culturais radicalmente opostas.


A decoração da jarra grande, com as suas flores e folhas muito nítidas, que ressaltam sobre fundo azul, remete para decorações idênticas que encontramos na produção de Sacavém dos anos 50. A da jarra pequena, muito mais conservadora, tem ainda um carácter vagamente arcaico, com as suas florinhas e folhagem, dada por pequenas pinceladas rápidas, que preenchem totalmente a superfície. Em ambos os casos a padronagem têxtil é muito evidente.


Dos exemplos que conhecemos do modelo da Carstens-Uffrecht, que aqui se ilustram, seleccionámos decorações que remetem também para outras produções portuguesas, como a da Fábrica Lusitânia, tanto das unidades de Lisboa como de Coimbra. Veja-se como também a forma, em versão alongada, é próxima das que já postámos em 7 de Janeiro de 2013, 7 e 8 de Fevereiro e 12 de Julho de 2015.


Não há dúvida que a influência da criação alemã pré-hitleriana é transversal à produção nacional dos anos 30 e mesmo sequentes. O que, num país como o nosso, com um fascismo de teor ruralizante, não deixa de ser curioso. A merecer melhor reflexão.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Jarra Bunzlau - talvez da Fábrica de Grés Julius Paul & Sohn - Alemanha


Jarra de grés moldado, em forma de balaústre, com decoração geométrica aerografada em tons de verde e castanho. Interior a castanho-mel. No fundo da base não apresenta qualquer marca. Todavia, será de uma fábrica de Bunzlau, provavelmente da Julius Paul & Sohn.
Data: c. 1930
Dimensões: Alt. 22,5 cm


As potencialidades do aerógrafo aplicado com estampilha são, como sabem, uma das nossas preferências no que à cerâmica diz respeito. Temos outras, mas não há dúvida que a modernidade e aparente facilidade deste método de decorar superfícies dá origem a uma paixão muito especial.

Já muito temos escrito por aqui sobre a maneira como as fábricas alemãs utilizaram e potenciaram as possibilidades deste método, mas ainda não tínhamos apresentado nenhuma peça cuja pintura final remetesse para um objecto pseudo-usado, uma superfície gasta por um tempo que não houve.


A composição sugere uma paisagem vertical em três planos, três vezes repetida. Por detrás de duas cadeias de montanhas, formadas pelos recortes das estampilhas, angulosos uma e curvos outra, desponta um sol acastanhado que se ergue num céu do mesmo tom delimitado pela linha recta de outra estampilha. Esta separa as três composições.


Remetendo para o abstracionismo pictórico, enquanto arte maior, os tons verdes não respeitam com rigor a estampilha do desenho de base, nem cumprem simplesmente o esfumado que é característico de grande parte das produções germânicas. Aqui a pintura a aerógrafo surge enevoada, esborratada e aparentemente gasta. A peça é, assim, simultaneamente rude e refinada. O Art Déco neste tipo de produção assume uma dimensão de vanguarda artística nitidamente bauhausiana.

Apesar de não ter qualquer marca, o estilo, as cores empregues e o próprio material, remetem para uma produção de Bunzlau, muito provavelmente da Feinsteinzeugfabrik Julius Paul & Sohn (fábrica de grés) activa entre 1893 e 1945. Porém, todo o experimentalismo vanguardista da composição parece ter tido origem na Staatliche Keramische Fachschule Bunzlau (Escola Profissional de Cerâmica do Estado em Bunzlau) cujas criações vão revolucionar a produção cerâmica local a partir do fim dos anos 20. Várias foram as fábricas da zona que aderiram a esta revolução estilística então iniciada pelo designer Artur Hennig (1880-1959).


O seu trabalho pioneiro na referida escola, iniciado em 1925, vai contaminar, através dos seus alunos, a produção cerâmica industrial de Bunzlau no final da década, assim como de outras fábricas alemãs.

Estética de curta duração, por volta de 1933 as fábricas de Bunzlau regressam a um gosto mais tradicionalista onde vão predominar os castanhos característicos da produção local oitocentista.

Bunzlau (Bolesławiec em polaco) fica na Baixa Silésia, território que desde o fim da Segunda Guerra Mundial foi reintegrado na Polónia e que a Prússia havia anexado em 1740.

domingo, 6 de dezembro de 2015

Jarra art déco Denbac forma nº 411 – França


Este modelo 411 de jarra art déco, de grés, com relevos em forma de cabochão, em duas dimensões distintas intercalados, já aqui foi apresentado numa outra variante cromática e com aplicação de armação metálica em 29 de Março de 2013. Todavia, e como então referimos, a sua leitura é, sem dúvida, muito diferente, não só porque se esvanece a lembrança do vidro soprado que os cabochões sugeriam na versão com armação metálica, como a própria cor, um verde-azulado forte brilhante, com escorrências mate castanhas mosqueadas a partir do bocal, que, em contacto com o esmalte brilhante adquire uma leitura de palhetas douradas, lhe confere uma identidade muito distinta.
No fundo da base, aparentemente sem marca dada a espessura do esmalte, as ténues incisões permitem-nos adivinhar que o que está impresso na pasta é, certamente, «Denbac» e «411».
Dimensões: Alt. 22 cm
Data: c.1925-30



É por se tornarem objectos tão distintos consoante as cores ou variantes decorativas que, enquanto colecionadores quase compulsivos (rimo-nos, mas é assunto sério, garantimos-vos), gostamos de ter vários exemplares das mesmas formas, sempre que possível. Com as consequências nefastas relativamente ao espaço e aos gastos, claro. Mas não vale a pena contrariarmo-nos, até porque nos divertimos na descoberta de cada pequena diferença…


Que pensariam o ceramista René Denert, que fundou, em 1908, o atelier cerâmico em Vierzon, e o seu sócio, a partir de 1910, René Louis Balichon, cuja junção de nomes gerou «Denbac» que baptizou a firma, como já escrevemos, ao saber que em pleno século XXI haveria em Portugal uns fanáticos que na sua colecção de cerâmica da primeira metade de Novecentos também decidiram incluir obras suas? E isto apesar da produção dos modelos que foram concebendo ter continuado até 1952 (evitar comprar modelos art nouveau se o fundo da base for esmaltado, porque demasiado tardios – a coisa é menos grave para os modelos art déco – mas daí também o baixo custo da maioria das peças).

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Jarra modelo 28–A – Aleluia-Aveiro


Jarra de faiança moldada com decoração estampilhada a preto e apontamentos manuais a aguada acastanhada sobre fundo creme. Bojo preenchido por composição de flores e folhagem, de sabor vagamente renascentista, ladeado por duas pegas simétricas bicónicas a preto. Bocal em gola évasée, creme, com exterior a aguada acastanhada e filete a preto, e interior creme com filete e perolado a preto sobre aguada da mesma cor. A parte inferior, inflectida para dentro em meia cana, a aguada acastanhada, assenta sobre pé a preto. No fundo da base, estampilhado a preto, «Aleluia Aveiro», e, pintado à mão «A» também a preto. Inscrito na pasta «28».
Data: c. 1935-45
Dimensões: alt. 13 cm


A ornamentação da jarra integra uma linha decorativa frequente na produção da Fábrica Aleluia-Aveiro das décadas de 1930-40, de que já apresentámos alguns exemplos, caso da jarra ou do cache-pot postados respectivamente em 26 de Janeiro e em 1 de Março de 2012. Desenho de inspiração clássica, num ecletismo que tanto pode remeter para uma releitura neo-renascentista ou mais barroquizante, que parece ter tido muita aceitação nacional enquanto versão local de um Art Déco conservador e respeitável.


No Catálogo de loiças decorativas das Fábricas Aleluia-Aveiro, de inícios dos anos 40, na pág. 22, esta peça aparece referenciada com o nº 28 – A, confirmando o indicado na própria peça. 


sábado, 28 de novembro de 2015

Jarra com borboletas - Royal Copenhagen - Dinamarca


Jarra ao gosto Arte Nova japonizante, de porcelana moldada em forma de balaústre, com decoração policroma, pintada à mão, em tons pastel, predominantemente de cinzas azulados. No dealbar de uma manhã sem nuvens, duas borboletas esvoaçam em primeiro plano, servindo de repoussoir a uma paisagem campestre, de colinas suaves, que cinta linearmente o bojo, e onde nos apercebemos de uma pequena casa rural que desponta por detrás da curva suave de uma colina. Apercebemo-nos também da copa de árvores que lhe estão próximas. Num plano intermédio a clara presença de três árvores recortadas contra o céu opalino. No fundo da base, carimbo verde com coroa circundada por «Royal Copenhagen» sobre três ondas pintadas à mão a azul. Também à mão, a verde, nºs 925 (decor) e 88B. (forma), e a azul «53» (nº do pintor E. Gad).
Data: c. 1900 (Marca entre 1897 e 1922)
Dimensões: Alt. 13,5 cm x Ø 8,5 cm


Trata-se de um modelo de Arnold Krog, de 1893, que recebeu uma decoração executada pelo pintor E. Gad, que trabalhou na fábrica Royal Copenhagen de 1893 a 1932.


O nascer do Sol, antevisto no toque opalino da alvorada, símbolo do renascer da vida, tem correspondência no acordar das borboletas que iniciam o seu voo na paisagem ainda adormecida. O Simbolismo da pintura complementa-se no japonismo evidente da composição.

Gostamos deste tipo de peças da Royal Copenhagen. Sendo umas mais meditativas e melancólicas que outras, de uma maneira geral são apaziguadoras. Transmitem uma saudade bucólica a quem nunca viveu numa paisagem assim, mas que sente falta dela na agitação da grande cidade. 

domingo, 8 de novembro de 2015

Jarra com bodelhas e estrelas-do-mar - Aleluia-Aveiro


Jarra de faiança moldada, bulbiforme, com decoração relevada de bodelhas e estrelas-do-mar. Duas asas em anel no estrangulamento do colo. Sobre a cor bege, apontamentos a ouro realçam, em parte, as estrelas-do-mar e as asas e circundam pé e bocal. No fundo da base carimbo a castanho «Aleluia – Aveiro» com «i» manual, a ouro, ao centro, e, pintado à mão, também a ouro, «X167-A»
Data: c. 1965
Dimensões: alt. 11 cm


O «X» indica a presença de apontamentos a ouro, seguido de «167», que será o número do modelo, e a letra «A» a indicar que se trata da primeira de uma série.

Quase sempre afinamos a datação por características estilísticas, e neste caso até a situaríamos na década de 1940, devido à linguagem tardo art déco da forma, apesar de contrariada pela agitação quase Arte Nova dos elementos ornamentais, Porém, avançamos para meados da década de 1960, na sequência do comentário de CMP aquando do peixe postado em 27 de Abril deste ano. Qualquer informação que nos possam fazer chegar, agradecemos.


A decoração em relevo remete, mais uma vez, para o ambiente marinho enquanto tema recorrente da Fábrica Aleluia-Aveiro. A maré desceu, ficaram caídas as bodelhas (Fucus vesiculosus L.), espécie de alga comum nos enrocamentos do litoral e estuários do país, que preenchem a superfície da peça com as suas ramificações onduladas e vesículas (mais precisamente aerocistos) cheias de ar, deixando entrever estrelas-do-mar. Um universo que traz para a esfera doméstica a lembrança do labor na ria de Aveiro e no litoral circunvizinho a que muita da população local se dedicava. Memórias de trabalho árduo mas também de uma natureza bela e generosa cristalizadas na produção cerâmica local.

domingo, 18 de outubro de 2015

Jarra “coração” com duas crianças – Electro-Cerâmica - Candal


Jarra de porcelana moldada em forma de coração, a verde com interior a branco, assente sobre pés laterais salientes, a preto. Sentado no bordo, casal de meninos a namorar, policromos. No fundo da base, carimbo verde «EC» inscrito num quadrado na diagonal sobrepujando «Candal». Inciso na pasta «F. 42» e, pintado à mão a preto, «N» (marca do pintor?)
Data: c. 1940 - 50
Dimensões: alt. 16 cm x comp. c. 11, 5 cm x larg. c. 9 cm



Claramente, e como MAFLS já havia referido, estamos perante um modelo de fortes ressonâncias germânicas, muito próximo das produções da fábrica Goebel.

O proprietário destra fábrica, Franz Goebel, em 1934 havia decidido lançar uma nova linha a partir de desenhos concebidos por uma freira, a irmã Maria Innocentia Hummel, anteriormente editados em postais e livros. Aliás, estamos mesmo em crer que não se tratará de mera inspiração mas de um modelo importado, talvez até especificamente para a Electro-Cerâmica do Candal, pois não conseguimos encontrar (pelo menos até agora) exemplar idêntico de fabrico alemão.


Berta Hummel (1909 -1946) foi uma artista alemã, nascida em Massing, na Baviera. Educada, a partir dos 12 anos, num colégio de freiras, as Irmãs do Loreto, em Simbach am Inn, ingressou, aos 18 anos, em 1927, na prestigiada Escola de Artes Aplicadas de Munique, onde se licenciou com distinção em 1931. Profundamente religiosa, nesse mesmo ano entrou para o convento franciscano de Siessen, onde escolheu o nome de Maria Innocentia, tomando votos em 1937.


A sua inspiração artística estava claramente imbuída do espírito franciscano. Pelo amor às crianças, aos animais, à natureza, e pelo sentimento de inocência que as suas obras transmitem ainda hoje. Transparece nas suas criações um gosto fácil, ternamente kitch que, todavia, provocou reacções negativas numa Alemanha totalitária.

Profundamente anti-nazi, a sua arte foi repudiada pelo regime, que entre outras questões, que não cumpre aqui analisar, não aceitava as suas crianças “hidrocéfalas” e amaneiradas, contrárias ao ideal ariano da masculinidade e da força física (ver foto).


Quiçá as suas criaturinhas delicodoces, inocentes, rosadinhas e saudáveis, bem vestidinhas, crianças muito loiras e pacíficas, como anjinhos barrocos agora remetidos para um papel mais laico, não terão sido uma reacção à brutalidade nazi que se impôs na Alemanha, visto que algumas das suas obras religiosas atingiram o patamar da provocação ao regime (ver aqui).

O convento de Siessen é ocupado pelos nazis em 1940, ficando as religiosas confinadas a um pequeno espaço. As dificuldades a partir de então, sentidas pela comunidade, vão deteriorar o estado de saúde da irmã Maria Innocentia que, tuberculosa, acaba por morrer em 1946, com 37 anos de idade.

A expansão internacional dos seus modelos vai dar-se, sobretudo, no final da II Guerra Mundial, com a divulgação nos Estados Unidos da América, graças aos exemplares levados pelos soldados americanos de regresso a casa.

Talvez como consequência desta popularidade, não só a Electro-Cerâmica do Candal, mas também outras fábricas nacionais, caso da Vista Alegre ou de Sacavém (imagens da Virgem, por exemplo), copiam, ou importam, os modelos da Goebel. A série «Bebé» desta última, em nossa opinião, poderá, para além das sugestões de MAFLS, com as quais concordamos plenamente, também ser uma reinterpretação da estética criada pela freira franciscana. Uma digestão perfeita de uma estética importada, esvaziada de conteúdo político, pois ao repúdio do regime belicista nazi pelas obras de Hummel, corresponde na produção portuguesa uma clara simpatia por parte da situação política vigente, ruralizante e de uma religiosidade paternalista tão do agrado do regime e da Igreja de então. Uma produção apaziguante, ternurenta e completamente inócua.


Daí também o sucesso do exemplar de hoje e de outras figurinhas com a mesma origem que a fábrica do Candal produziu e que haveremos de postar.

domingo, 27 de setembro de 2015

Jarra modelo 585 A – Aleluia-Aveiro


Jarra de faiança moldada cuja forma remete para um bivalve entreaberto, tipo mexilhão, apesar da simetria aparente das “conchas”, com parte exterior aerografada a verde-seco seccionada por uma malha reticulada de linhas incisas a preto. Interior a ocre alaranjado, aplicado também a aerógrafo, esbatendo-se para o interior. Rebordo a branco. No fundo da base, carimbo preto Aleluia-Aveiro, com «x» preto pintado à mão ao centro. Igualmente pintado à mão, também a preto, «585» e «A».
Data: c. 1955-65
Dimensões: Alt. 12,7 cm


Poderíamos defender a possibilidade deste biomorfismo de criatura marinha se integrar na representação da vida do litoral e da ria de Aveiro, tantas vezes motivo de inspiração para os artistas das fábricas Aleluia, como já justificámos em outras peças ilustradas neste blogue, produzidas nas várias épocas e estilos.

No entanto, cremos não ser o caso, pois inclinamo-nos mais a ver nele uma influência internacional das freeforms contemporâneas, que se constacta ser transversal neste tipo de produção da Aleluia-Aveiro balizada entre cerca de 1955-1965. O que nos parece ser distintivo nesta produção nacional é a paleta cromática e decorativa que reputamos de mais arrojada que muitas das suas congéneres estrangeiras.


Tratar-se-á, como em outros já postados, da primeira decoração, identificada pela letra «A», de uma série, aplicada ao modelo «585». Aliás, não deixa de ser curioso verificarmos que o acaso nos tem feito chegar à colecção exemplares maioritariamente da opção decorativa inicial de cada série.

domingo, 30 de agosto de 2015

Jarra globular – Sainte Radegonde - França


Jarra de faiança moldada, de forma globular, a verde esponjado, com bocal coroado por enrolamento serpentiforme, a branco, que pende, lateralmente em simetria, em dois lados, sobre o bojo. No fundo da base, inscrito na pasta, um machado da manufactura de Sainte Radegonde e, a verde, dois pontos.
Data: c. 1925-30
Dimensões: alt: 20.50 cm x Ø 14.00 cm


Na verdade nada sabemos de muito concreto sobre esta produção da Fábrica de Sainte Radegonde, perto de Tours, na Touraine.

A marca com machado, hache em francês, foi registada em 1890 por Gustav Asch (1856-1911), que fundou a empresa. De origem austríaca, a fonética do seu apelido é idêntica à palavra francesa.


Este tipo específico de peças, segundo algumas referências encontradas na net, e não confirmadas em outras fontes, terá sido produzido pelo Atelier de Cerâmica de Sainte Radegonde, entre 1923 e 1926 quando a unidade fabril fazia parte do estúdio «Primavera», sendo então seu director artístico René Buthaud. Outras informações apontam para cerca de 1930 e há mesmo quem remeta para a década de 1950. Todavia, esta última datação parece-nos ser a menos provável porque a técnica da serpentina de secção circular dos enrolamentos e serpenteados ter-se-á perdido por alturas da Segunda Guerra Mundial.

Seja como for, quando pela primeira vez, na década de 80 do século passado, ficámos a conhecer estas peças, atraiu-nos a originalidade e, por vezes, o humor e extravagância de formas e ornamentação que nos fazia lembrar pastelaria decorada a chantilly.

Se quiserem partilhar informações de que disponham para satisfação da nossa curiosidade e conhecimento intelectual, agradecemos.

domingo, 23 de agosto de 2015

Jarra art déco com três asas (grande) e flores cor-de-rosa – Aleluia-Aveiro


Hoje apresentamos mais uma jarra art déco com três asas da Aleluia-Aveiro. Se no post de 24 de Julho passado apresentámos o modelo 20, hoje postamos o modelo 21. Trata-se da mesma forma, embora esta de maiores dimensões. Sobre as suas muito prováveis origens germânicas, com base numa criação da Rosenthal, também escrevemos então.

De cor branca de fundo, a jarra recebeu decoração estampilhada manualmente a preto e cor-de-rosa, a cheio e em aguadas. Entre as caneluras do bojo, debruadas por filete preto e aguada, pendem festões vegetalistas estilizados, com folhagem a preto e aguada a enquadrar duas flores, uma de maior dimensão parcialmente sobreposta a uma de menor tamanho, nos tons de rosa e apontamentos a preto. Pendem de um anel cor-de-rosa aguado com perolado mais intenso, delineado por duas fiadas de filetes a preto, que cinge a parte inferior do colo. Este é ornado por folha composta digitada (motivo que se repete no início e fim dos festões, a lembrar as folhas do castanheiro-da-Índia) pendendo do filete a preto que realça o bocal, entre as ligações superiores das três asas cujas extremidades são pintadas a preto, a cheio e duas aguadas, em degradé. O pé saliente é delineado na extremidade por aguada e filete preto sobrepujados por perolado da mesma cor. No fundo da base, dois carimbos rectangulares a preto, um «Fábrica Aleluia-Aveiro», outro «Fabricado em Portugal», e, inscrito na pasta, «21» seguido de «B» pintado à mão a preto, ao lado de «†» (?) inscrito na pasta.
Data: c. 1935-45
Dimensões: alt. 20,5 cm

Estamos perante o modelo nº 21, e a segunda decoração da série, como indica a letra «B». Esta jarra aparece representada no Catálogo de loiças decorativas das Fábricas Aleluia-Aveiro,de inícios da década de 40, com mesma dimensão e numeração.


Nota: Quando no referido post anterior escrevemos a propósito da jarra «Ângelo», da Vista Alegre, não estamos exactamente perante a mesma forma, como, por lapso, referimos, mas uma sua variante com quatro asas, como MAFLS muito bem notou. 

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Jarra art déco com três asas (pequena) – Aleluia-Aveiro


Jarra de faiança moldada e relevada, piriforme, com bojo seccionado regularmente por caneluras verticais e três pequenas asas entre o colo e a parte superior do bojo. Sobre a cor creme de fundo recebeu decoração estampilhada manualmente a preto e castanho. Entre as caneluras, debruadas por filete preto, recebeu festões vegetalistas estilizados que pendem de um anel perolado que cinge a parte inferior do colo sendo a parte superior do mesmo decorado por duas folhas cruzadas, onde liga a parte superior das asas que são, em ambas extremidades, pintadas a preto em degradé, simulando o esfumado do aerógrafo. Assenta sobre pé saliente realçado por filete preto e aguada acastanhada. No fundo da base, a preto pintado à mão, «Aleluia Aveiro» e, inscrito na pasta, «20» seguido de «A» igualmente a preto pintado à mão.
Data: c. 1935 - 45
Dimensões: alt. 12,5 cm



Trata-se pois do modelo nº 20, e a primeira decoração da série, como indica a letra «A». No Catálogo de loiças decorativas de inícios da década de 40, aparece representada jarra idêntica, com mesma dimensão e numeração, mas com o nº 20-B, ou seja, a segunda da série. Haveremos de postar o modelo nº 21 de maiores dimensões e outras decorações.


Estaremos, uma vez mais, perante um exemplo de contaminação com a produção da vizinha Fábrica da Vista Alegre. Ao observarmos a jarra «Ângelo», que ilustramos, não há dúvida de que estamos perante a mesma forma. A jarra aparece-nos referida na bibliografia existente como tendo sido criada na Vista Alegre em 1937. Todavia, e mais uma vez a ironia do desconhecimento sobre a produção nacional, a fábrica alemã de porcelanas Rosenthal produziu este modelo na mesma década de 30, e não cremos que tenha sido ela a copiar um modelo português.


Aliás, a Rosenthal parece ter sido uma razoável fornecedora de modelos para o mercado nacional das fábricas de cerâmica, caso da Vista Alegre ou Sacavém e, provavelmente por acréscimo, da Aleluia-Aveiro como será o caso do exemplo de hoje.


A propósito de Sacavém, aproveitamos para exemplificar um dos casos mais flagrantes de utilização de um modelo escultórico alemão da Rosenthal e os equívocos que, mais uma vez, o desconhecimento introduz no discurso nacional vigente sobre o assunto.

Trata-se da escultura de mulher nua sentada, que na obra «Fábrica de Loiça de Sacavém» de Ana Paula Assunção aparece, na página 125, erradamente identificada como sendo da autoria de Donald Gilbert. Como ilustramos, trata-se também de uma peça concebida pela Rosenthal, criada em 1934 pelo escultor alemão Gustav Adolf Bredow (Krefeld, 1875 - Stuttgart 1953). Basta saber ver a obra de Donald Gilbert, um artista moderno, para se perceber que tal peça, de estética profundamente reacionária, já da época hitleriana, não poderia nunca ser criação sua. Uma obra sem garra.


Como tivemos oportunidade de desvendar na palestra «À conversa com …», realizada no Museu de Cerâmica de Sacavém, em 24 de Maio de 2014, intitulada «Modelos e referências estrangeiras na produção da loiça de Sacavém na 1ª metade do século XX», a influência alemã é bastante grande em Sacavém.

Habitualmente só se refere a importação de modelos ingleses, mas como se vê a Alemanha (fábricas como a referida Rosenthal, a Max Roesler, a Schramberg, a Sörnewitz-Meissen, etc.), mas também a França (apresentamos dois exemplos da Fábrica de Sainte Radegonde), deram contributos significativos para esta fábrica. São, por agora, apenas alguns exemplos, mas voltaremos ao assunto a propósito de outras peças.